O futebol segundo Drummond

O poeta Carlos Drummond de Andrade foi umtorcedor discreto e apaixonado do futebol nacional. Em mais de 5mil crônicas e incontáveis poemas que publicou, em quase 60 anos(desde Alguma Poesia, de 1930, até os últimos escritos, àsvésperas de sua morte, em agosto de 1987), abordou o assunto comentusiasmo. Um livro reunindo seus textos a respeito do esporte,em época de Copa do Mundo, é ocasião para comemorar também seucentenário de nascimento, em 31 de outubro desteano.Quando É Dia de Futebol (Record) sai no início de junho,quando serão realizadas as primeiras partidas do Brasil naCoréia. Foi organizado pelos netos do poeta, Pedro Augusto eLuis Mauricio Graña, filhos da única filha de Drummond, MariaJulieta, e do tradutor e crítico literário García GrañaEtcheverry. Eles lembram que o avô acompanhava discretamentecampeonatos e se revelava nas Copas do Mundo. "Era vascaíno noRio, cruzeirense em Belo Horizonte, torcia para o Valério, deItabira (MG), e pelo Boca Juniors, em Buenos Aires", contaPedro, que não gosta tanto de futebol, mas tem umaparticularidade na biografia: serviu o Exército, na Argentina,com Diego Maradona. "Quando o Brasil não chegava às finais,como em 1982 e 1986, ele torcia pela Argentina, por influêncianossa", conta Pedro. Imprensa - A maior parte dos textos já foi publicada,pois Carlos Drummond de Andrade está entre os autoresbrasileiros que mais escreveram na imprensa. Foram quase 60 anos, se a conta for feita desde o período em que trabalhou noDiário de Minas, em Belo Horizonte, como redator-chefe, atéas últimas crônicas, pouco antes de morrer, publicadas noJornal do Brasil. Pedro Graña conta que ainda há textosinéditos, especialmente cartas que trocava com o genro, mandavapara os netos ou para amigos brasileiros e estrangeiros,intelectuais ou não."Há também textos curtos, que chamamos de pipocas, por teremuma ou duas frases, em que o Carlos falava de futebol, emdiferentes contextos. Da primeira Copa, em 1930, até a de 1986,um ano antes de sua morte, ele assistiu a todas e vibrou comoqualquer torcedor", recorda-se o neto. Mas Quando É Dia deFutebol só traz textos escritos a partir da Copa de 1954."Organizamos o livro cronologicamente e há um pouco de cadacoisa: crônicas, poesias, cartas, essas pipocas. Ele gostavatambém de homenagear os jogadores, escrevendo para ou sobreeles."Garrincha e Pelé são alguns desses privilegiados, honrados comelogios em várias ocasiões. Não por acaso, o livro é dedicado aeles. Drummond, considerava a maestria com a bola uma arte tãodifícil de alcançar e tão importante quanto a de escrever.Em retribuição, Pelé escreveu o prefácio. Já Maradona recebiaelogios, mas com algumas reservas. No auge da carreira dele, opoeta mesclava elogios com o desejo de ver o jogador argentinomostrar seu talento em outros campos, com outros adversários quenão o Brasil.Mesmo as derrotas mereciam sua atenção, como no poema Perder,Ganhar, Viver, feito no calor da derrota do Brasil, porpênaltis, para a França."Geralmente, as pessoas fazem poesias e músicas em homenagemaos vencedores, mas, neste texto, o Carlos quis prestar honrasaos perdedores", diz Pedro Graña. "Ao contrário da imagem quepassava por pura timidez, ele era alegre e espirituoso",conta."Inventava sempre brincadeiras e jogos e nos dedicava umaenorme atenção. Por isso, não fizemos um livro muito extenso.Quando É Dia de Futebol é bem-humorado e reflete o jeitodele de ser", conclui.

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