O futebol no Brasil dança em todos os ritmos

A pátria musical da bola pode ser o samba, mas há também marchas, frevos e peças eruditas dedicados ao tema

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

No capítulo hinos, claro, o destaque do livro vai para Lamartine Babo, que compôs a música-tema para cada um dos clubes do Rio de Janeiro, produzindo obras-primas em série. Lalá reservou o melhor de todos ao seu clube do coração, o América Futebol Clube. É um plágio, dizem.

A música dita erudita também não ficaria de fora do mundo da bola. Mesmo porque existe um vínculo de origem interessante entre os dois universos, com o casamento de Charles Miller, pioneiro do futebol no Brasil, e a pianista clássica Antonieta Rudge. Antonieta foi professora do compositor Gilberto Mendes (colunista do Estado), que criou uma magnífica peça de música contemporânea em honra ao seu time, chamada Santos Football Music.

Sim, há os hinos, marchinhas, frevos e peças eruditas que falam de futebol. Mas a pátria musical da bola seria mesmo o samba. "Não por acaso, essa relação se solidifica entre os anos 20 e 30, quando o futebol caminha para o profissionalismo, o samba vive sua época de ouro e a Rádio Nacional difunde ambos para todo o País", explica Beto a respeito desse círculo virtuoso.

Como o samba e o futebol passam a ser as paixões nacionais, parece natural que conversem entre si. Mesmo o reticente Noel Rosa faz alusões - em Conversa de Botequim, quer saber do garçom "qual foi o resultado do futebol". Noel não entregava seu time. Mas dizia torcer para o clube em que jogava Fausto, a Maravilha Negra. Ou seja, o Vasco. E assim todos os clubes ganharam músicas em homenagem. Mas, compreensivelmente, nenhum deles como o Flamengo no Rio, e o Corinthians em São Paulo.

Jogadores também foram lembrados, como Sócrates, Pelé, Garrincha, Júnior, Zico, Fio Maravilha. Muitos deles retribuíram a cortesia e tornaram-se cantores. Se não exibiam no gogó a mesma competência mostrada em campo, pelo menos deixaram seus registros vocais. O rei Pelé chegou a gravar com Elis Regina, rainha da MPB em sua época. Como Charles Miller e Antonieta Rudge na época clássica do futebol, Garrincha e a sambista Elza Soares sacramentaram em casamento a união simbólica entre música e futebol na era moderna.

Nem toda relação entre música e futebol teve final feliz. Em 1967, Sérgio Ricardo resolveu investir seu talento nessa área. Mas a indócil plateia do Festival da Record não tolerou seu Beto Bom de Bola e, com uma tempestade de vaias, o impediu de cantar. Revoltado, Sérgio quebrou o violão e o atirou à plateia. O ato entrou para a história dos festivais. E da música. Bola dividida também faz parte do jogo.

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