O futebol como melhor metáfora da experiência humana

No romance O Último Minuto, Marcelo Backes traz como narrador um técnico do esporte mais popular do planeta

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2013 | 02h06

Não são muitos os escritores que se arriscam a eleger o futebol como fonte de ficção. Entre as exceções, o grande Sérgio Sant'Anna, Michel Laub e também agora Marcelo Backes. Tradutor de Kafka e Hermann Broch, o gaúcho Backes cria, em O Último Minuto, um personagem que filtra a sua experiência vital pela ótica do esporte mais popular do mundo.

O protagonista, João, ou Iánic, filho de russo e alemã, é um técnico de futebol. Para não dizer que esta é a primeira vez que um "professor" (que é como os boleiros chamam o treinador) se apresenta na literatura brasileira, há o sempre pioneiro Sérgio Sant'Anna em seu conto Na Boca do Túnel com o técnico fracassado que mora com a mãe.

João, no entanto, parece narrador de outra estirpe. É preciso dizer que o romance se desenvolve como um grande monólogo. Ou, para precisar, com a história do narrador, João, contada para um interlocutor, e num local determinado, a cela de uma prisão. João está preso em razão de um crime cuja natureza o leitor conhecerá apenas nas últimas páginas. Ele conta a sua história para essa testemunha especial, um seminarista.

À maneira de um Riobaldo, a voz narrativa de Grande Sertão: Veredas, João, ao contar a sua história a outro, tenta dar-lhe um sentido. Mesmo se, em meio à travessia, desconfie frequentemente de que a trajetória de uma pessoa possa de fato possuir essa coisa pomposa que chamamos de significado. Ou que o fato de narrá-la para outrem lhe empreste uma coerência qualquer. Há por um lado, o desejo de contar e, por outro, um desalento de base daquele que conta. Como se desconfiasse de si, ou de sua própria capacidade narrativa. Ou de sua sinceridade ou da memória ao relembrar fatos que vão da infância à maturidade, incluindo a viagem e estadia na Suíça, onde o acaso o leva a se transformar no técnico de futebol, carreira que adotará para o resto da vida. E que também estará na origem de sua fortuna e sua desgraça, conforme verá o leitor.

O traço marcante de João é a consciência de que seu métier pode ser esse ponto de observação privilegiado da ópera-bufa a que chamamos vida. Ele, Nelson Rodrigues e todos os que sabem que o futebol é muito mais que um esporte partilham essa tese. "O verdadeiro teatro da existência, o maior circo de todos os tempos, a última representação sacra da contemporaneidade. Um rito, no fundo, a religião popular dos que ainda não haviam se entregado toscamente ao neoevangelismo, e bebiam seu pão e seu vinho em doses fartas de cerveja e salgadinhos vendo a bola rolar".

Eis aí o nosso herói. Oficiante dessa seita laica, filósofo da bola e da vida, tentando encontrar no jogo inventado pelos ingleses, ferramentas intelectuais para decodificar as entranhas da existência, dar sentido ao que talvez não o tenha, extirpar da harmonia idealizada a desordem provocada pelo acaso e pelo caos. João é um fanático pela ordem e, nesse sentido, não poderia ter encontrado profissão mais adequada nem mais trágica. Técnico, ele sabe que qualquer morrinho artilheiro pode derrubar a mais intrincada das estratégias, o mais minucioso dos planos táticos. E, no entanto, cabe ao técnico agir e trabalhar como um mouro, ou como um Mourinho, fazendo de conta que acaso não existe. Acaso que se manifesta de forma insidiosa nos jogos como na vida das pessoas, levando-as à fortuna ou a ruína de maneira indiscriminada e indiferente.

Cheio de volteios e negaças narrativas como os dribles de um jogador genial, complexo em sua estrutura como o afrontamento de duas filosofias de jogo opostas, o romance de Marcelo Backes, como as boas partidas, só se resolve mesmo no minuto final - exatamente como seu título afirma.

O ÚLTIMO MINUTO

Autor:

Marcelo

Backes

Editora:

Companhia das Letras.

(224 págs., R$ 38,50).

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