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Roberto DaMatta
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O futebol como filosofia

O jogo é um modelo da vida. Ele exige temporadas, palcos, equipamentos (mesas, baralhos, dados, roletas, bolas, uniformes, redes, tacos) e regras de modo a garantir uma atenção apaixonada. E como tem início, meio e fim o jogo reduz a indiferença da vida. Com isso, faz com que meros passantes possam posar de campeões. O domingo pode não ter mesa farta, mas tem o jogo do Brasil com sua pompa e seus resplendores de esperança. Os jogos são uma das passagens secretas que permitem escapar de nós mesmos.

ROBERTO DAMATTA, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2013 | 02h11

Dentre os esportes modernos, o futebol praticado no Brasil é certamente o mais denso. Simoni Lahud Guedes, uma estudiosa pioneira do futebol sugere que ele seria uma tela sobre a qual projetamos nossas indagações. Nascido na Inglaterra industrial dos 1860, o futebol ganhou regras fixas e, desde então, tem sido o sujeito predileto de intensas projeções simbólicas em todo o planeta.

No Brasil, ele acordou reações. Embora tivesse a chancela colonial de tudo o que vinha de fora e da poderosa Inglaterra, era uma atividade desconhecida. Um "esporte" (uma disputa governada por normas e pela necessidade imperiosa de saber vencer e perder), algo inusitado num Brasil que conhecia duelos e brigas que sempre acabavam mal.

Ademais, exercícios físicos e banhos frios não faziam parte da prática nacional. Entre nós, a barriguinha sempre foi prova de riqueza e da imobilidade física - expressiva do ideal de imobilidade social. Como receber essa inovação marcada pela disputa física veloz e igualitária, na qual perder e ganhar são - como na democracia - parte de sua estrutura? Onde encontrar um lugar para um jogo livre das restrições aristocráticas do nome de família, da cor da pele, e da "aparência". Esse marco com o qual convivemos até hoje no Brasil?

O futebol sofreu muitos ataques em nome de um nacionalismo que se pensava frágil como porcelana. E, no entanto, como estamos vendo nessas vésperas de Copas, canibalizamos e digerimos o "foot-ball", roubando-o dos ingleses. Hoje, há um estilo brasileiro de jogar e produzir esse esporte. De quinta coluna capaz de desvirtuar, ao lado da música e do cinema americanos, o estilo de vida e a língua pátria, o futebol acabou servindo como um instrumento básico de reflexão sobre o Brasil, conforme eu mesmo assinalei no livro Universo do Futebol, no qual, em 1982, agrupei um conjunto de ensaios socioantropológicos de colegas sobre esse esporte. Em 2006, no livro A Bola Corre Mais Que os Homens, reuni trabalhos nos quais apresentava uma saída para o dilema do esporte como alienação ou consciência do mundo insistindo como, no Brasil, o sucesso futebolístico foi o nosso primeiro instrumento de autoestima diante dos países "adiantados" e inatingíveis. O futebol foi o alento de um Brasil que se concebia como doente pela mistura de raças e que, até hoje, tem problemas em conviver consigo mesmo. Ele é a garantia do recomeço honrado na derrota e do gozo sem arrogância e corrupção na vitória.

Como prova do imprevisível destino das coisa sociais, o futebol não veio confirmar a dominação colonial. Pelo contrário, ele nos fez colonizadores e, mais que isso, filósofos por meio de toda uma literatura que a partir de Nelson Rodrigues, Jacinto de Thormes (Maneco Muller), José Lins do Rego e Armando Nogueira, entre outros, nos permitiu articular uma leitura positiva do mundo.

Literatura? Não seria um exagero? Digo que não e vou mais longe para acrescentar: o futebol criou entre nós uma filosofia, uma antropologia e uma teologia. O seu maior papel foi, como eu disse algumas vezes, o de ensinar democracia. Foi o de revelar com todas as letras que não se ganha sempre e que o mundo é instável como uma bola. Perder e vencer, ensina o futebol, fazem parte de uma mesma moeda.

Nelson Rodrigues fala de jogos bíblicos, do mesmo modo que nos abre a uma metafísica quando associa jogos e craques a destinos fechados ou ao afirmar que já no começo do mundo aquele gol seria perdido. Sua condenação da "objetividade burra" é uma crítica aguda de um senso comum hierarquizado e aristocrático que tenta tornar a própria vida algo oficial, possuída pelo Estado. Por outro lado, sua antropologia inaugura uma neoaristocracia nativa insonhável de negros e mestiços que deixam de ser híbridos enfermiços e passam - tal como ocorreu no jazz de uns Estados Unidos segregados - a príncipes, duques, condes e reis, apesar de nossos desejos inconfessáveis de fracasso. A sub-raça envenenada dos que queriam curar o Brasil se tornou a metarraça que, driblando os nossos subsociólogos - esses cartolas acadêmicos -, nos brindou com cinco Copas do Mundo. "A pátria em chuteiras" abria um novo espaço para esse futebol não branco, permitindo a países como o Brasil, uma redefinição inclusive muito mais abrangente e sem preconceitos de suas identidades nacionais.

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