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O furor das letras

Receita de um recordista das letras para driblar a angústia da tela em branco

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

16 Outubro 2018 | 02h00

Nos momentos de aperto (como este agora, com a cabeça sequestrada por angústias eleitorais, enquanto a tela em branco espera que eu a povoe), me pergunto às vezes se não seria o caso de dar uma de Ryoki Inoue. 

Pode ser que você não esteja ligando o nome à pessoa – e que pessoa! Está no Guinness, e não nesse nosso, tupiniquim: no Guinness internacional. Há boa chance estatística de que você já tenha lido alguma coisa do Ryoki, autor de um monte de livros. Quantos? Perdi a conta. O homem escreve pelos cotovelos. Quando estive com ele, em 1996, já tinha desovado 1.040.

Se você não se lembra, é porque a maioria das obras saiu sob pseudônimo. No que ele bem obrou, pois Ryoki Inoue não é nome de autor best seller, nem aqui nem no Japão. 

Este furor das letras está na praça desde 1986, quando, cansado de dar plantão em UTI, o cirurgião José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue trocou o bisturi pelo teclado da máquina de escrever. Nele se pôs a batucar com notável economia de dedos, usando apenas os dois médios e os dois indicadores, com discreta ajuda dos polegares. Não incorporou nem um mindinho ao transitar para o computador. O que o faz ainda mais digno de admiração: foi catando milho, com avidez de galinha magra, que, em dez anos, o Ryoki pôs em seu ninho literário aquelas 1.040 crias. Só no milésimo – E Agora, Presidente?, de 1992 –, ele saiu de seu armário literário, tornando-se um autor que ousa dizer o seu nome. 

Até então Ryoki, paulistano neto de japoneses e filho de portuguesa, se internacionalizava por detrás de denominações gringas – nada menos de 39 –, a começar pelo James Monroe que assinou seu primeiro livro, Os Colts de McLee, bangue-bangue cuja feitura lhe custou um mês, enormidade de tempo em termos ryokianos. Rompida a casca, o velocista das letras desandou a quebrar também, um após outro, os recordes que o levaram ao Guinness. 

Tendo ouvido falar do ritmo coelhal em que Ryoki proliferava, o jornalista americano Matt Moffett, do Wall Street Journal, houve por mal desafiá-lo: que provasse, ante seus olhos, ser capaz de produzir um romance em 6 horas, como andava alardeando. 

Pois não, assentiu o imperturbável Ryoki. Aboletou-se em frente ao computador às 11 da noite, puxou uma cadeira para o gringo – e, 5 horas e meia depois, não 6, pingou um ponto final na página 210 de mais um romance, uma história de sequestro, com o título provisório A Chave, em que o personagem principal se chamava... Matt Moffett. 

“Meu nome, não, por favor!”, conseguiu balbuciar o repórter. Tudo bem, concedeu o jovial romancista, e, em fulminante manobra no teclado, fez com que o protagonista passasse a se chamar Roy Hamilton.

Nada de excepcional para a metralhadora literária de Ryoki Inoue que, em outros tempos, chegara a disparar três livros num só dia, em gêneros diversos como o policial, a história de guerra, a espionagem, a ficção científica e, principalmente, o faroeste – aqui e ali apimentados com escaldantes passagens eróticas, não necessariamente rapidinhas. E seria capaz de muito mais, me disse ele sem fanfarrice, se dispusesse de uma datilografia de 10 dedos, à altura de uma cabeça que, segundo o portador, está sempre um parágrafo à frente das mãos.

*

Feitos como aquele que deixou sem fala o repórter do Wall Street Journal impressionariam qualquer um – menos a artista plástica francesa Nicole Kirsteller que, por ser casada com Ryoki, já conhecia a presteza com que o homem se desempenhava. No teclado, ao menos. Foi ela, aliás, quem incentivou o marido médico a mudar de rumo: “Você sempre gostou de escrever, eu gosto de pintar, a gente segura a barra”.

No mesmo dia, Ryoki não só depôs o bisturi como comprou a Olivetti portátil na qual passou a limpo o manuscrito de Os Colts de McLee. Não tardaram ele e Nicole a formar dobradinha para uma desenfreada produção editorial doméstica. Quando os conheci, trabalhavam na mesma sala, com um tabique a separar a mesa de um e a prancheta da outra. 

“Onde é que você está?”, indagava ela de cá. 

“Chegando com a diligência numa cidadezinha”, rebatia ele de lá.

“Com índio ou sem índio?”, tornava ela, e assim acabavam juntos, quer dizer, texto e capa chegavam ao The End ao mesmo tempo. Mas aconteceu mais de uma vez de o desenho ficar pronto primeiro – como aconteceu também de histórias nascerem de capas concebidas por Nicole para livro algum.

Mas por que estou aqui a papaguear sobre o simpático e prolífico Ryoki Inoue? Ah, sim, queria era falar de um truque dele para driblar a angústia que acomete escribas até mesmo calejados na iminência de principiar um texto. “Escrever jamais é sabido”, admite ninguém menos que o imenso João Cabral, pois ter escrito um texto não resolve o problema de escrever o seguinte. 

Talvez por isso, quando à beira dessa piscina gelada que é a tela vazia de um escritor, Ryoki Inoue não se permite retardar o mergulho – atira-se logo, destemida e temerariamente, e se põe a escrever, seja lá o que for, até achar o fio e ganhar desenvoltura. 

“Depois você pode até derrapar”, me ensinou ele, “mas o importante é arrancar, sair andando, nem que seja de lado, feito um siri”.

Não me leve a mal, portanto, se cheguei aqui meio de banda.

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José Carlos Ryoki Inouelivro

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