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Lúcia Guimarães
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O fruto caiu longe da árvore

NOVA YORK - Vivemos sob a nuvem do determinismo genético. Pais de jovens que cometem massacres são tratados como párias. A ignorância faz com que mães de crianças autistas sejam acusadas de ter sido frias e distantes de seus bebês.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2013 | 02h08

A neurologia do comportamento ainda enfrenta mistérios semelhantes entre crianças que são prodígios e crianças com problemas do desenvolvimento.

Um velho adágio diz que a maçã não cai longe da árvore. Mas o autor Andrew Solomon passou dez anos escrevendo um livro de 800 páginas e acumulou narrativas que desmentem o ditado.

Far From The Tree (Longe da Árvore) investiga a vida de famílias com filhos com Síndrome de Down, autistas, prodígios, transexuais, esquizofrênicos, crianças com deficiências simples ou múltiplas e crianças cuja concepção foi fruto de um estupro. Crianças, enfim, que foram "diferentes" e desafiaram o afeto dos pais.

Solomon deixa claro que defende a liberdade de escolha reprodutiva da mulher e nada testou sua convicção quanto a convivência com mulheres vítimas da violência indescritível que suspendeu essa liberdade. Depois de ouvir um pedido da mãe Tutsi de Ruanda - "Por favor, me ajude a amar mais a minha filha" -, a mulher cujo estupro foi mais uma arma usada no genocídio de 1994, ele voltou para casa em Nova York e ouviu o apelo de maneira diferente: havia muito amor no apelo.

Solomon usa a própria experiência para informar sua pesquisa. Sua homossexualidade, quando crescia em Nova York, era tratada como doença e foi motivo para que ele sofresse bullying na escola. Ao se casar com o marido atual, John, e ter dois filhos por inseminação artificial, ele reexaminou a rejeição sofrida em casa e entendeu que ser amado pelos pais não era exatamente o mesmo que ser aceito pelos pais.

O dilema do pai e da mãe que aceitam o filho "diferente" atravessou a vida de Solomon e ele já tinha começado a pesquisa do livro quando embarcou na aventura da paternidade. E ainda levou um susto - seu filho George chegou a ser examinado por um problema no nascimento que teria cortado o fluxo de oxigênio para o cérebro. Final feliz. Mas a ironia não escapou ao autor.

Algumas das passagens mais perturbadoras do livro tratam de Sue e Tom Klebold, pais de Dylan, um dos dois responsáveis pelo massacre de Columbine, em 1999, epítome dos assassinatos em massa e modelo de futuros assassinos.

Depois de cinco anos de contato com a família e ao final de um fim de semana intenso, Solomon pergunta se, caso Dylan não tivesse se suicidado, o que diriam a ele. Sue diz que pediria desculpas por não ter entendido o que se passava na sua cabeça. De todas as anomalias apresentadas por filhos, diz Solomon, a criminalidade continua a inspirar o maior escárnio social.

Mas, ele conclui, assistindo a um vídeo de Dylan, dias antes do massacre, é possível esconder com sucesso traços de caráter.

A condenação social torna ainda mais difícil a vida de mulheres que decidiram manter a gravidez depois de serem estupradas. A suspeita de que a criança fruto da violência vá herdar a personalidade do pai faz com que muitos filhos de mães estupradas queiram manter sua história secreta.

Solomon separa a identidade dos filhos em duas categorias. A vertical diz respeito à etnia, língua e, frequentemente, à nacionalidade e religião. A identidade horizontal reúne as características genéticas e as influências pré-natais. Elas fazem com que o jovem seja forçado a se identificar, não com os pais, mas com um grupo na adolescência, como os que sofrem de surdez.

Far From The Tree trata também dos avanços da Medicina que tornaram possíveis a sobrevivência e até a longevidade de crianças portadoras de deficiências que teriam ficado escondidas do nosso radar de humanidade.

"Se um anjo aparecesse e me oferece filhos ainda mais perfeitos", diz Solomon, "eu abraçaria os meus, horrorizado".

Numa era em que a tecnologia reforça a ilusão da perfeição adquirida, o livro é uma crônica do afeto que move a aceitação incondicional.

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