Hermes Bezerra/AE
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O frenesi de de Janelle e o carisma de Mayer

Cantores americanos fazem shows mais raçudos que Amy Winehouse

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2011 | 00h00

Para os fãs de Amy Winehouse parece até antipático e arrogante dizer que Janelle Monáe e Mayer Howthorne fizeram shows com mais garra do que ela. Mas foi o que aconteceu em Florianópolis anteontem, dentro do Summer Soul Festival. Desconhecidos da maioria, os cantores americanos conquistaram o público sem grande dificuldade, com um repertório de canções cativantes à primeira audição e um meio hit cada um. E sem os altos e baixos da estrela da noite.

Janelle tem uma presença magnética em cena e, ao contrário da paradona Amy, só sossegou quando cantou a balada Smile, de Charlie Chaplin, um momento um tanto infeliz do show. No mais, protagonizou uma performance frenética, intensa, misturando teatro, dança, pantomima, videoarte, um pouco de circo e artes plásticas - no momento mais esquisito do show ela pinta a silhueta de uma mulher nua, de costas, numa pequena tela sustentada por um cavalete.

Um vídeo com ela falando o texto de introdução de The ArchAndroid (seu incensado álbum presente nas principais listas de melhores de 2010 e serviu de base ao show), preparou a entrada de Janelle, que apareceu coberta por uma capa e um enorme capuz preto, como as duas dançarinas que a acompanham. O aviso foi dado: "Dance or die." E ela não estava ali para morrer, mas para "matar", como encenou com as bailarinas e com a plateia mais adiante.

A referência a Michael Jackson já veio com a execução de I Want You Back, do Jackson 5, tocada antes de o MC convocar a plateia a recebê-la com muito barulho. Mais adiante, além de impressionar com a potência da voz, Janelle fez o público urrar ao recriar os famosos passos de Michael, o moon walk.

Fã de ficção científica, Janelle trouxe vídeos futuristas, incluindo trechos do clássico filme Metropolis, de Fritz Lang, que inspirou seu álbum de 2008. Como o anterior, The ArchAndroid é uma espécie de suíte pop-soul cibernética. Aqui ela fez uma versão resumida de sua bela obra.

Elegante nos gestos, na atitude e no figurino (uma blusa branca, calça e gravatinha pretas, além do famoso e exótico penteado), a matadora Janelle acabou se descabelando de tanto se contorcer e sacudir a cabeça. Provavelmente ganhou muitos mais fãs do que aqueles que vibraram com Wondaland e o hit Tightrope, que encerrou o show em grande estilo, apoteótico.

É pena que tenha feito uma apresentação tão curta (cerca de 50 minutos) e tenha sido prejudicada pela má equalização do som, que estava meio abafado e sua voz algumas vezes sumia no meio da estrondosa banda.

Carisma. Como Janelle, Mayer Hawthorne é um artista completo. Bom cantor, músico criativo, performer carismático - além de atuar como produtor, DJ e engenheiro de som -, multi-instrumentista, compositor com noção da medida adequada para combinar arte com entretenimento, ele também se revelou bom humorista.

Contou que chegando de Los Angeles ao aeroporto em Floripa, um segurança o barrou para pedir autógrafo. "Sou muito conhecido aqui", zoou. Depois que assinou um pedaço de papel para o segurança, disse que o cara falou: "Gostei muito de sua atuação no Homem-Aranha." Lorota boa, gargalhada geral.

Ele tem mesmo aquela cara de nerd de Tobey Maguire em seu traje social, que acabou encharcado no calorão de 35 graus. Mayer deu ênfase às canções de seu bom álbum A Strange Arrangement, que acaba de ser lançado no Brasil. Como Janelle, ele também já entrou arrebentando, com Your Easy Lovin" Ain"t Pleasing Nothin". Seu estilo soul de branco, como o de Amy, soa retrô, o dele com mais fortes referências aos standards da lendária gravadora Motown, como mostra nas ótimas Make Her Mine, Let Me Know, Mr. Blue Sky e The Ills. Mas também tem algo de acid jazz e rock"n"roll. Uma gratificante surpresa.

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