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O fosso II

Era necessário usar uma espátula de pedreiro, colheres e facas, niveladores em seguida

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 03h00

Sérgio e João estavam empenhados na obra. Era necessário usar uma espátula de pedreiro, colheres e facas, niveladores em seguida. Com isso, como se fossem arqueólogos cuidadosamente afundando uma imensa quadrícula em uma escavação, retiravam o equivalente a poucos centímetros de terra por igual do terreno todo, durante uma semana. Cuidadosamente, nas últimas horas do trabalho, nivelavam o chão escavado escondendo qualquer marca da empreitada. Ninguém perceberia. Mas o volume de terra retirado dava alguns bons quilos que precisavam ser removidos dali. Daí o domingo. Saíam para as compras já com sacolas cheias. Esvaziavam aquilo tudo num terreno baldio não muito longe dali, enchiam as sacolas com víveres, desviavam-se do olhar sempre curioso dos vizinhos e voltavam à casa no centro do terreno.

No início, Jonas percebeu que a grama se fora. Perguntou aos tios, que resmungaram algo sobre estarem reformando o jardim. Não demorou para que começasse a tropeçar quando saía da porta da casa. Com desconfortos crescentes, o jovem decidiu se mudar. 

No mesmo dia em que Jonas comunicou que estava saindo e agradeceu aos velhos empoeirados pelos anos em que vivera ali, Sérgio disse ao irmão que deveriam acelerar o projeto, pois, se o sobrinho percebera, o peso noturno e ancestral poderia igualmente se inteirar de que algo estava diferente. João concordou. Em pouco tempo, a casa estava suspensa em um pequeno promontório acima do nível do chão em mais de 2,5 metros. 

A cena era improvável, insólita: quem passasse em frente ao muro, andando na calçada, não suspeitava de nada extraordinário; os vizinhos tampouco, pois nenhuma janela era alta o suficiente para poder enxergar o terreno dos excêntricos e reclusos Soares. Mas caso alguém conseguisse espiar ali dentro, veria que, do portão da rua até a casa no centro do terreno, tudo era um imenso e profundo fosso, com cheiro de terra fresca, absolutamente plano, meticulosamente cavado milímetro a milímetro. Os irmãos perderam peso, ganharam dores no corpo, mas, com aquelas toneladas de terra removidas, o barulho na alma se amainara. Não se extinguira por completo, porém o suficiente para que conseguissem dormir o sono dos justos. 

Calculavam que seria necessário aprofundar mais um ou dois metros o terreno, enquanto subiam as escadas improvisadas para aquele bunker reverso. Teriam conseguido não fosse a visita da irmã. Antônia chegou de surpresa e ficou horrorizada. A conversa com os manos aumentou seu desespero. Não houve debate: ela internou os irmãos em uma casa de repouso. 

A história que contei é real. Nomes e circunstâncias foram alterados para não trazer constrangimento aos envolvidos. Mas o que ocorreu é fantástico demais para que escape ao nosso olhar. A esperança necessita de fossos de isolamento, por vezes. A vida é estranha, porém tem gente que exagera. 

LEANDRO KARNAL É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE A CORAGEM DA ESPERANÇA, ENTRE OUTROS

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