Pixabay/@rkarkowski
Pixabay/@rkarkowski
Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O fosso I

Isolariam a casa da rua, do restante do mundo, criando um fosso grande o suficiente que emanação alguma como aquela os alcançaria

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 03h00

“E era mais uma das coisas de tudo o que tínhamos perdido no outro lado da casa.”

Julio Cortázar, ‘Casa Tomada’

Sérgio e João, finalmente, conversaram sobre o estranho incômodo que estavam sentindo havia algum tempo. Fora o irmão mais velho quem puxara a conversa, com algum receio de ser mal-entendido. Começou dizendo que achava que aquilo vinha da vizinhança, talvez das ruas ali em volta. De madrugada, inundava a pequena casa. 

A moradia era simples, bem no meio do lote, todo ele bem cuidado pelos dois moradores principais. Na sala, dormia ainda o sobrinho, filho de uma irmã de Sérgio e João que morava no interior. O rapaz frequentava um curso noturno e trabalhava durante o dia. Usava o sofá como cama e a pequena cozinha para engolir algo tarde da noite e um café preto com pão com manteiga pela manhã, bem cedo. Mal via os tios. 

Os donos da casa nunca desejaram ampliar o diminuto imóvel. Terreno para isso havia e os vizinhos, sem exceção, construíram cômodos a mais, banheiros extras, cozinhas maiores e áreas cobertas no pátio. A casa dos Soares mantivera a metragem e forma originais. 

Talvez a razão para isso fosse o incômodo revelado, aquele que misteriosamente apenas os irmãos pareciam experimentar. Era algo notívago, perigoso, sufocante. Acordavam suados e passavam noites em vigília, esperando o pior. Dormir era um problema, pois a casa parecia se encher de um miasma forte, perigoso e fatal. 

Decidiram agir. Estavam velhos, mas tinham seus truques. Havia algo de muito estranho naquela casa e os irmãos não mais sofreriam quietos. Era impossível continuar sem uma resposta ao mal que crescia e ameaçava tomar tudo e todos. Como?

A ideia foi de João: isolariam a casa da rua, do restante do mundo, criando um fosso grande o suficiente que emanação alguma como aquela os alcançaria. Sérgio iluminou o rosto com o plano. Ferramentas em mãos, começaram a escavação em 2002. Todos os dias, desde aquele longínquo agosto, parando para descansar apenas aos domingos, do raiar do sol ao seu último brilho sobre o lote, os irmãos cavavam a terra meticulosamente. O sobrinho não via nada e assim deveria ser. 

Os dois irmãos estavam muito focados na obra de isolar sua residência. Poucas coisas eram ditas, porém o trabalho foi sendo realizado com trocas de olhares de cumplicidade. A defesa do patrimônio comum fortaleceu o vínculo fraterno dos dois. Eram soldados de uma estranha batalha com a solidariedade que a trincheira costuma criar. O fosso crescia centímetros todos os dias.

Tudo o que sabemos sobre:
Leandro Karnal

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.