O Flagelo da Culpa, Longe da Redenção

A Morte de Bunny Munro, segundo romance do australiano Nick Cave, relata jornada distópica de um pai e seu filho

Manoela Sawitzki, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

O limiar entre real e absurdo é tênue, quase imperceptível. Como em qualquer vida, quando se ajusta o foco e olha-se diretamente para ela. Num quarto ordinário de motel, Bunny Munro consola pelo celular a esposa em surto maníaco-depressivo. Enquanto isso, uma prostituta o aguarda sob o batente da porta, uma banheira transborda no andar de cima, um incêndio destrói o píer alguns metros adiante, e, no norte do país, um assassino em série de chifres de plástico e pele pintada de vermelho mata mulheres com um tridente. "Você está com um problema e tanto, benzinho", diz a lânguida profissional de calcinha cor-de-rosa fluorescente, antes de se ajoelhar aos pés do cliente para terminar seu serviço.

E A Morte de Bunny Munro, segundo romance de Nick Cave, está só começando. Vocalista da banda Nick Cave and the Bad Seeds, compositor e roteirista, o australiano radicado na Inglaterra recentemente recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade de Dundee, na Escócia. Seu primeiro livro, And the Ass Saw the Angel, publicado no fim dos anos 80, permanece inédito no Brasil.

Não apenas o título, como também a frase de abertura do romance, que prenuncia, inexorável, que Bunny Munro vai morrer. Mas não ainda. Antes terá de enfrentar o suicídio de Libby, a esposa farta de suas traições e mentiras. E, consequentemente, sofrer o flagelo da culpa, afogando-a (e a si mesmo) em doses cavalares de vodca, uísque, cerveja, Rohypnol, maços de Lamber & Butler, hambúrgueres, sangue, sexo e lágrimas - abundantes e incontroláveis. E ainda pensar no que fazer com Bunny Jr., que olha maravilhado e interrogativo para esse pai, enfim presente, com seus pequenos olhos inflamados, que pioram à medida que não consegue lhe pedir um mísero colírio.

Assombrado pela imagem de Libby morta, Munro decide pegar o filho, alguns ternos e gravatas - todas decoradas com coelhos, numa alegoria nada sutil de si mesmo -, o possante Punto amarelo, sua maleta de amostras de cosméticos e fazer o que realmente sabe: vender e copular. Com uma lista de clientes potenciais em mãos, viajará por cidadezinhas do sul da Inglaterra munido de cremes esfoliantes, óleos aromáticos e a mais cafajeste das lábias.

No entanto, Bunny também levará consigo aquilo que o faz fugir. Ao seu lado, o circunspecto Bunny Boy, sempre agarrado à enciclopédia que ganhou da falecida mãe, "como se ela fosse sua única amiga no mundo", trilhará percurso semelhante ao que ele próprio cumpriu décadas antes. Trata-se de uma espécie de herança (e maldição) familiar: filhos sem mãe, criados por figuras masculinas opressivas e anárquicas que lucram com a exploração da credulidade feminina. Em lampejos inconscientes, Bunny Munro repetidas vezes reafirma a função do velho e terrível pai, então às vésperas da morte, em sua existência: "Aprendi tudo o que sei com ele."

Agora é a vez de Bunny Jr. esperar dentro do carro enquanto o mestre se utiliza de poderes incontestes para comercializar muito mais que cútis revigoradas: "O sonho." O sonho que Munro, ao ajeitar o topete e conferir as irresistíveis covinhas diante do espelho, não hesita em personificar. Para esse caçador glutão obcecado por certos detalhes da anatomia de Kylie Minogue e Avril Lavigne (ou qualquer celebridade que possa socorrê-lo nos momentos mais agudos de desespero e caos existencial), todas as mulheres são presas potencialmente fáceis e digeríveis. Todas podem lhe fazer esquecer por alguns minutos.

Enquanto o homem se ocupa das próprias pulsões, é comovente acompanhar as oscilações emocionais da criança, que a levam do medo da cegueira e do abandono à condição de fortaleza da dupla; da raiva ao deslumbramento. "O menino vê o pai atravessar a rua e pensa que a maneira como ele se movimenta pelo mundo tem algo de verdadeiramente emocionante. Carros param cantando pneus, motoristas brandem os punhos e põem a cabeça para fora da janela xingando e buzinando e Bunny segue em frente, como se irradiasse algum tipo de campo de força sobre-humano. O mundo não consegue tocá-lo."

Assim como a jornada distópica de Bunny pai e Bunny filho, a prosa de Cave é nada menos que vertiginosa. Com fartas doses do humor sombrio que lhe é peculiar, numa narrativa de fôlego, quase sempre objetiva, e que não faz concessão às deformações do protagonista, ele consegue o que intencionou: dar vida a um monstro cuja humanidade é capaz de despertar também empatia.

Porque não há redenção possível para Bunny, ele precisa morrer. Mas até os últimos momentos o castigo esbarra num paradoxo poderoso: o desdobramento geracional. Não há apenas o filho que precisa do pai, há amor entre pai e filho, apesar de tudo. E esse duplo, ligado pelo mesmo nome, sangue e ausência, reflete num só golpe o que há de mais subterrâneo na psique masculina. E mais doloroso nos laços afetivos.

MANOELA SAWITZKI É FICCIONISTA, AUTORA DE SUÍTE DAMA DA NOITE (RECORD)

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