O fino do pop norueguês

Dois banquinhos e dois violões bastam para o duo indie Kings of Convenience

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h09

É refrescante ouvir, mais de 50 anos depois de Chega de Saudade, uma banda que explore com criatividade a influência de João. Não que os gajos da foto ao lado recombinem a lendária batida, entortem frases com criatividade rítmica incomum, ou qualquer coisa do tipo. As referências estão no gesto, na dedicação a um pop sutil e aveludado, feito de maneira simples, com duas vozes e dois violões que carregam em si o intimismo praiano da bossa. "É muito mais fácil para nós fazermos algo com essa música", conta Erlend Øye, do duo brasiliófilo Kings of Convenience, que toca aqui em dezembro. "Imagino que, no Brasil, a herança da bossa nova seja uma coisa mais delicada. Há tantas camadas a serem ponderadas. Nós somos noruegueses. Não precisamos nos preocupar", completa.

A música do Kings of Convenience é tão "smooth" que já foi chamada de excessivamente passiva pela crítica. Mas a discografia sugere que a estética da calma é mais um exercício de restrição, uma preferência pelo minimalismo, do que uma mal elaborada forma de expressar-se. No último disco, Declaration of Dependence, por exemplo, as canções são feitas como arquitetura eco sustentável: guitarras e vozes compõem o mínimo de elementos possível para produzir algo funcional. "As pessoas não percebem, mas a música eletrônica nos influencia muito. A composição Scars on Land, por exemplo, é uma tentativa de adaptar o trip-hop, algo como Massive Attack a dois violões, mas é simplório dizer que este tipo de música é passiva. Nosso som tem uma dinâmica sutil, feita para ser tocada em casa , em momentos que não queremos ouvir algo muito barulhento", explica.

O músico já esteve no Brasil tanto com o Kings of Convenience quanto com seu outro grupo, The Whitest Boy Alive. Além das harmonias e dos vocais sussurrados da bossa, a arquitetura urbana brasileira o tem influenciado. "Eu e Eirik (Bøe, a outra metade da dupla) viajamos bastante pelo mundo. Mas uma das coisas mais interessantes que já vimos é a dualidade da favela brasileira. Lógico que sabemos que há muita miséria nelas, mas achamos a maneira como que elas se formam fascinante. É a única paisagem urbana moderna que há no mundo. E, em 40 ou 50 anos, quando os morros forem adequadamente urbanizados, serão lugares fantásticos para morar. Temos um caso parecido em Bergen, onde moramos, na Noruega. As casas mais caras eram favelas há 300 anos. Hoje as pessoas pagam caro para morar lá porque as casas de madeira têm mais personalidade. Foram construídas sem serem muito planejadas. Por isso, ficam fora do grid, fora da simetria entediante dos outros bairros", conta Erlend.

O passo tranquilo da produção dos discos também retrata a ética do Kings of Convenience. Erlend e Eirik tocam juntos desde o colegial, em 92, quando mal sabiam acordes e vagarosamente destilaram canções de indie folk com influências de Dylan e Suzanne Vega. Lançaram o primeiro Quiet Is the New Loud (o quieto é o novo barulhento) em 2001 e tornaram-se estrelas do circuito indie. Até agora, são apenas três discos em dez anos de estrada como o Kings of Convenience, algo incomum hoje em dia.

"Bom, entre os álbuns e as turnês, vivemos a vida", conta Erlend. "As canções são sobre a vida. E se passarmos todo o tempo no estúdio e na estrada, não há muito de interessante que possamos contar, não é?", explica. Esse tempo passado em casa é, para Erlend, o momento em que trabalha com sua outra banda, o Whitest Boy Alive. Já Eirik cria os filhos e participa de ações ativistas na cidade de Bergen (300 mil habitantes, a segunda maior da Noruega). "Eirik passa boa parte de seu tempo escrevendo para os jornais de Bergen", conta Erlend. "Ele tem voz ativa no desenvolvimento urbano da cidade. Um dos problemas que tivemos recentemente ocorreu quando o governo deixou que os pontos de ônibus tivessem anúncios. Mas Bergen é uma cidade tão bonita, não queremos que ela fique poluída visualmente. Por isso, achamos incrível a iniciativa que houve em São Paulo, para proibir os outdoors", diz.

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