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O fim não é o limite

Dia desses, em seu blog, aqui no Estadão, Luiz Carlos Merten lembrou o crítico de cinema Paulo Perdigão e seu legendário inconformismo com o final do western Os Brutos Também Amam (Shane), atribuindo a mim a tarefa de esclarecer de que modo ele, numa remontagem caseira do filme, havia impedido que Shane, atendendo à súplica do pequeno Joey ("Come back Shane!"), afinal não desaparecesse no horizonte para sempre. Esclareço.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2014 | 02h07

Perdigão acumulou na infância duas traumáticas frustrações: a última cena de Shane e a derrota do Brasil para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950. Sobre o filme escreveu um estudo primoroso (editado pela Rocco, esgotado), mas, apesar de motivado por seu amigo João Luiz Albuquerque, que havia modificado o final de Casablanca remontando algumas imagens numa ilha de edição, não lhe alterou o desfecho, não trouxe Shane de volta ao rancho dos Starrett.

A única alteração ousada por Perdigão foi filmar a si próprio, vestido de caubói, em super-8, e inserir-se na cena do bar em que Shane, alertado por Joey, livra-se de levar um tiro. Na versão alterada quem grita "Look out, Shane!" não é Joey, mas Perdigão, sublimando um momento de glória acalentado desde que assistira ao filme pela primeira vez, na contramão do que o personagem de Jeff Daniels fazia em A Rosa Púrpura do Cairo.

A perda da Copa no Maracanã também instigou Perdigão a escrever um longo ensaio (Anatomia de Uma Derrota, L&PM, esgotado), acrescido de um conto wellsiano (adaptado ao cinema por Jorge Furtado), em cuja esteira produziu um curta de circulação entre amigos, no qual, por artes da digitação eletrônica, a seleção brasileira se sagrava vencedora.

As "correções" aplicadas a Casablanca e à final da Copa de 50 inspiraram, na década de 1990, um joguinho de salão entre os cinéfilos cariocas que consistia em arrolar filmes, romances, peças, etc., cujos desenlaces - tidos como decepcionantes ou insatisfatórios - "mereciam" ser revistos e, em determinados casos, drasticamente modificados. Somos psicologicamente propensos a exigir finais conclusivos que atendam às nossas expectativas, que justifiquem e recompensem nosso investimento emocional no que acabamos de ler, ver ou ouvir. Mas nem todos os desfechos arredondam e iluminam o que veio antes; muitos nem sequer gratificam a nossa lógica sentimental. Daí a resistência generalizada aos arremates inesperados e aparentemente descabidos, acompanhada de um incontrolável desejo de imaginá-los com outro feitio, de lhes dar outra vida.

O que teria acontecido a determinados personagens cinematográficos se eles tivessem continuado a viver além de seus filmes? O crítico anglo-americano David Thomson saciou sua curiosidade num misto de dicionário biográfico e ensaio ficcional (labirinticamente borgeano) sobre a realidade paralela do cinema, a que deu o título de Suspeitos, em homenagem ao bordão do inspetor Renault (Claude Rains) de Casablanca, "Prendam os suspeitos de sempre!". Traduzido pela Marco Zero, há tempos também só é encontrado em sebos.

É um romance dentro de um romance ou uma série de filmes dentro de um romance, narrado por George Bailey, o personagem de James Stewart no clássico natalino de Frank Capra A Felicidade Não se Compra (It's a Wonderful Life). Bailey reconta sua história pessoal desde a infância, em Bedford Falls, a mesma pacata cidade do Nebrasca em que ele, no filme, "morre" e "ressuscita", e é o fio condutor desse relato à clef estrelado por 57 outras figuras do imaginário hollywoodiano, todas rastreadas desde o berço, respeitando-se o que de sua vida foi exposto na tela, mas indo além do limite demarcado pela palavra "fim".

Às páginas tantas, Bailey compara o cinema a um espelho mágico e, na mesma digressão teórica, a "um mapa de nossos sonhos, no qual podemos viajar sem passagens, cansaço ou dor". A viagem oferecida por Thomson é um deleite do princípio ao fim. Foi nesse livro que ele levantou pela primeira vez a suspeita de que o personagem de Humphrey Bogart em Casablanca teria saído do armário e terminado seus dias ao lado do inspetor Renault, em Marrakesh e à frente de um antiquário, alheio ao destino de Ilsa Lund (Ingrid Bergman) e Victor Laszlo (Paul Henreid), na América do pós-guerra. Ilsa teria vivido como tradutora de filmes de Ingmar Bergman, modelo do pintor Edward Hopper, alta funcionária da ONU, e desaparecido num desastre aéreo sobre a África, em 1961; Laszlo teria sido perseguido pelo macarthismo, em 1949, e consumido por um enfisema pulmonar em 1952.

Os delírios biográficos e genealógicos de Thomson, de uma detalhismo impressionante, fazem sentido e até enriquecem o contexto dos filmes que os introduziram na tela. Gilda, a vulcânica mulher fatal encarnada por Rita Hayworth, não terminou seus dias nos braços de Johnny (Glenn Ford), mas entregue às baratas numa clínica geriátrica, o derradeiro castigo de uma vida dissipada desde mocinha sob proteção da Máfia.

O fotógrafo L.B. Jeffries (James Stewart em Janela Indiscreta) e Lisa (Grace Kelly) se separaram em 1962, seis anos antes de ele morrer cobrindo a guerra no Vietnã. Norma Desmond, a decadente diva interpretada por Gloria Swanson em O Crepúsculo dos Deuses, estava grávida de Joe Gillis (William Holden), quando o matou a tiros em sua mansão em Sunset Boulevard. O filho, criado pelo mordomo (Eric Von Stroheim), faria carreira como cafetão de luxo, com o nome de Julian Kay (Richard Gere em O Gigolô Americano).

Na juventude, Norma tivera um caso com o poderoso Noah Cross (John Huston em Chinatown), que conhecera durante as filmagens do primeiro filme de Cecil B. DeMille, financiado por Cross, mas não era a mãe de Elsa Munson, filha de Cross com Poppy Munson (Gene Tierney em Tensão em Xangai), mais tarde conhecida como Elsa Bannister, "a dama de Xangai". Como se viu em Chinatown, Cross gerou outra filha, Evelyn (Faye Dunaway), com quem manteve um relacionamento incestuoso. Depois que ela morreu, o safado expandiu seus negócios escusos até a Cuba de Batista e estendeu seus tentáculos políticos até Washington. Morreu de infarto, aos 98 anos, enquanto conversava com Nixon ao telefone.

Thomson inventou a metahistória do cinema.

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