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O fim do comum

Há tempos um livro não me entristecia, emocionava e alegrava como 'Le Lambeau'

Mario Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

23 Outubro 2018 | 02h00

Na noite de 6 de janeiro de 2015, Phippe Lançon foi ao teatro com uma amiga, em Ivry, ver Noite de Reis, uma peça de Shakespeare sobre a qual teria de escrever no dia seguinte um artigo para o Libération. Mas, na manhã do dia 7, haveria também a reunião de pauta do Charlie Hebdo, para o qual ele também escrevia, na qual seria planejado número seguinte do semanário. Lançon decidiu-se por essa última. Enquanto os colegas discutiam a pauta, ele observava o desenhista Bernard Harris, seu bom amigo, que como sempre passou toda a discussão fazendo caricaturas dos presentes.

Terminada a reunião, quando todos começavam a se despedir, teve início a fuzilaria. Philippe foi o primeiro a receber um balaço, no rosto, que despedaçou sua mandíbula e o derrubou numa grande poça de sangue. Não perdeu os sentidos, mas não podia se mexer. Enquanto sangrava, viu os dois terroristas, os irmãos Kouachi, executarem todos os que estavam na sala, repetindo um mantra, Allahu Akbar!, Allahu Akbar! Philipe não podia acreditar no que via: a cabeça de Bernard Maris aberta a tiros, os miolos saindo. Num dado momento, viu ao lado de seu rosto os sapatos e a metralhadora de um dos assassinos. Por que não o mataram? Sem dúvida por achar que ele já estava morto.

Ele foi finalmente resgatado e uma ambulância o levou para o hospital, onde passou 282 dias e foi submetido a 30 operações que lhe reconstruíram prodigiosamente o rosto. Quando o conheci, em Princeton, há uns três anos, ainda parecia um monstro. Quando vi suas fotos, achei incrível que seu rosto estivesse absolutamente normal, sem uma única cicatriz que recordasse o horror da experiência que ele, no livro que acaba de publicar na França, Le Lambeau (o pedaço, o retalho) chama, com sombria elegância, de “o fim do comum”.

O mais impressionante nesse testemunho assustador, em que vemos um homem morrer e ir ressuscitando pouco a pouco graças à sua valentia e força moral, e sem dúvida à formidável ajuda que lhe deram os enfermeiros, médicos, auxiliares, e sobretudo à destreza e competência dra. Chloé, a cirurgiã autora daquela prodigiosa reconstrução facial – é a sobriedade e o equilíbrio com que está escrito. Não há ódio nem rancor, e aquela máquina de matar que aniquilou todos seus companheiros quase desaparece. O amor pela vida anima suas páginas, com a ajuda vivificante que lhe dão nessa longuíssima ressurreição certas obras literárias – Kafka, Proust, A Montanha Mágica – que relê buscando com elas reviver os momentos tão intensos que sentiu quando as leu pela primeira vez.

Creio que Philippe Lançon não fala de terrorismo em nenhuma dessas belas páginas. No entanto, Le Lambeau é um dos livros que melhor permitem entender os extremos da abominação e da selvageria a que pode chegar um ser humano escravizado pelo fanatismo religioso, convencido de que sua fé o autoriza a devastar o mundo e, se preciso, acabar com ele, purgando-o de infiéis. A essa barbárie crua e dura , Lançon opõe a razão, a humanidade, as belas artes, a poesia e as ideias, que considera os denominadores comuns entre os seres humanos, mais profundos e duradouros que as diferenças de línguas, crenças, raças e costumes, tudo aquilo que nos cerca e nos irmana e terminará prevalecendo sobre a irracionalidade e a loucura abissal de quem acredita que lançando bombas e assassinando inocentes vá obter justiça.

Aos hospitais onde Philippe Lançon luta para renascer, chegam parentes, amigos, sua ex-mulher, suas namoradas (sim, no plural) e também esse rumor poderoso que é o gigantesco movimento de solidariedade gerado na França e no mundo inteiro pela matança de Charlie Hebdo. Ainda que pareça mentira, até o humor abre caminho nessas páginas, e o leitor se vê sorrindo, divertido com os enredos sentimentais e pessoais em que se depara o personagem (chamado pelo pseudônimo de Monsieur Tarbes em um dos hospitais que frequentou), entre anestesias, injeções, vômitos, sondas, termômetros e passes de mágica de que tem de se valer para que haja harmonia onde poderiam eclodir o mau humor e o escândalo.

Nada como estar perto da morte para saber como é maravilhosa a vida. Descobrimos isso ao mesmo tempo que Philippe, quando consegue comer um pouco de iogurte e deixar de se alimentar por sonda, quando volta a mastigar e – por fim! – a falar, sem mais necessidade da lousinha que durante tantos meses ele usou para se comunicar-se com o próximo. E quão generosos e decentes podem ser os homens e as mulheres – como ele descobriu por meio das enfermeiras, atendentes, faxineiras e médicos que dia e noite se empenharam em devolver-lhe a saúde e fazê-lo sentir-se querido e protegido por uma muralha de amizade e de amor nesses longuíssimos meses nos quais voltou a ser um ser humano, deixando para trás o semicádaver que era quando chegou.

Há tempos um livro não me entristecia, emocionava e alegrava como Le Lambeau. Quando se acaba de lê-lo, compreende-se que o terrorismo – não só o islamista, mas todos os terrorismos políticos, sem exceção – não ganharão nunca a guerra que desfecharam, apesar dos danos (inúmeros) que podem causar. Não ganharão porque são primitivos e bárbaros. Perpetuam uma tradição que o desenvolvimento humano – a civilização – está fazendo retroceder e voltar às cavernas e é a própria negação das boas coisas que o progresso nos trouxe – a liberdade, a democracia, a coexistência na diversidade, a justiça, os direitos humanos, a igualdade perante a lei. Sem necessidade de se referir especificamente a esses temas, com o personagem lutando para retornar à vida, recordando-se de quão maravilhoso é um bom livro, uma bela sinfonia, o rejuvenescimento que trazem a amizade ou o amor, Le Lambeau nos faz conscientes da estupidez e cegueira que são o fanatismo e o uso do terror, e de quanto avançamos desde os tempos atrozes em que o ser humano ainda era uma fera entre as feras.

Esse progresso é uma realidade para um grande número de países – para muitos outros, por desgraça, ainda não –, e uma prova disso é que Philippe Lançon esteja vivo de novo, tenha sido capaz de escrever esse livro profundo, que Chloé e seus colegas tenham conseguido devolver a seu rosto a humanidade e a harmonia, que ele tenha se casado e, segundo me dizem, esteja comemorando o nascimento de seu primeiro filho. Isso me levanta o ânimo porque vejo em tudo algo de belo e exultante, a derrota da estupidez e da cegueira mental e moral do fanatismo, a vitória da vida.

Um dos episódios mais comoventes – há centenas mais – do livro é quando, em pleno atentado, Philippe tem uma esquisita sensação na boca e descobre que são seus dentes se soltando. Ao amigo comum, que me mostrou outro dia suas fotos de renascido, perguntei se ele viu como ficaram os dentes de Philippe. “Estão intactos, e além disso, branquíssimos”, respondeu. Senti que meu coração transbordava de felicidade. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Há tempos um livro não me entristecia, emocionava e alegrava como 'Le Lambeau'

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