O fim de uma era

O fim de uma era

Após 20 anos de trabalho incessante, Gisele Bündchen diz adeus à passarela, mas se mantém firme nas campanhas e no posto de modelo mais importante, famosa e bem paga do mundo

MARIA RITA ALONSO , GIOVANA ROMANI, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2015 | 02h05

Quando pisar na passarela para seu desfile de despedida na próxima quarta, dia 15, Gisele Bündchen estará encerrando a era das supermodelos. Depois dela, outras meninas lindas surgiram, mas nenhuma foi páreo para desbancar a modelo que encantou o mundo da moda desde o momento em que apareceu, vinte anos atrás. Hoje não há sucessora capaz de atingir o status de über - expressão em alemão que designa algo grande, "acima de" - ocupada pela brasileira na moda - e só por ela - há mais de uma década.

Em 2007, a alemã Claudia Schiffer (atualmente com 44 anos) declarou que a geração das supermodelos, da qual fez parte ao lado de Cindy Crawford e Naomi Campbell, havia acabado e que Gisele era a única merecedora desse título ainda na ativa. "Ela tem um rosto e um nome internacionalmente conhecidos. Nenhum outro me vem à mente", afirmou Schiffer na ocasião.

O que ela, Cindy, Naomi e Gisele tem de especial? Star quality, aquele detalhe a mais que se sobrepõe à beleza e faz a diferença. Ele pode ser o carisma, a personalidade, o jeito de se movimentar. Gisele, no caso, tem tudo isso. "Quando a vi pela primeira vez, logo percebi que ela tinha uma luz diferente", diz o peruano Mario Testino, um dos mais respeitados fotógrafos de moda da atualidade. "Ela, como boa brasileira, tem a capacidade de parecer a pessoa mais feliz da festa, o que dá vontade de estar sempre ao seu lado."

Não à toa, o anúncio de seu último desfile para a marca catarinense Colcci causou comoção não só no Brasil, mas também na Europa e nos Estados Unidos. Em comunicado oficial, a irmã e representante da modelo, Patrícia Bündchen, afirmou que "Gisele continuará focando em projetos especiais e também quer destinar mais tempo a sua prioridade nº 1: a família". Casada com o jogador de futebol americano Tom Brady, a modelo vive em Boston, nos Estados Unidos, com ele e os dois filhos do casal, Benjamin, 5, e Vivian, 2. "Hoje organizo a agenda e os trabalhos em torno deles", disse a top em entrevista recente ao Estado. "Aprendi na minha vida que preciso ter prioridade para fazer as coisas bem feitas. Não dá pra você querer tudo ao mesmo tempo."

Gisele sabe o que diz, pois construiu a carreira em torno de decisões certeiras. Nos bastidores do agitado mundo da moda, ela é conhecida pelo modo extremamente profissional com que encara cada trabalho, sem ataques de estrelismo e afins. "Acho que o trunfo de Gisele está na educação e na determinação que ela tem", diz a stylist Flavia Lafer, que há anos trabalha em projetos e campanhas publicitárias com a top e, em maio, assina um ensaio para a edição da Vogue Brasil, que traz uma edição comemorativa dos 20 anos de carreira de Gisele. "Ela é o tipo de pessoa que teria sucesso em qualquer profissão. O fato de as irmãs ajudarem nos negócios e nunca terem dado problema mostra como a sua família é bem estruturada".

Natural da pequena cidade de Horizontina, no Rio Grande do Sul, Gisele se mantém fiel a suas raízes. "Como boa gaúcha, sou viciada em chimarrão. E em casa tem arroz e feijão quatro vezes por semana. As crianças amam. Também tenho vindo mais ao Brasil por causa delas. Os dois falam português fluentemente", contou ela. Filha de um sociólogo e uma bancária, Gisele tem cinco irmãs - uma delas, Patrícia, gêmea. Foi "descoberta" pelo olheiro Dilson Stein aos 14 anos, em 1994, quando participava de um cursinho de modelos em sua cidade natal para corrigir a postura. "No primeiro dia em que a vi, disse que a Gisele poderia ser uma das melhores modelos do mundo, mas não me levaram a sério", lembra Stein. No mesmo ano, a menina participou do concurso The Look of the Year, realizado pela agência Elite, ficou em segunda lugar e mudou-se para São Paulo para começar a trabalhar.

"No começo, os clientes se incomodavam com o nariz dela", entrega Zeca de Abreu, diretor da agência na época. A história logo mudou e, em 1995, Gisele estampou sua primeira capa de revista, na edição de julho da revista adolescente Capricho. De lá para cá, ela posou para mais de 1200 capas de publicações de todo o mundo.

Aos 34 anos, segundo a revista Forbes, Gisele fez mais dinheiro do que qualquer outra modelo na ativa. Só em 2014, calcula-se que tenha faturado algo próximo a US$ 47 milhões. Cifra que certamente não irá mudar com a despedida das passarelas, já que seus contratos publicitários para campanhas de grifes como Chanel, Pantene e Vivara continuam firmes, fortes e über. Como Gisele. / COLABOROU MARIANA BELLEY

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Festa dos 20 anos

São Paulo Fashion Week festeja duas décadas de desfiles no Brasil e da carreira da top Gisele Bündchen, que agora se despede das passarelas

Maria Rita Alonso, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2015 | 02h06

Vinte é um número mágico para a moda brasileira hoje. A São Paulo Fashion Week chega à sua 20ª edição firmando-se como o principal palco do setor. Organizado pelo produtor Paulo Borges em 1995, o evento batizado inicialmente de Morumbi Fashion reuniu, promoveu e revelou os principais nomes da indústria. Entre eles, Gisele Bündchen, a supermodelo que colocou o Brasil no mapa da moda internacional e que iniciou a sua carreira há exatos 20 anos. É emblemático, portanto, que ela tenha escolhido encerrar sua presença nas passarelas no ponto em que começou. Seu desfile de despedida, para a marca Colcci, está marcado para quarta-feira.

"Queremos celebrar as pessoas que fizeram parte desse processo, resgatando os encontros e as conexões que ajudaram a nossa moda reverberar", diz Borges. Para isso, foi montada uma exposição com 33 fotos assinadas por Bob Wolfenson, com curadoria de Borges. A mostra estará em cartaz durante a temporada, entre 13 e 17 de abril, no Parque Cândido Portinari. "São retratos de personalidades que marcaram o cenário da moda. Costanza Pascolato, Christine Yufon e Jun Nakao são alguns deles", afirma Wolfenson. Outra novidade da edição é a parceria com o Museu Afro Brasil, que trará a mostra Africa Africans Moda e apresentará as criações de 5 estilistas africanos em um desfile.

Nas últimas edições, o evento renovou seu grupo de estilistas abrindo espaço para novos como Patricia Bonaldi e Lilly Sarti, que fazem uma moda jovem, comercial e bem-sucedida. Nesta temporada, com o Fashion Rio interrompido por falta de patrocinadores, chegaram também marcas respeitadas de moda praia como Salinas e Lenny Niemeyer. Com os cariocas, o line-up ficou mais consistente, apesar do ano apresentar baixas como as grifes Tufi Duek e Triton.

Ao longo dessas duas décadas, o evento já perdeu seu espaço tradicional no prédio da Bienal (hoje os desfiles ocorrem em uma estrutura montada no Parque Villa Lobos) e viu alguns estilistas conhecidos, como Marcelo Sommer, André Lima e Dudu Bertolini, perderem fôlego e não conseguir respaldo empresarial para seguir com as suas marcas.

Ainda assim, o evento mantém a missão de divulgar e consolidar a indústria fashion brasileira. "A moda nacional nasceu realmente nos anos 1990, com o SPFW, a abertura da economia e a chegada das grifes internacionais. Até então, copiávamos os estilistas de fora", diz João Braga, escritor e professor de história da moda. "A valorização dos desfiles, de certa maneira, fez toda a roda da indústria girar."

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'Gisele quer fazer tudo em 10 minutos'

Com previsão de lançamento para o segundo semestre, livro da Taschen organizado pelo diretor de arte Giovanni Bianco traz biografia de Gisele Bündchen em fotos. Bianco fala ao Estado sobre a parceria e a publicação

Entrevista com

Giovanni Bianco, diretor de arte

Giovana Romani, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2015 | 02h05

Clique, clique, clique. São Paulo, Rio, Paris, Nova York, Londres, Tóquio, Berlim, Istambul. Mais cliques. Capas de revistas, editoriais de moda, campanhas publicitárias de roupas, perfume e maquiagem, retratos, ensaios conceituais… Os fotógrafos costumam dizer que as câmeras amam Gisele Bündchen e, nas últimas duas décadas, o amor foi correspondido, já que Gisele posou para elas milhares de vezes. Pode-se imaginar que não foi fácil a missão de escolher apenas algumas imagens desta trajetória para ilustrar o livro da editora Taschen dedicado à übermodel, cujo lançamento está previsto para o segundo semestre deste ano. 

“Não consigo precisar quantas fotos vi, mas acredito que foram mais de 30 mil”, afirma o diretor  de arte Giovanni Bianco, que há quatro anos faz a curadoria de imagens ao lado da própria biografada. “Conheço Gisele desde 1995 e nem eu tinha ideia do quanto essa mulher trabalhou. Cheguei à conclusão que ninguém torna-se extraordinário sem trabalhar duro.” Nome de peso da moda internacional e responsável pelas capas dos álbuns da cantora Madonna, Bianco já dividiu o set com as principais modelos do planeta e atribui o sucesso de Gisele à energia única, à noção exata que ela tem do tempo e à preocupação com o universo ao seu redor.

É possível explicar por que Gisele é a modelo número 1 do mundo?
Ela é um fenômeno. Lembro da primeira vez que a vi, em um casting para a marca Forum, no Belenzinho, quando a Gisele tinha uns 15 anos. O Tufi Duek (estilista da grife na época) apaixonou-se pela beleza dela de imediato. Na hora, também a achei bonita, mas o que me marcou para sempre foi a energia daquela menina. Essa coisa da Gisele chegar e impressionar vem desde sempre.

Como foi o processo de edição do livro?
No meu primeiro encontro com ela para falar do livro, depois de uma primeira pesquisa, eu disse: “Escuta, a que horas que você ia ao banheiro?”. Gisele ralou para caramba. Nem eu tinha ideia do quanto que essa trabalhou.

Faz a curadoria foi difícil?
Muito. Pesquisei durante quatro anos e fotógrafos do mundo inteiro me mandaram arquivos. Porém, foi muito recompensador. Tenho uma relação profissional com Gisele há anos, mas por causa do livro pude conviver com ela mais de perto e como ser humano ela também é incrível. Gisele é simpática, família e se preocupa genuinamente com o planeta e as pessoas ao redor dela. Ainda tem uma relação com o tempo extraordinária: sabe o tempo do humor, o tempo do trabalho, o tempo do dinheiro. Tudo dá certo na vida da Gisele porque ela tem a capacidade de sacar o tempo.

E qual o defeito dela?
Quando ela coloca uma coisa na cabeça é difícil tirar. Mas ela é inteligente e ter uma opinião própria faz parte. Outro lado irritante é que ela quer fazer tudo em 10 minutos. E consegue. No fim, está certa. Por que ficar lá fazendo centenas de cliques se ela se garante no primeiro? Quando se trata de um trabalho complexo que exige muito, porém, ela é a última a querer sair. 

O que a diferencia das outras modelos?
Ela mesma fala que não tem a beleza mais perfeita, mas sabe que a força dela é o todo, o conjunto: conhecer o ângulo perfeito do rosto, saber se posicionar para a câmera e se movimentar da melhor maneira com a roupa que está vestindo. Entre as brasileiras, além da Gisele, só a Raquel Zimmermann e a Carol Trentini possuem tamanha clareza do trabalho que fazem. 

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Seria uma pena nos privar de tanta beleza. Fica, Gisele!

<strong>ANÁLISE: Gloria Kalil</strong>

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