O FIM DA BELLE ÉPOQUE

ELIAS THOMÉ SALIBA

ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2013 | 02h12

Lytton Strachey, biógrafo da rainha Vitória, dizia que fatos do passado coletados sem arte são compilações úteis, mas não História, tanto quanto manteiga, ovos, sal e temperos não são uma omelete. Delineado através do cruzamento das biografias de três primos - Nicolau II da Rússia, Jorge V da Grã-Bretanha e Guilherme II da Alemanha -, Os Três Imperadores, de Miranda Carter, é um belo exercício de história comparada ou, na metáfora culinária de Strachey, uma saborosa omelete dos últimos suspiros do mundo europeu na belle époque. Inspirando-se no modelo miniaturista de biografias, Carter segue rigorosamente a ordem cronológica, ao detalhar voltas e reviravoltas do jogo diplomático e as formas como este se relacionava com querelas familiares. Capítulos temáticos aparecem apenas na primeira parte, que trata da infância dos imperadores, criados em ambientes isolados, gerando figuras anacrônicas, fora de sintonia com o fluxo de modernização dos seus países.

Num país enorme, no qual um terço da população vivia literalmente na miséria, Nicolau II parecia viver cercado de muros, numa corte de luxo absolutamente inconcebível, com a chancela da igreja ortodoxa russa. Só o palácio de Tsartkoe Selo contava com um séquito de 600 pessoas, a maioria criados - e onde a cozinha ficava tão distante (800 metros) do salão de jantar que a comida sempre chegava fria. "Não sei o preço das coisas porque nunca tive motivos para pagar pessoalmente por nada", jactava-se o czar. Após o desastre com a Guerra do Japão e a sucessão de revoltas em 1905, Nicolau chegou a ensaiar uma liberalização política - mas dois anos depois, a repressão voltaria com maior truculência, tingida de fortes tonalidades antissemitas. Não foi mera coincidência que a palavra pogroms (derivada do russo) tornou-se usual a partir daquela data. Após a revolução de 1917, Nicolau acabou fuzilado, com sua família, de forma cruel e escusa. E o relato detalhado que um dos seus carrascos deixou como legado, serviu para transformar o último czar num herói mártir, fachada que posteriormente seria muito útil tanto aos anticomunistas, quanto à igreja ortodoxa que acabou canonizando Nicolau em 2000.

Já na corte britânica, a menos militarizada e a mais rica da Europa, um ansioso Jorge V tentou se espelhar no pai, Eduardo, o qual possuía rara capacidade de projetar sua personalidade numa multidão e prestimoso talento para relacionamentos pessoais. "Seu efeito era comparável ao de Ronald Reagan", escreve Carter, em rara tirada irônica. Jorge seguiu e incrementou essa teatralidade da monarquia britânica, pomposa, autorreferencial e arraigada na tradição e foi, como se sabe, o único dos três que perdurou - "e a monarquia acabou vendida à democracia, como símbolo de si mesma", como concluiu o cientista político britânico Harold Laski.

Dos três, a figura mais polêmica foi a do egocêntrico Guilherme II, o cáiser. Com seu bigode em formato de W voltado para cima e com seu braço defeituoso, Guilherme oscilou entre o magnífico, o ridículo e assustador na sua incontrolável falastronice. A realpolitik criada por Bismarck foi completamente destroçada pela completa falta de foco do cáiser, cuja indecisão virou um tormento para seus diplomatas. Só a riqueza e o poderio da Alemanha é que serviram como uma espécie de emoliente político, contemporizando a vocação histriônica de Guilherme e retardando a débâcle. O confuso envolvimento de Guilherme com os nazistas e seu posterior exílio na Holanda é cheio de lances cômicos, já que, instado pelos seus comandados a se disfarçar para fugir, Guilherme acabou concordando, desde que não lhe tirassem o bigode!

Os três primos se encontraram algumas vezes, a última delas em maio de 1913, quando já estava claro, no horizonte histórico, o abismo entre a vida pública e cerimonial dos monarcas e a realidade de nações divididas, regimes desacreditados e cidadãos indignados. Sobretudo a Rússia e a Alemanha, embora até mesmo a estável Grã-Bretanha parecia sucumbir a um novo ciclo de insatisfação pública e desordem social. A guerra estava no ar e ela apenas deixou escancarado quanto o mundo moderno batia à porta dos monarcas, derrubando, especialmente através da imprensa e da opinião pública, as muralhas que eles haviam construído ao seu redor. De qualquer forma, a brutalidade perversa do século que começava iria muito além dos piores pesadelos dos três imperadores.

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