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O filme manifesto da nouvelle vague

Michel Marie procura desfazer algumas lendas associadas ao célebre movimento francês que teve no longa de estreia de Godard, 'Acossado', seu mais importante cartão de visitas

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2012 | 03h00

Sempre se disse que a nouvelle vague foi um tremendo sucesso de crítica e fracasso de público. Também se dizia que seus diretores não sabiam filmar e que nada, a não ser a idade, os unia de fato. A mitologia às vezes se deve aos próprios mitos. Jean-Luc Godard costumava dizer que a única coisa comum à turma da nouvelle vague era o gosto em jogar fliperama nos cafés de Paris. Em outra variante da blague, Godard afirmava que a velha guarda do cinema francês jogava baralho enquanto a nouvelle vague preferia caça-níqueis. Essa e outras “verdades” são relativizadas em A Nouvelle Vague e Godard, do ensaísta francês Michel Marie, autor de várias obras de peso, incluindo as fundamentais A Estética do Filme e Análise do Filme (todas editadas no Brasil pela Papirus), ambas em parceria com Jacques Aumont. Marie é professor emérito da Sorbonne e lecionou na Unicamp. 

Em A Nouvelle Vague e Godard o autor precisa alguns pontos sobre esse importante movimento cinematográfico francês e analisa mais a fundo aquele que considera seu filme mais emblemático, Acossado (À Bout de Souffle), de Jean-Luc Godard. Para isso o livro se divide em duas partes - A Nouvelle Vague: Uma Escola Artística e O Filme Manifesto: Acossado

Marie recorda coisas que já sabemos, tais como o nome, que vem de uma reportagem de 1957 da revista L’Express, assinada por Françoise Giroud, e que tocava no cinema apenas de maneira lateral. A matéria era sobre a troca de gerações. Quem eram aqueles jovens franceses que entravam em cena em várias áreas e logo estariam assumindo o poder da nação? Pouco se falava de cinema, em todo caso. Isso não impediu que o slogan jornalístico “pegasse” e logo fosse aplicado a uma nova geração que, de forma insolente, entrava em cena sem pedir licença aos mais velhos. 

O termo nouvelle vague cai como roupa sob medida nessa turma mal ajambrada, que despontara na crítica em várias publicações, mas em especial nos Cahiers du Cinéma, revista fundada em 1951 por André Bazin e Jacques Doniol-Valcroze. Na crítica se exercitaram os cinco cavaleiros da nouvelle vague, antes de passarem à direção: François Truffaut, Claude Chabrol, Jacques Rivette, Jean-Luc Godard e Eric Rohmer, que então assinava com seu nome verdadeiro, Maurice Schérer. Era o núcleo duro. A ele se associava gente como Alain Resnais (de Hiroshima, Meu Amor, 1958) e Agnès Varda, do precursor La Pointe Courte (1954). E até mesmo Roger Vadim que, com E Deus Criou a Mulher (1956), impressionou a eles todos - talvez menos pelo filme, bastante convencional no fundo, do que pelo esplendor de sua estrela, uma Brigitte Bardot no auge da beleza. 

O certo é que havia muita ebulição por baixo do aparente marasmo do cinema francês dos anos 1950. Ao contrário da Itália, que saíra da guerra devastada, porém rejuvenescida pelo neorrealismo, a França dormia o sono dos justos com as adaptações de obras literárias de prestígio, numa estética quadrada que descontentava a juventude. A nouvelle vague foi esse sopro de vida a sacudir instituições demasiado satisfeitas consigo mesmas.

Teria sido apenas isso, uma troca de gerações, feita com muita rapidez e alguma truculência? Não é o que pensa Michel Marie. Ao contrário do jogador de fliperama Jean-Luc Godard, o ensaísta vê na nouvelle vague uma coerência de grupo, um acontecimento esteticamente particular, consistente e limitado no tempo. É um momento único do cinema francês e mundial, que teve seu apogeu e passou, mas produz consequências até hoje. Assim, a nouvelle vague foi muito mais que uma rebelião ou ajuntamento de amigos: “Foi uma das escolas mais afirmadas e mais coerentes da história do cinema”, escreve.

A nouvelle vague preenche todos os requisitos para tal: possuiu um corpus de doutrina crítica mínima, a política dos autores, e um programa estético, fazer filmes pessoais, escritos e dirigidos por seus autores. Publicou seu manifesto (no caso, o artigo demolidor de Truffaut, Uma Certa Tendência do Cinema Francês). Reuniu um conjunto de artistas para um trabalho comum. Pôde apresentar logo um conjunto de obras para mostrar a que vinha (Nas Garras do Vício, Os Incompreendidos, Acossado, Paris nos Pertence, Amor Livre e Signo do Leão). Dispôs de um suporte editorial para defender suas ideias (os Cahiers). Tinha uma estratégia promocional bem clara e azeitada, turbinada por François Truffaut em sua coluna semanal na revista Arts. Possuía um líder (Truffaut) e um papa do movimento (André Bazin). Por fim, dispunha de adversários, “já que toda escola se afirma contra o que a precedeu ou lhe é coexistente”. No caso, os inimigos da nouvelle vague eram os cineastas e roteiristas do velho cinema francês, a parte da crítica que não os aceitava e a revista Positif, rival dos Cahiers até hoje.

Além disso, ao contrário do que reza a lenda conservadora, a nouvelle vague conseguiu interessante aliança com o público, pelo menos em seu início. Com a tabela de números em punho, Marie mostra que filmes como Os Primos (Chabrol, 1959), Os Incompreendidos (Truffaut, 1959) e Acossado (Godard, 1960) tiveram público semelhante aos melhores lançamentos do antigo cinema. Cada um desses filmes da primeira safra nouvelle vague levou cerca de 260 mil espectadores ao cinema, na estreia e apenas em Paris, números muito bons para a época. Sem esse diálogo mínimo com o público, qualquer movimento cinematográfico cai na irrelevância. E havia também a repercussão (embora não unânime) da crítica, a presença forte em festivais de primeira linha, a exportação para vários países. 

Dentro desse conjunto de obras, uma se sobressai, porque funciona como manifesto fílmico da nova escola - Acossado, de Godard, rodado a partir de um roteiro de Truffaut que, por sua vez, baseou-se num fait divers lido no jornal. É um filme que está em cartaz até hoje (conforme a frase de Cacá Diegues sobre Terra em Transe). É regularmente relançado, saiu em VHS e em DVD e continua a produzir reflexão teórica mais de 50 anos depois de sua estreia. Deu origem a um remake norte-americano, Breathless (1982), de Jim McBride, com Richard Gere e Valérie Kaprisky. De forma esperta, McBride inverte as nacionalidades do original.

Em Acossado, Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) é o malandro francês que tem um caso com a norte-americana Patricia (Jean Seberg). É uma história de amor bandido, talvez a mais célebre do gênero em toda a história do cinema. Não é seu enredo o responsável pelo sucesso, fama e permanência, e sim a maneira lúdica como Godard incorpora ao tecido do filme as manifestações mais diversas, do noir ao filme B americano, nos enquadramentos e closes ousados, dialogando com o Dreyer de Joana D’Arc, por exemplo, e inovando nos cortes e na montagem genial, brusca, “cheia de erros”, conforme acusaram seus adversários. Enfim, é o novo. E que revive a cada vez em que é revisto. 

Por incorporar e digerir tudo, a partir da formidável cultura literária e cinematográfica do seu autor, Acossado é uma espécie de ‘Manifesto Antropofágico’ da nouvelle vague francesa. Sempre atual e vigoroso.

A NOUVELLE VAGUE E GODARD

Autor: Michel Marie

Tradutores: Juliana Araújo e Eloísa Araújo Ribeiro 

Editora: Papirus

(272 págs, R$ 56)


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