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João Ubaldo Ribeiro
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O filme é o mesmo

Essa presepada regida pelo PMDB, à frente do saco de gatos conhecido como base aliada, augura um ano eleitoral bem movimentado. Nossos governantes começam a engalfinhar-se, no estressante afã de cada um garantir o seu e fazer as escolhas certas, antes que seja tarde, pois um erro de cálculo, a esta altura, pode sair muito caro. Com o possível intervalo da Copa, tudo agora é campanha eleitoral e tudo o que se faz em política é com o olho nas eleições, não importa quanto se minta em contrário. Lá vamos nós outra vez, pagar ingresso caro por um filme que já vimos.

JOÃO UBALDO RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2014 | 02h12

Ninguém está pensando, ainda que remotamente, no interesse público ou nos destinos do país. Para muitos, isto não acontece nunca e, em época de eleição, fica pior. A briga é por poder e - por que não dizer? - dinheiro, porquanto, mesmo onde não haja corrupção, há o desfrute de incontáveis vantagens, traduzíveis em bastante dinheiro. Os partidos políticos não querem dizer nada, são meros aglutinadores de interesses frequentemente passageiros e mutáveis, segundo as circunstâncias. Já há muito tempo, contam-se entre os nossos padecimentos sermos expostos à propaganda partidária gratuita, com o que nos passam um permanente, embora talvez merecido, atestado de burrice, desimportância e ignorância.

Se os nomes e siglas dos partidos fossem retirados desses programas, todos serviriam para todos, são obras-primas de vacuidade e ambiguidade, que os tornam praticamente intercambiáveis. Se se quiser, através deles, definir a identidade de um partido, a dificuldade será grande. Às vezes sem mudar nem o palavreado, são todos, pela justiça social, pela criação de empregos, pela melhoria da saúde, da educação e dos transportes, pela segurança pública e por tudo mais com que qualquer um concorda, só o Amigo da Onça seria contra melhorias em todas essas áreas.

Mas nenhum diz o que fará concretamente para mudar o que tanto se deplora. E, principalmente, nenhum diz como fará para atingir objetivos porventura explicitados. Farão precisamente o quê, planejam que ações? Se prometem tal ou qual reforma, como procederão para superar os obstáculos e concretizá-la além do nível do gogó? De que instrumentos pretendem dispor ou que instrumentos pretendem criar, que mudanças reais pretendem fazer, além das cansadas invectivas contra a má qualidade da educação, da saúde, dos transportes e assim por diante?

Há muito tempo que não se vislumbra uma estratégia, por parte dos governantes e dos partidos, para o nosso destino como país e como sociedade. Que tipo de país queremos para nós, aonde queremos conduzir nosso futuro, que projetos temos? O governo atual dá a impressão de agir topicamente, conforme a necessidade. Apareceu um problema, faz um plano para atacá-lo. Não parece haver nada orgânico, nada estruturado, nada definido de acordo com uma visão mais abrangente. Priorizar o social e criar empregos também são objetivos vagos, que tinham de pertencer a um todo bem mais especificado. O que parece acontecer é que se tomam decisões meio ao deus-dará - vamos fazer um trem-bala ali, uma transposição de água do São Francisco acolá e por aí vamos, aos solavancos.

O que se disputa é poder e dinheiro mesmo. O poder e suas mordomias significam tanto que, muito frequentemente, se prefere morrer a perdê-los. No Brasil, pense o cidadão comum nas vantagens de muitos governantes (governantes, talvez seja bom lembrar, de todos os poderes da República, não somente o Executivo), que nunca mais vão entrar numa fila; nunca usarão transporte público; têm salários elevados, ajudas de custo e todo o tipo de verba especial - alguns com cartão corporativo; nunca mais enfrentarão nenhuma das indignidades enfrentadas pelo cidadão comum, no dia a dia; têm jornadas de trabalho, férias e licenças especialíssimas; gozam de aposentadorias integrais e outras vantagens depois de pouquíssimo tempo de serviço; não gastam nada com planos de saúde, mas, pelo contrário, têm direito a atendimento nos melhores hospitais do país, direito estendido também à parentela. Ninguém pode avaliar o significado de toda essa tranquilidade, em comparação às incertezas em que vivem aqueles fora do poder ou da riqueza - e se compreende a observação atribuída a Darcy Ribeiro: "O Senado é o céu".

Enquanto durar o presente fuzuê, nada mais deverá ocupar os parlamentares. Esse negócio da sobrevivência é uma briga difícil e absorvente, o sujeito não pensa em mais nada. Além disso, a moeda de troca do governo talvez esteja até ficando escassa. Depois do mensalão, ficou meio fora de moda comprar diretamente o apoio - e os ministérios estão aí mesmo, para serem negociados. A escassez, contudo, pode atrapalhar, restando apenas a criação de mais uns dois ministérios, para tentar com isto, juntamente com uma dúzia de diretorias e umas três dúzias de conselhos deliberativos e mais uns assemelhados, suprir a demanda. Não creio que, para quem já é recordista em número de ministérios, mais uns dois sejam problema; onde comem 39, comem 41.

Um combativo guerreiro do PMDB disse que não se trata de cargos, mas de palanques. Acho o reparo irrelevante, porque claro que no fundo é a mesma coisa. O certo é que podemos ter certeza de que, mais uma vez, não é em nós que eles estão pensando, é neles. Não querem independência nenhuma, nem fazem nenhuma reivindicação nossa, querem é garantir o deles. Mas passa e vai acabar dando em nada. A não ser, é claro, que venham a sentir que o governo vai perder a eleição. Aí declararão outra vez independência e dirão que fazem tudo isso para o bem do Brasil.

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