''O filme é meu desejo de viajar no imaginário''

Amor pelas telas começou com Indiana Jones, confessa o ganhador da Palma de Ouro por Uncle Boonmee

Luiz Carlos Merten, ENVIADO ESPECIAL / CANNES, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2010 | 00h00

Estranho, experimental, majestoso, mágico - todos esses adjetivos foram usados pelos críticos para tentar definir o filme da Tailândia que recebeu a Palma de Ouro no domingo à noite. Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives é o quinto filme de Apichatpong Weerasethakul (foto no detalhe).

Você vai conhecê-lo um pouco melhor em setembro, quando ele promete participar, como artista plástico, da 29.ª Bienal de São Paulo.

Embora ainda jovem - vai fazer 40 anos em julho -, ele é um dos darlings de Cannes, pois Blissfully Yours ganhou o prêmio da mostra Um Certain Regard em 2002, e Mal dos Trópicos recebeu o prêmio especial do júri, dois anos mais tarde. Weerasethakul voltou a Cannes com um óvni, um filme sobre um homem que sofre de insuficiência renal aguda e se retira para o campo, antecipando a morte. Ele recebe a visita da mulher e do filho que morreram. E viaja no próprio passado, relembrando suas vidas anteriores. No sábado à tarde, anterior à vitória, Weerasethakul concedeu a seguinte entrevista, no estande da Unifrance.

Como surgiu a ideia de Tio Boonmee...?

Eu me inspirei num pequeno livro que recebi de um monge budista. O pequeno se refere ao tamanho, porque ele é pequeno e não muito volumoso, mas descreve com riqueza de detalhes as vidas passadas do autor. Fiquei completamente fascinado e envolvido pela precisão do relato.

Você acredita no ciclo de reencarnações que está na origem do budismo (e de seu filme)?

Quando falei no livro que me inspirou tenho de revelar que não se trata inteiramente da verdade. O filme também é uma homenagem muito pessoal à região em que nasci, no Nordeste da Tailândia, uma área muito remota do país. Sou muito marcado por aquelas florestas e montanhas, e também por algumas crenças animistas. Naquela região, é muito comum que as pessoas aceitam a possibilidade de reencarnar como animais.

Lembro-me de que na primeira vez que o entrevistei, pelo filme Mal dos Trópicos, você definiu a floresta daquele filme como tão bonita e misteriosa quanto Brad Pitt. E a floresta do novo filme?

Espero que seja mais bela ainda. E não apenas a floresta. O filme narra uma trajetória espiritual que é, ao mesmo tempo, uma decadência física. O tio está morrendo, seu tempo se esgota. Ele e suas encarnações atravessam a floresta, a água, descem às grutas, em busca de uma profunda verdade interior.

E o curioso é que nas profundezas da gruta os personagens encontram o que parece um céu estrelado.

É um filme cheio de significados e a ideia é justamente essa. Completar um ciclo da existência e do amadurecimento interior. Para mim, o mais importante de Uncle Boonmee é que corresponde ao meu desejo de viajar na poesia e no imaginário, sem nenhuma filiação a gêneros. Muita gente já me falou aqui em Cannes no terror japonês, mas, apesar do clima, eu não quis seguir essa vertente nem nenhum cinema de gênero.

Por que você decidiu se tornar um cineasta?

Venho de uma família sem tradição cinematográfica, numa região remota de um país distante. O filme mais importante para mim, o que deflagrou meu amor pelo cinema, foi Os Caçadores da Arca Perdida, de Spielberg. Você não consegue imaginar o que aquele filme representou para mim, no mundo em que vivia. Ele abriu uma janela para o maravilhoso.

Mas sua direção é poética e você não segue os códigos narrativos de Hollywood, por quê?

Porque, embora fascinado por Indiana Jones, pertenço a outro mundo, outra cultura. Não queria me filiar a gêneros nem códigos narrativos tradicionais, mas tenho de admitir que Uncle Boonmee saiu mais abstrato do que imaginava. Acredito que, apesar disso, é um filme que tem seu público. Aqui mesmo, em Cannes, muita gente tem feito interpretações interessantes sobre Uncle Boonmee. Embora enraizado na minha cultura, tenho certeza de que o filme é universal. As reações dos jornalistas me confirmam isso.

A situação política no país, a crise dos camisas vermelhas, quase o impediu de chegar aqui (a Cannes). Você faz referência à política por meio de uma fotografia. É perigoso fazer cinema na Tailândia?

Mais do que perigoso, é difícil. O país é pobre, é pequeno, vive uma crise profunda. Neste quadro, o cinema pode parecer uma atividade supérflua, mas é um instrumento para que investiguemos a realidade e nos conheçamos a nós mesmos. (NR - Depois da vitória, na coletiva, Apichatpong acrescentou: "Espero que o prêmio tenha um efeito benéfico. A cultura aponta caminhos. A Palma pode melhorar nossa autoestima. Espero sinceramente que isso ocorra.")

Alguns críticos dizem que você não é um diretor, mas um artista visual que faz cinema, como Steve McQueen. O que você pensa disso?

Conheço e admiro o trabalho de Steve. A ideia de Uncle Boonmee nasceu de uma instalação que fiz no Museu de Arte Moderna, chamada Primitive. É uma mistura de filmes curtos, fotos, desenhos e até um objeto, uma arma, que se reveste de um significado especial e que foi usada numa das filmagens. Meu cinema mistura literatura, artes visuais, mas Uncle Boonmee não poderia ser feito como uma instalação. Foi concebido e só funciona como cinema. Preciso de tempo, de espaço, de uma amplidão que só o cinema pode me oferecer.

A produção reúne recursos de vários países. Foi difícil de fazer a montagem?

Tenho uma produtora muito boa nesse tipo de engenharia. O cinema experimental, de autor, necessita de investidores especiais. Recebi recursos de várias origens e países. Um pouquinho daqui, outro dali. Não é um filme caro, mas como os demais que fiz exige um mecenas, disposto a arriscar, senão necessariamente perder dinheiro.

Já que seu filme acredita na reencarnação do homem como animal, em qual você gostaria de reencarnar?

Num búfalo. Estou dizendo rapidamente, sem pensar. O búfalo é forte, resistente, tem múltiplas utilidades. É, voltar como búfalo pode ser interessante.

PREMIADOS

Palma de Ouro, melhor filme - Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives, de Apichatpong Weerasethakul

Grand Prix - Des Hommes et des Dieux, de Xavier Beauvois

Prêmio do júri - L"Homme Qui Crie, de Mahamat-Saleh Haroun

Mise-en-scène (direção) - Mathieu Amalric, por Tournée

Melhor atriz - Juliette Bionoche, por Copie Conforme

de Abbas Kiarostami

Melhor ator (dividido) - Javier Bardem, por Biutiful, de Alejandro González-Iñárritu, e Elio Germano, por La Nostra Vita, de Daniele Luchetti

Melhor roteiro - Poetry, de Lee Chang-dong

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