O figurino no palco de 7 mestres

Fausto Viana lança hoje obra em que analisa a evolução dos trajes no teatro

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2010 | 00h00

Bertolt Brecht não tinha pressa. Na escolha de um único casaquinho, o dramaturgo alemão consumia cinco, quase seis horas. Sabia que era preciso apuro e tempo para encontrar a roupa que conseguisse traduzir no palco a exata medida da heroína que criou em Mãe Coragem.

Nessa busca pelo que tinha em mente, Brecht chegou mesmo a escrever um manual. Ensinou a preparar cada uma das vestimentas de cena: o tecido da saia seria desgastado. Raspado com lâmina de barbear e depois manchado com cera de vela, esmalte, gordura. Tudo isso até que as vestes ganhassem a aparência de velhas e gastas, até que sua protagonista parecesse tão pobre e alquebrada como ele havia imaginado.

O episódio é uma das histórias resgatadas em Figurino Teatral e as Renovações do Século 20, livro que o pesquisador Fausto Viana, colaborador do Estado, lança hoje, na Livraria Cultura.

Resultado de quase dez anos de pesquisa, a obra faz um passeio pela evolução histórica dos figurinos no teatro ocidental e analisa o trabalho de sete grandes encenadores: Adolphe Appia, Edward Gordon Craig, Konstantin Stanislavski, Max Reinhardt, Antonin Artaud, Bertolt Brecht e Ariane Mnouchkine.

"Queria mostrar como esses nomes que renovaram a cena do século 20 pensaram esse aspecto dos figurinos", diz o autor, também professor de cenografia e indumentária na USP. "Sempre se fala de como Stanislavski, por exemplo, mudou a questão da interpretação, da voz, do lugar do ator, mas pouco se sabe sobre esse aspecto específico de sua produção."

Foi durante uma visita à biblioteca do Teatro de Arte de Moscou que Fausto teve a dimensão de quão inexplorado era o território no qual havia se lançado.

Lá, encontrou uma sala inteira repleta de livros que tratavam da obra do mítico diretor russo. As centenas de volumes analisavam todos os aspectos de seu famoso método de formação de atores e reviravam sua trajetória como encenador. Em nenhum deles, porém, encontrou referências ao figurino de suas criações.

Por muito tempo, os trajes ocuparam função meramente decorativa nas produções. "Um ator vestia a roupa que o tornasse o mais exuberante possível no palco. E essa escolha pouco ou nada tinha a ver com o personagem a ser interpretado", lembra Viana.

Stanislavski revolucionou o teatro ao criar um novo estilo de interpretação: um ator não deveria mais simplesmente declamar um texto, mas entender suas motivações e encontrar uma "verdade" cênica. Como encenador, no entanto, ele parecia assumir uma postura muito mais centralizadora. Mais de 40 dias antes de começar a trabalhar com o elenco, suas concepções de figurino já estavam definidas. Sem muito espaço para o ator ou para suas "necessidades interpretativas".

Simbolismo. O rótulo de realista, tão comumente atribuído a Stanislavski, é outra das "verdades" que o livro ajuda a jogar por terra. "Ainda hoje, no Brasil, as pessoas acreditam nisso. Mas ele não se ateve apenas a esse tipo de espetáculo", ressalva o pesquisador. O seu teatro também flertou com o expressionismo e o simbolismo, como denotam os figurinos de O Pássaro Azul, montagem na qual os intérpretes se travestiam de elementos como leite, água, fogo ou pão.

Além da pesquisa de campo em Moscou, Viana também passou bom tempo em Paris, onde explorou a produção de figurinos de Ariane Mnouchkine e do seu Théâtre du Soleil. "Ariane é o resultado de todos esses homens que vieram antes dela. Ela assume todas essas referências, faz uma síntese e vai além", pontua.

Na companhia, os figurinistas não desenham modelos ou escolhem cores. Todos os trajes de cena são criados com os atores, que têm, ao lado da sala de ensaios, uma sala de costura com tecidos e costureiras à disposição. "Lá, o figurinista se torna, verdadeiramente, um tradutor dos desejos do ator", conclui.

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