O feitiço de Magda

LP dos anos 60 que pianista via como ponto alto de sua carreira ganha versão restaurada em CD

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2013 | 02h14

Pode-se aplicar à fase dourada da música espanhola para piano, na passagem dos séculos 19 para o 20, a frase que Claude Debussy usou para qualificar a produção de Enrique Granados: "uma música estranhamente vívida" que "persegue como alguns perfumes, mais persistentes do que fortes". Este perfume indefinível e único, forjado na encruzilhada entre oriente e ocidente tão presente nas várias regiões de um país muito diversificado que viveu com intensidade as culturas árabe e europeia, foi capturado com genialidade por compositores essencialmente pianísticos, como o citado Granados e Isaac Albéniz. Ambos frequentavam o imaginário feérico da música francesa das primeiras décadas do século 20. Daí a frase de Debussy, daí também o talento excepcional de uma pianista brasileira neste repertório. Afinal, Magda Tagliaferro lá estudou, viveu e se projetou internacionalmente.

Tout Paris impregnou-se do perfume espanhol. Inclusive a brasileira nascida em Petrópolis em 1893 de pais franceses, que começou a estudar piano com o pai, ex-aluno de Raoul Pugno, ainda no Brasil. Pablo Casals incentivou a menina de 13 anos a estudar no Conservatório de Paris. E com apenas oito meses de aulas com Marmontel, foi primeiro prêmio por unanimidade na reputadíssima escola parisiense. Passou para a classe de Alfred Cortot - seu mestre e amigo de toda a vida. Meses depois fez o primeiro recital na Salle Erard, seguido de uma turnê de concertos com ninguém menos do que o compositor Gabriel Fauré. Dali em diante, transformou-se numa das grandes pianistas da cena francesa e europeia, até as vésperas da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Entre 1941 e 1949, retornou ao Brasil. Daí em diante, até sua morte, em 1986, fixou-se novamente em Paris, mas vinha com frequência a São Paulo. Seus parceiros de música são um verdadeiro "who's who", o melhor de Paris: Ravel, Poulenc, D'Indy, Enesco e Reynaldo Hahn, entre os compositores; Casals e Thibaud entre os músicos; e Furtwängler, Ansermet, Monteux e Charles Munch, entre os maestros.

Com Cortot, aprendeu algumas regras essenciais do grande pianismo romântico. Como a de Schumann nesta frase singela sobre Liszt ao piano: "é preciso vê-lo, não só ouvi-lo". Ou então duas das centenas de observações de Charles Rosen em seu ótimo livro Piano Notes: "A peça virtuosística ideal é a que soa mais difícil do que realmente é" e "os pianistas gostam de ver reconhecidos seus esforços". Talvez mais do que isso. Todos os pianistas, acrescenta Kenneth Hamilton, autor do ótimo livro After the Golden Age, no fundo gostariam de retornar aos tempos de Liszt: ter o público a seus pés. Tempos em que já se dera a mudança na própria natureza da criação pianística, como anota Rosen: "A música para piano do século 18 dirigia-se em grande parte ao prazer ou educação do intérprete, tanto o amador quanto o profissional; no final do século 19, havia passado a ser quase exclusivamente o prazer e o interesse do ouvinte o que determinava a forma e o estilo de escrita para o piano".

Grande dama. Os grandes pianistas, de Liszt a Horowitz, sempre levaram muito a sério tais preceitos e anseios. Magda não só seguiu esta cartilha: juntou a um talento musical formidável também os ares de grande dama. Sensual e dionisíaca por excelência, mesmo aos 90 anos, exibia cabelos cor de fogo e uma incrível vitalidade. Manteve uma escola que hoje é uma fundação atuante em São Paulo. Formou gerações de pianistas brasileiros.

Até sua plena maturidade, considerava seu recital de 1960 na Salle Wagram, em Paris, como um dos pontos altos de sua carreira. Naquele mesmo ano, esteve no júri do Concurso Chopin de Varsóvia, em 1960, ao lado de Arthur Rubinstein, Nadia Boulanger e Heinrich Neuhaus, que deu o primeiro prêmio a Maurizio Pollini.

O LP D'Ombre et de Lumière - uma expressão que repetia vezes sem conta nas aulas e master classes para qualificar o toque pianístico, tecido com chiaroscuro e meias-tintas - foi lançado no ano seguinte, na França e também no Brasil. Há alguns anos, integrou um álbum duplo de Magda lançado pela primeira vez em CD pela EMI francesa. Mas agora o recital é novamente lançado, só que, depois de receber um primoroso trabalho técnico de restauro, soa de modo quase inédito. A façanha é do selo francês Barcarolle.

Ela amava particularmente este repertório. E o toca com paixão, sensualidade e um refinamento memoráveis. O anônimo autor do texto no folheto do CD compara a arte de Magda à frase que Goethe usou para elogiar Paganini: "poder misterioso que todo mundo sente e nenhum filósofo explica".

De fato, é um raro prazer auditivo reouvi-la em gemas como a Danza del Molinero, de Manuel de Falla; ou então mergulhar no perfume tão característico e indefinível de Granados e Albéniz. Do primeiro, Magda recria Queja o la Maja y el Ruiseñor das Goyescas, e duas das danças espanholas: Andaluza e Oriental. De Albéniz, cinco pepitas conhecidíssimas, tocadas com panache e verve diferenciadas: Seguidillas e Cordoba (dos Cantos de Espanha); Sevilla (da Suíte Espanhola); e Evocación e Triana (de Iberia). O arremate do recital é matadoramente brasileiro: Festa no Sertão e Impressões Seresteiras do Ciclo Brasileiro de Villa-Lobos. No extra, o vertiginoso Polichinelo, da Prole do Bebê nº 1.

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