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O feitiço chamado João Borba

O primeiro álbum autoral de um sambista de 78 anos da Velha Guarda paulista se torna uma pedra preciosa

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2012 | 02h06

Ninguém vê quando o cantor se aproxima. Se vê, continua tomando chope e conversando com o parceiro ao lado como se o mundo fosse exatamente o mesmo com samba ou sem samba. A plateia são cinco mesas de dois ou quatro lugares cada uma. Não existe palco, mas uma outra mesa para os músicos deixarem copos de chope e partituras. O violonista tira o instrumento do estojo enquanto o pandeirista volta do banheiro. Borba se ajeita, pega o microfone e abre um sorriso que parece dizer tudo. Aos 78 anos, está pronto para fazer aquele canto do Bar do Alemão, ao lado do Viaduto Antártica, virar sua casa.

João Borba passou anos existindo sem existir. Seu namoro com a noite começou cedo, aos 18 anos, quando se preparava para tocar surdo em um baile de carnaval. A voz que ouviu vindo em sua direção esfriou a espinha. "É você quem vai cantar hoje, Borba", disse o mandachuva da orquestra, cansado de esperar pelo crooner que não chegava. Borba deixou a baqueta de lado e pegou um microfone do qual, por todos esses mais de 50 anos de saltos e quedas, perdas e ganhos, jamais conseguir desgrudar.

A vida fez de Borba um homem discreto. Sua grandeza não é daquelas que vêm sob luzes, mas em pequenos gestos e em uma capacidade de sorrir que parece trazer o mundo a seus pés como se fosse uma grande rede lançada ao mar. Eduardo Gudin veio em uma dessas levas. Quando percebeu a força daquele senhor que ia a seu bar exclusivamente por amor ao samba que ouvia por lá, não se fez de desentendido. Chamou Borba em um canto e lhe propôs comandar as rodas do Alemão todas as quintas-feiras.

Há dois anos, Gudin resolveu lhe dar o maior presente que uma voz da noite pode ganhar: um disco. Idealizou e levantou fundos para que João Borba Canta Jorge Costa fosse lançado. Seus amigos se mobilizaram para a produção do álbum e sua filha, Joana, cuidou da parte gráfica. "Só achei que isso seria importante para ele", diz Eduardo Gudin.

A história poderia acabar assim, com este episódio de benevolência protagonizado por um grande e visível sambista a outro menos afortunado. Mas não. Uma nova leva de amigos trazida pela luz de Borba resolveu escrever um segundo capítulo com a criação de um disco magistral, seguramente entre os melhores do gênero lançados no ano.

Sua voz grande, grave e jovem, lubrificada com cerveja sem gelo e escolada nos enredos da Pérola Negra, a "escola do coração", é o que conduz uma gente que não está lá só por bondade. Luizinho Sete Cordas, herdeiro único e direto de Dino Sete Cordas, fez arranjos e acompanhamentos; o violonista Zé Garcez , a produção executiva e também acompanhamentos; e o também violonista Euclides Marques foi responsável por uma produção musical artesanal que faria toda a diferença (leia mais abaixo). De sambista da noite, o álbum batizado Eu Comigo e Meus Amigos joga os talentos de Borba para o alto ao mostrá-lo também como compositor de hits de largada como Emossamba e Carente - o mesmo que faria um homem parar de conversar com o amigo da frente para lhe perguntar: "Caramba, que samba é esse?".

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