O fascínio das roupas de princesa

Cinco salas, 21 vestidos. O suficiente para garantir alta movimentação no Palácio de Kensington, o mesmo que em breve abrigará um 'royal baby', terceiro na sucessão ao trono britânico, primogênito(a) de William e Kate. Não, não se preocupem, as filas que desde a semana passada se formam no local para ver Fashion Rules, exclusiva mostra de vestidos da rainha Elizabeth e das princesas Margaret e Diana, em nada incomodará o rebento quando ele finalmente nascer e vier para a sua primeira casa. Até porque ele vai morar com os pais numa ala de 21 cômodos do palácio, com todo isolamento acústico e conforto que se possa imaginar. Portanto, libere-se o tititi da mostra.

LAURA GREENHALGH , LONDRES, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2013 | 02h09

Fashion Rules é prova de que a moda dita algo mais do que elegância. Dita comportamento, formata imagens, constrói ou corrói reputações e, no caso das três mulheres em foco, revela o poder do diplomatic dressing. Foi essa a intenção do Historic Royal Palaces ao encomendar a curadoria da exposição a Cassie Davies-Strodder: mostrar que, mesmo obedientes ao protocolo, mulheres da realeza incorporam padrões mundanos no vestir, impõem estilo e, em certos momentos, fazem mais pelas relações político-diplomáticas da Coroa do que os moradores de 10, Downing Street.

Que o diga a rainha: em 1961 ela se vestiu com as cores da bandeira do Paquistão em banquete oferecido pelo então presidente do país, Ayab Khan. O decote discreto, finalizado numa arriscada cascata de cetim verde e branco, não seria mero acidente de percurso.

A exposição viaja por quatro décadas, de 1950 a 1990. Davies-Strodder, além de reunir os modelos exibidos em vitrines, ilustrou cada década com capas da Vogue inglesa dispostas pelas paredes - mostram a evolução da mulher na sociedade. Fora isso, para cada uma das três 'royals', encomendou um documentário breve. A luz das salas é intimista, a música, suave, tudo sutilmente glamouroso.

A primeira sala traz vestidos de noite da rainha Elizabeth, dos tempos em que era princesa. Pelo formato que têm nos cabides, imagina-se a jovem de estatura baixa e cintura fina, mais fina ainda em contraste com o volume das saias rodadas. A herdeira do trono foi um acontecimento. Sua coroação, em 1953, gerou a primeira transmissão ao vivo feita pela televisão. Garota bonita e de jeito discreto, Elizabeth foi vista por milhões e copiada por milhares. Simbolizava um país que ansiava se livrar do estrago da guerra e do cinza nas roupas. Um dos costureiros da época, Norman Hartnell estabeleceu o seguinte cânone: "Ladies da família real devem usar apenas tons claros, para se destacar na multidão". E nos filmes em preto e branco.

Simbolizando a passagem dos anos 1960/70, surge a princesa Margaret, irmã da rainha, que durante bom tempo morou (e se divertiu) no Palácio de Kensington. Sem o peso da coroa sobre a cabeça, Margaret sempre foi mais descolada. Já se disse que sua beleza chegava a ser obscena para os códigos vitorianos. Pois bem, a princesa-irmã é relembrada na mostra pelos vestidos em tons vibrantes, experimentando tanto as ousadias da maison Dior (o slim-line look, por exemplo) quanto as irreverências de Mary Quant (aquele famoso vestido curto com gravatinha). A prova de que estava sintonizada aos ditames da moda aparece no esplêndido caftã com turbante que usou em Mustique, nos anos 70. Bronzeada e em plena forma, fez a versão chique do ethnic clothing das butiques de Carnaby Street e King's Road. Numa das cenas do documentário, lá está a princesa fashion cumprimentando os Beatles, descontraidamente. Gostava do mundo pop-rock.

Chega-se à sala reservada para Diana, a Princesa de Gales, e daí, sim, sente-se o peso da coroa. Diana é relembrada em apenas cinco roupas. Todas dos anos 80, quando seu casamento com Charles ainda funcionava - ao menos nas aparências. Tem-se uma Diana que convocava novos estilistas para montar seu guarda-roupa, ficando refém de certas tendências da época - como as famigeradas ombreiras e os penteados de escova, à la Farrah Fawcett.

Sabe-se que o melhor estilo da princesa emergiu quando já estava separada de Charles, morando sozinha com os filhos em Kensington, porém isso não aparece em Fashion Rules. Nos anos 80, costureiros como Bruce Oldfield e Jacques Azagury - a História os julgará pelas ombreiras - tiraram partido da altura da princesa, desenhando modelos justos até abaixo dos quadris, para então abrir saias sobrepostas de tule. Só uma figura longilínea como Diana sobreviveria a tal arquitetura, com elegância.

O único vestido dos anos 90 é uma criação de Catherine Walker, que a princesa usou no Brasil em banquete no Itamaraty oferecido pelo então presidente Collor. Moldado ao corpo, com manga longa de um lado e completamente sem manga do outro, o modelo assimétrico era branco e tinha delicadas aplicações de lantejoulas rosadas. Diana reluziu perto de uma Rosane Collor enfiada num modelo verde arara. Era o prenúncio do estilo que a princesa iria exibir até 1997, quando morreu em Paris. De qualquer forma, para visitantes que se sentirem frustrados com o pouco que se tem de Diana na mostra, recomenda-se rever aquele famoso ensaio fotográfico de Mario Testino. Nele, Lady Di não precisou mais do que uma camisa branca, um bom corte de cabelo e o rosto lavado para encantar.

A mostra em cartaz em Kensington faz parte da ofensiva do Palácio de Buckingham para alavancar a presença da realeza, num momento crítico para as finanças do reino. Não por acaso o orçamento do Estado para Elizabeth II, o chamado Royal Grant, até cresceu - foi para £ 36 milhões no ano fiscal de 2013-14, quatro milhões a mais do que no exercício anterior. E a justificativa dada escora-se no contábil: a realeza, com seus palácios, jardins, museus, coleções e licenciamentos, gera empregos e movimenta diferentes setores da economia. Não há dúvida de que Fashion Rules será sucesso de público e bilheteria até o apagar das luzes, cuja data ainda nem se cogita.

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