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O faquir

Vestia apenas uma fralda, igual à que Adelaide via no Cristo pregado na cruz, na igreja que frequentava

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2017 | 01h00

Adelaide não poderia descrever o que sentiu quando viu no jornal que um faquir chegara à sua cidade. O jornal trazia uma fotografia do faquir no meio da praça, dentro de uma jaula e deitado numa cama de pregos. Segundo o jornal, o faquir ficaria 40 dias e 40 noites sem comer e beber. Junto do faquir, dentro da jaula, havia uma cobra. O jornal não dizia de que espécie era a cobra.

O faquir vestia apenas uma fralda, igual à que Adelaide via no Cristo pregado na cruz, na igreja que frequentava. Adelaide também não saberia descrever o que sentia, olhando o Cristo quase nu. Adelaide tinha mais de 30 anos e nunca vira um homem nu, completamente nu. Quando sonhava com o Cristo, ele vestia um camisolão branco que tapava todo o seu corpo. Depois de ler a notícia da chegada do faquir no jornal, Adelaide sonhou com ele. O faquir aparecia no seu sonho nu. Completamente nu.

Adelaide perguntou à sua patroa se podia ir até a praça ver o faquir.

- Faquir? - disse a patroa. - Ainda existe isso?

E a patroa deixou Adelaide ir ver o faquir.

*

Havia uma multidão em volta da jaula do faquir, na praça. Adelaide conseguiu chegar perto da jaula. O faquir estava deitado de costas nos pregos, com as mãos entrelaçadas sobre o peito e os olhos fechados. A cobra se enrolara num dos cantos da jaula e também parecia dormir.

- Ele come escondido, no meio da noite - disse alguém.

- Será que a cobra também faz jejum? - perguntou outro.

De repente, o faquir abriu os olhos, virou a cabeça e olhou diretamente para Adelaide. E sorriu. Adelaide pensou: depois disto, eu jamais vou ser a mesma criatura que eu era. Se pudesse explicar, Adelaide diria que o olhar do faquir tinha sido de misericórdia. O olhar do faquir fora buscar alguma coisa no cerne de Adelaide, triste Adelaide. Que se virou rapidamente e saiu às pressas, abrindo caminho na multidão. Se pudesse explicar, Adelaide diria que tinha sido desvirginada pelo sorriso do faquir.

*

Naquela noite, Adelaide fugiu de casa e voltou à praça. A praça deserta. O faquir estava encostado num dos lados da jaula com a cobra a seu lado. Nenhum sinal de comida por perto. Adelaide pediu para o faquir levá-la quando fosse para outra cidade. O faquir respondeu:

- Não, fique aqui. Você só iria para cuidar destas minhas feridas...

E mostrou, não as marcas dos pregos nas costas, mas as marcas dos pregos nas mãos. 

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