O famoso zé-ninguém

Sábado, perto da meia-noite. Fui andar com o Rui e seus dois cachorros pelas ruas do centro. Morador do Copan, ele sai em turnos, de duas ou três vezes ao dia, para que sejam feitas as necessidades caninas.

MARCELO RUBENS PAIVA, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

Na Ipiranga, deixei-os e fui visitar os amigos que deviam estar espalhados pelas calçadas da Praça Roosevelt, diante de bares e teatros, bebendo cerveja, uísque, conhaque barato ou mate gelado, fumando o que pode e o que não.

Gente do meio teatral e boêmia, misturada a curiosos que caem de paraquedas num pico em que todos se conhecem. E noiados que todos conhecem, que se espalharam pela cidade e, especialmente, pelo centro, já que não têm para aonde ir, mesmo que queiram se livrar do vício - elenco incorporado indiretamente ao núcleo dos contaminados pelo vírus do teatro.

Assim que dobrei a Consolação, vi o meu caminho interrompido por um corpo atravessado.

Olhei preocupado. Um desconhecido. Parei rente e notei que não sangrava. Escorria algo dele, que seguia como um riacho até a sarjeta. Poderia ser mijo. Ou vômito. Ou saliva.

Estava desacordado. De bruços. Pés descalços. Pátina urbana manchava a sua pele. Com os bolsos revirados; alguém chegara antes e limpara o bebum. Mas era um bêbado ou desmaiara doente por outros motivos?

Procurei cumplicidade em outros pedestres. Ninguém parava. Desviavam sem olhar, acostumados com aquele tipo de encontro obrigatório para quem frequenta a área.

Ao lado, a porta de um bar apinhada. Bebiam e fumavam. Cinco metros adiante, garotos e garotas com pinta de artistas promissores sentados na mesma calçada. Conversavam animados.

Vi pessoas diante do Satyros 1. Mais adiante, uma muvuca no Parlapas. Teatros que frequento e em que costumo montar minhas peças recentes. O cara do milho vendia milho. A tabacaria estava aberta ainda. O vaivém indicava que nada fugia do padrão de um sábado de verão, apesar do corpo que interrompia a passagem.

Talvez outros corpos já interromperam a minha passagem, e, como a maioria, nem dei bola. Apenas o contornei e segui o meu caminho.

Mas, por alguma razão, desta vez empaquei.

Lembrei dos vários bebuns com traumatismo craniano que me fizeram companhia por dois meses na UTI no Hospital Mário Gatti, de Campinas, em que fiquei internado.

Eu os invejava tanto... O coma deles contrastava com a minha lucidez. Eram meus amigos silenciosos, quem eu observava sem ser visto, e de quem eu acompanhava a recuperação. Era a maior causa de internações daquele hospital: bêbados que desabavam e batiam a cabeça no meio-fio. E minha bizarra distração sob o tédio enlouquecedor de uma UTI.

Vi Jordão, apelidado Deus - por saber de tudo, entender de tudo -, que há décadas bate cartão no Centro Cultural São Paulo. Tomava um vinho numa cadeira de plástico.

Falei do corpo atravessado. E que precisávamos fazer algo. Curiosamente, onde vínhamos todos beber, havia um que tinha exagerado que não merecia a nossa atenção.

Vamos chamar o Samu, concordamos. Examinou o corpo e entrou no bar ao lado.

Apareceu Loureiro, diretor, que também se surpreendeu com a cena. Jordão voltou e disse que o dono do bar afirmou estar muito ocupado para ligar pro Samu, e que aquele bêbado estava sempre ali.

Não estava. Faço aquele percurso semanalmente. Nunca o vi antes.

Loureiro acabou ligando do seu celular, já que o orelhão ao lado não funcionava. Ficou alguns minutos com a atendente na linha descrevendo o sujeito e o seu estado. Pediram os dados pessoais e o número do telefone de que discava, pois um médico ligaria em seguida.

Sentamos num banco em frente e esperamos, como impotentes guardiões de um anônimo. Só 40 minutos depois, o médico ligou. Perguntou se o sujeito sangrava. Não, aparentemente não. Informou então que tinha muitas ocorrências, mais prioritárias, e que o socorro demoraria.

Naquela mesma praça, há pouco mais de um ano, meus dois amigos Mário Bortolotto e Carcarah foram baleados numa tentativa de assalto.

Quando os bandidos fugiram, alguém gritou para chamarem o Samu. Especialmente para o Mário, que levou três tiros no peito e um de raspão no pescoço, e teve uma artéria arrebentada.

Foi Fernanda D"Umbra quem gritou que o resgate demorava e convenceu um carro da polícia que chegava a levar o Mário para a Santa Casa. Jogaram o amigo no chiqueirinho, enquanto Carcarah, com três tiros na perna, foi colocado em outro carro.

Pouco mais de um ano, era o corpo ensanguentado do Mário que atravessava aquela calçada. No hospital, nos informaram que se demorassem mais dez minutos, ele não sobreviveria.

Dependendo do Samu, não teria mesmo. Pois ficamos mais meia hora aguardando o socorro ao bebum, e nada.

Os garçons do bar ao lado apareceram. Achei que vieram, enfim, ver o que acontecia diante do seu estabelecimento, indignados com a indiferença do patrão. Que nada. Vieram fumar.

"Como esta história vai terminar?", perguntei aos dois que aguardavam comigo.

"Este cara vai acordar e sair andando, antes do socorro chegar", disse Jordão. "E vai tomar outro porre", emendou Loureiro.

"É. Mas fizemos a nossa parte", eu disse.

Jordão se levantou, apontou e disse: "Paiva, este é o famoso Zé-Ninguém."

E cada um seguiu o seu rumo.

Fui para o meu carro, estacionado na Consolação, e reparei que outro Zé-Ninguém dormia ao lado, mais discreto, encostado na fachada de um prédio, num canto escuro.

Como existe o John Nobody, ou o Giuseppe Nessuno e o Jean Personne pelo mundo. É preciso ter sangue frio para aturar a indiferença contra eles. Como Candide, de Voltaire, sejamos otimistas: tudo o que existe é bom; o mal é apenas uma aparência e uma visão relativa.

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