O falso anacronismo de um gênio que se mantém sempre atual

Há 60 anos começou a gestação do longa de Manoel de Oliveira que inaugura amanhã a Mostra. Ele não pode ser acusado, portanto de se haver integrado à corrente espírita que assola o cinema brasileiro - e o português, afinal, é a língua mãe de ambos os lados do Atlântico. O caso de Angélica é mesmo estranho. Chamado para fotografar a garota que morreu - é interpretada por Pilar López de Ayala -, Ricardo Trêpa descobre, ao revelar as fotos, que a morta lhe sorriu. E fica obcecado por ela.

Crítica: Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2010 | 00h00

Oliveira antecipou Alfred Hitchcock e Michelangelo Antonioni? As fotos ampliadas e o homem que quer possuir a morta remetem, respectivamente, a Blow Up - Depois Daquele Beijo e Um Corpo Que Cai. Se ambos os (grandes) autores foram influenciados, a influência terá sido superficial. As obsessões são típicas de Oliveira. O tempo, a morte, o cinema.

Há um trator que abre sulcos na terra e ele volta como um motivo repetido para marcar o tempo (como as canções ritmadas dos agricultores). A morte, informou o centenário mestre em Cannes - ele completa 102 anos em dezembro -, faz parte do mistério da vida e não lhe mete medo. As transformações da morta e até os mirabolantes efeitos envolvendo seu leito colocam em xeque a própria natureza do cinema.

O de Oliveira é falado, todo mundo sabe, e boa parte desses outros mistérios, do Porto, do Douro - a Mostra deve exibir Os Mistérios de Lisboa, de Raul Ruiz -, vem das longas conversas em torno da mesa. Outros personagens discutem a antimatéria e os choques financeiros, mas Isaac, o fotógrafo, parece preso, anacronicamente, à sua morta. O anacronismo, na verdade, é a genialidade de Oliveira. Repare na forma como ele atualiza seu velho roteiro e faz de Georges Méliès reencontrado - os amantes que voam - um signo de audácia.

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