O extraordinário dentro do medíocre

O Grande, livro póstumo e inacabado do argentino Juan José Saer, revela obsessão do ficcionista pelas pequenas coisas

Antônio Xerxenesky, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

No mínimo curiosa é a relação entre o mercado editorial brasileiro e a produção literária na América Latina. Apesar da proximidade geográfica dos nossos vizinhos falantes de espanhol, há uma difusão muito maior de autores norte-americanos e europeus no Brasil.

Juan José Saer, o escritor argentino que morreu em 2005, é tido com extrema reverência na América Latina, enquanto no Brasil sua obra tem sido lançada a conta-gotas e ainda permanece desconhecida do grande público. Diferente, digamos, de Roberto Bolaño, o fenômeno importado do Chile que, antes de ter sido alçado ao estatuto de estrela no Brasil, obteve o selo de aprovação norte-americano. O extenso romance póstumo de Bolaño, 2666, foi considerado "o lançamento mais importante de 2010". Já O Grande, romance também extenso, póstumo (e inacabado) de Saer, provavelmente passará de forma muito mais discreta.

A mola propulsora do enredo de O Grande é o retorno do roteirista Willi Gutiérrez à cidadezinha de Rincón, 30 anos após sua brusca e inexplicada partida rumo à Europa. O romance tem sua história contada em sete dias, orbitando ao redor de um grande almoço que Gutiérrez marca em que pretende reunir todos seus antigos amigos. Não obstante, o foco não é o próprio Willi, mas seus amigos e, em especial, Nula, um vendedor de vinhos e aprendiz de filósofo de 29 anos.

Nula, apelido improvável de Nicolás, parece ser o elemento necessário para que a história se inicie. Tendo 29 anos, viveu em Rincón justamente durante o período da ausência de Willi. O apelido é muito determinístico: "nula" sinaliza para um espaço vazio a ser preenchido por narrativas. O jovem busca uma compreensão da enigmática figura de Gutiérrez, e costura diversas tramas de diversos tempos em uma colcha de retalhos que não se fecha por completo.

O título O Grande é tradução de La Grande, que, de acordo com a orelha do livro, aponta para uma possível interpretação de "O grande romance de Saer" (que em espanhol seria um feminino "la grande novela"). Porém, apesar da extensão, Saer mostra-se um autor como o suíço Robert Walser: obcecado pelas pequenas coisas. Em O Grande, assim como em As Nuvens (o romance do autor lançado anteriormente também pela Companhia das Letras), as paisagens naturais são descritas com mais paciência que os avanços no enredo. O autor argentino, por vezes, parece congelar cenas, como em uma pintura, para descrevê-la em tom contemplativo. Nesses momentos, Saer expõe uma verdadeira obsessão cromática, na qual as cores são sinais fundamentais para a composição da paisagem.

Quando se reflete sobre o que "de fato" acontece na trama, percebemos que é pouco: trata-se de uma cidadezinha provinciana, de personagens comuns, medíocres (ainda que reais) e acontecimentos banais. E, no entanto, na ótica do narrador de Saer, eles ganham em estatura. Os personagens estão ligados a um movimento de vanguarda fictício, o precisionismo, pelo qual tentam fugir do provincianismo e alçar-se ao mundial. O movimento poderia ser descrito a partir do calor do momento, no qual os escritores sonhavam em mudar o mundo das letras latino-americanas, como Roberto Bolaño fez com o fictício real-visceralismo em Os Detetives Selvagens. No entanto, a visão do narrador é distanciada, então o passado ganha leveza e as brigas são atenuadas, como um velho que olha para o passado turbulento e não pode conter um sorriso. Deixando qualquer ironia pós-moderna de lado, Saer humaniza seus personagens e desvela o grandioso escondido nas suas mediocridades.

ANTÔNIO XERXENESKY É AUTOR DE AREIA NOS DENTES (ROCCO, 2010)

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