O exorcismo da libertinagem em Tolstoi

Sob os maus governos - lê-se numa ressalva ao primeiro livro de O Contrato Social, de J.J. Rousseau -, a igualdade (moral e legítima) entre os homens é aparente e ilusória; ela serve apenas para manter o pobre em sua miséria e o rico em sua usurpação. Bem sabia disso Leon Tolstoi (l828-l910), que durante sua vida acompanhara cinco desses governos e um grande número de movimentos libertários na Rússia: o pós-dekabrista, o niilista, o populista, o anarquista, o terrorista e até o social-democrata, com seus membros reunidos em volta do jornal Iskra, desde l900.Entretanto, apesar de algumas idéias comuns, um grão-senhor como ele que olhava de esguelha para a intelligentsia de origem híbrida e que, fundamentalmente, era um autodidata, não iria se aproximar de nenhum desses grupos. Seus mestres haviam sido os clássicos, russos, franceses, alemães, ingleses e principalmente gregos, que aprendera sozinho a ler no original, mas também Confúcio, os clássicos chineses e os sutras indianos, conforme as referências que aparecem em um de seus diários, entre outros.O conhecimento existe em cada ser, é preciso simplesmente saber ouvir "a voz interior da consciência" sem se deixar desviar pelas sofisticações da civilização e pelos dogmas da religião teológica. O sentido da vida é a própria vida: a maior sabedoria é aceitar seu lugar e tirar dele o melhor partido possível. Essas são as idéias que desenvolveu em suas grandes e pequenas obras, tanto de ficção quanto de filosofia, de sociologia ou de arte.Temas prediletos - Tanto a metáfora quanto o paradoxo e a contradição são figuras que o instigam na procura da verdade, uma verdade muito pessoal e muito autêntica que resiste a tratamentos como este : "Gosto dos cínicos, quando são sinceros. Veja, ele diz ´A verdade não é necessária´ e isto é verdade, para que ele precisa da verdade? De qualquer maneira, vai morrer." A sombra da morte, detestada, mas inevitável, se projeta em muitos momentos de sua reflexão e orienta suas meditações em torno dos temas prediletos (o perdão universal, o cristianismo, e quiçá uma espécie de budismo em que pode ser encontrada a visão da moralidade enquanto arte de se adaptar ao "carma").Em sua literatura "didática" (como na diatribe O Que É a Religião, por exemplo), Tolstoi é explícito na proposta de um cristianismo purgado dos dogmas, dos rituais, da promessa de uma vida eterna, fundado na própria interpretação de O Sermão da Montanha, reduzido a quatro mandamentos: l) Não querer o mal; 2) Não cometer adultério; 3) Não dar falso testemunho; 4) Não resistir ao mal; e fundamentado em quatro crenças básicas: 1) Existe um Deus, origem de tudo; 2) Há uma parcela da origem divina no homem, que poderá variar conforme suas ações; 3) Para aumentá-la deve-se refrear as paixões e fazer crescer o amor dentro de si; 4) Para consegui-lo deve-se amar o próximo como a si mesmo.Ideal cristão - Em suas obras de ficção, ele se torna ainda mais essencial, até chegar àquele preceito que é o ideal do cristianismo: "Quem quiser vir a mim, que renuncie a tudo" (Mateus, XVI et. seq.; Marcos VIII et. seq.; Lucas IX et. seq.) . Contra o individualismo, foi pelo refreamento das paixões e pela abnegação de si próprio; contra o Estado, foi pela abolição dos privilégios de poucos e pela distribuição de terra aos camponeses; contra o militarismo, foi pela não resistência ao mal e pela objeção da consciência; contra a Igreja (que o excomungou em 1901), desfez dos dogmas e dos ritos. A favor de uma moralidade pessoal, foi pela voz interior da consciência e pela busca de uma felicidade ascética, enquanto atitude pessoal, independente de razões externas.Se nas obras teóricas as teses tolstoianas assumiam muitas vezes um caráter contraditório, que só resgatava sua organicidade quando visto à luz da biografia e da bibliografia do "grande velho", nas obras literárias a "tese" a ser provada, por mais estranha que pudesse parecer (como no caso, por exemplo, de Sonata a Kreutzer, em que é proposto o abandono do amor sexual), vinha mediada magistralmente pelo estilo que conseguia envolver o leitor a ponto de convencê-lo de suas razões.Na obra literária, segundo Tolstoi, instinto e razão são unidos pela idéia, demonstrada passo a passo por gradação, contraste, paralelismo, estranhamento, subliminaridade e qualquer outro tipo de procedimento de que se vale a arte para juntar as partes e permitir a comunicação (comunhão) entre os seres. É isso que se nota nos contos de O Diabo e Outras Histórias (Cosac & Naify Edições, 284 págs., R$ 35), cuidadosamente traduzidos do original russo por um grupo de ex-alunos da USP, sob a supervisão de Paulo Bezerra, que também responde pela seleção e pela apresentação.Paralelismo - Nos primeiros dois, Três Mortes (l858) e Kholstomer (l860), encontramos o uso freqüente e peculiar que Tolstoi faz do estranhamento e do paralelismo, analisados argutamente no ensaio de V. Chklovski, no fim do volume. No primeiro, a árvore que morre sob os golpes do machado - paralelamente a uma dama de feições ainda belas e esguias que não quer morrer, e a um cocheiro que só tem as botas para dar em troca de uma campa - adquire características humanas: "estremeceu por inteiro, inclinou-se e aprumou-se rapidamente, vacilando assustada sobre sua raiz."No segundo, que é a história de um cavalo malhado, cuja personificação é tão intensa que chega a falar em primeira pessoa, sua morte não só é concomitante à do dono que amara, Nikita Sierpukhovskoi, mas a comunhão é reversível; este passa a ser descrito com características animais: "Depois de muito andar pelo mundo, comer e beber, o corpo morto de Sierpukhovskoi foi recolhido à terra. Nem a pele, nem a carne, nem os ossos serviram para nada." As idéias, como as que pensa o cavalo em Kholstomer ("as pessoas não aspiram a fazer na vida o que consideram bom, mas a chamar de ´minhas´ o maior número de coisas"), transformam-se em verdadeiras teses nos dois contos centrais, que são também os mais longos.Carma - O Diabo (l889) talvez encarne o mais pesado "carma" do homem Tolstoi (tanto o prefaciador, quanto Chklovski, na biografia citada, chamam a atenção sobre o caráter autobiográfico da história), que Tolstoi-escritor tenta inutilmente exorcizar: a libertinagem. Tanto aqui, como em Sonata a Kreutzer - um verdadeiro tratado sobre o que vem a ser um libertino -, só existe uma solução para a libertação desse terrível instinto que o hábito perpetuou e a fatalidade encarnou numa mulher: cortar o mal pela raiz, com variantes que podem incidir sobre a autora ou sobre o agente da sedução. O Falso Cupom (l904) é uma verdadeira novela, em que o elo de ligação dos episódios não é uma pessoa, mas uma espécie de letra falsificada que passa por diversas mãos disseminando o mal, em seu percurso de enganação. No movimento inverso, o da reparação, empreendido pelos mesmos personagens que haviam contribuído para pôr em circulação a letra falsa e por outras por elas "contagiadas", ouve-se de forma complexa e variada a "voz interior da consciência" e o perdão, a generosidade, mas principalmente a revelação mística transformam seres desprezíveis em indivíduos bons, iluminados, quando não ascetas.Ambivalência idílica - Se em O Diabo o que preenchia os espaços entre os acontecimentos era a dramatização da psicologia das relações entre os sexos, aqui é o esquema (motivado, diria Chklovski) das peripécias que tira o fôlego ao leitor, tanto que - conforme somos informados no fim do livro - Falso Cupom inspirou o famoso roteiro de L´Argent, de Robert Bresson. Quanto ao último conto, Depois do Baile (l903), é um hino à não-violência, e por sua delicadeza de tons ao descrever uma ambiência idílica enquanto se constata a selvageria das instituições, lembra sim Chekhov, mas um Chekhov que, embora já distante de muitos dos princípios propostos por Tolstoi, ainda reconhecia sua influência "em se expressar com tanto bom senso, e com certeza, com uma espécie de hipnotismo".*A autora é professora de pós-graduação em Literatura Russa na USP

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