O exílio produtivo dos Stones

Documentário e CD trazem de volta o polêmico Exile on Main Street, que os Stones fizeram em 1969, na França, para fugir do fisco inglês

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

Nada mais oportuno e óbvio para o recurso da nostalgia do que a sensação de apatia diante das novidades. Da geração MTV pra cá, qualquer bijuteria enferrujada com mais de 20 anos (tipo Skid Row, Guns"N"Roses, Supertramp) vem ganhando status de clássico do rock. Por outros motivos alheios à carência de boas ofertas, fato parecido ocorreu com o álbum Exile on Main Street, que os Rolling Stones gravaram de modo nada ortodoxo no sul da França, em 1971, e lançaram no ano seguinte.

Desdenhado por Mick Jagger na época, o álbum duplo (único da banda nesse formato até então - depois vieram outros, mas foram meros registros de shows ou compilações), Exile ganhou tratamento semelhante da imprensa especializada. Lembra Alan Clayson no ótimo livro Rolling Stones Gravações Comentadas & Discografia Completa (Larousse Brasil, 470 págs., R$ 59,90) que o disco - ao lado de Sgt. Pepper"s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e Pet Sounds, dos Beach Boys - de repente passou a figurar no topo das pesquisas de "Cem Maiores Álbuns", mas que "certamente não foi considerado o clássico que os jornalistas de hoje o consideram".

Exile sai agora em versão turbinada, em CD duplo (pela Universal) e o chamariz de dez faixas inéditas. Nos Estados Unidos há também a opção do luxuoso (portanto, caro) box para colecionadores com dois CDs, um DVD, dois LPs e um libreto recheado de fotos raras. A reedição coincide com o lançamento do bom documentário Stones in Exile, realizado por Stephen Kijak, sobre os bastidores das gravações do disco na Riviera Francesa.

Raridade. O filme inclui imagens raras que sobraram do documentário Cocksucker Blues, de Robert Frank, nunca lançado oficialmente por decisão judicial movida pela própria banda, protagonista de muitas cenas comprometedoras. Stones in Exile sai em DVD no Brasil no dia 30 de junho, pela Eagle Vison/ST2 Video, mas antes terá exibição exclusiva no País pelo canal a cabo Multishow no dia 4, às 23 horas.

Nesta semana Mick Jagger voltou à Cote d"Azur para a exibição do documentário no festival de Cannes e causou rebuliço entre o público e a imprensa. Um de seus comentários: "Éramos jovens, bonitos e estúpidos. Agora somos só estúpidos".

O documentário tem depoimentos dos integrantes dos Stones - além de Jagger, Charlie Watts, Keith Richards, Bill Wyman e Mick Taylor -, Don Was, Jack White, will.I.am (do Black Eyed Peas), Sheryl Crow, Caleb Followill (Kings of Leon) e Benicio del Toro, entre outros, que situam a importância do álbum no tempo.

"Eles quase implodiram de certa maneira. Não podiam voltar para casa e acho que essa música reflete isso", diz Martin Scorsese, que realizou outro documentário sobre os Stones, Shine a Light, de 2008.

Como Sheryl Crow, qualquer stonemaníaco conhece o folclore por trás da gravação do disco. A história, aliás, foi muito bem esmiuçada pelo jornalista Robert Greenfield no livro Uma Temporada no Inferno Com os Rolling Stones - Exile on Main St. (Jorge Zahar Editor, 236 páginas, R$ 39,90). O filme fica aquém em termos de revelações comprometedoras, mas é compensado com raras imagens do período, não só em filme como nas fotos antológicas de Dominique Tarlé, que também depõe sobre o tempo em que ficou a banda.

Dívida. Voltando aos fatos históricos: os Stones tiveram de se exilar na França em 1969 para fugir do fisco inglês. Eles deviam tanto em impostos que o que ganhavam não seria suficiente para pagar a dívida. Porém, mal chegando à mansão alugada por Richards, Watts resolveu comprar uma lancha para passear no belo lago em frente à casa. "Vamos esbanjar, posso estar preso no ano que vem. Vamos nos divertir enquanto estou livre", diz no filme.

Os Stones passaram a viver em comunidade, misturando as atividades profissionais com a vida familiar, envolvendo a convivência das crianças, promiscuidade sexual, muito barulho até altas horas e consumo de drogas, o que chamou a atenção da polícia. As gravações foram realizadas no porão da casa, de aparência nada agradável, como se vê no filme e no encarte do CD.

A verdade é que Richards estava cada vez mais doido de heroína, enquanto Jagger rompia o casamento com Bianca, fatos que provocaram diversas interrupções nas gravações. É curioso observar que tudo isso aconteceu quando os Stones, a banda mais duradoura do planeta, tinham apenas de 7 para 8 anos de carreira discográfica e - logo depois da separação dos Beatles - eles eram os reis absolutos do rock.

Faixas extras. Na época, Jagger achava que quando se grava um álbum duplo, sempre entram canções que poderiam ficar de fora e que faltava foco ao disco. A relação com Richards que já não era das melhores ficou mais tensa depois dessa declaração. Agora, contrariando seus princípios, a nova edição ganha dez faixas extras, oito inéditas (que são meras curiosidades e foram retrabalhadas para esta edição) e dois takes alternativos: de Soul Survivor e Loving Cup.

Sucessor do bombástico Sticky Fingers (1971), Exile acabou ficando mais com a cara de Richards do que de Jagger. As atenções do guitarrista - que incluiu no repertório duas raridades de bluesmen americanos, Shake Your Hips, de Slim Harpo, e Stop Breaking Down, do mítico Robert Johnson - , estavam mais voltadas para o blues e o country, mas o vocalista, além desses gêneros clássicos, também manifestava interesse pelo pop mais destinado ao entretenimento.

No filme, em entrevista na época ele revela predileção pelo lado B do disco 1, acústico, que abre com o belo country-folk Sweet Virginia. Os maiores hits do disco foram Happy, Shine a Light e Tumbling Dice, que desafiam o tempo e fazem jus ao mito.

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