O exemplo vem de cima

Nas democracias, vem de todos os lados. Sobretudo da opinião pública: ou seja, 'de baixo'!

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

28 Março 2018 | 02h00

Temos nos confrontado com esse axioma moral ou ético quando o Brasil desaba e descobrimos que assassinos são mais eficientes do que a polícia e que os “de cima” nos roubam em nome dos “de baixo” cujas vidas seus governos vilmente traíram. Nossos conflitos não são resolvidos. Pelo contrário, são pautados por denúncias e indecisões jurídicas. Vivemos tempos nos quais os “de cima” têm sido modelos de vergonha, hipocrisia, traição dos ideais socialistas e de valores republicanos.

Tempos de roubalheira como projeto político nos quais ministros, senadores, presidentes de partidos do povo, diretores de estatais e outros “altos” funcionários públicos se locupletaram debaixo do domínio, direção ou influência de um ex-presidente e de um ex-governador, julgados e condenados, respectivamente, a 12 e a um século de prisão!

Nossa impotência diante da criminalidade constitutiva da nossa alma política é um parte crítica desse cataclismo moral. De fato, como uma justiça destinada aos de baixo vai dar o exemplo enjaulando os de cima?

Nossas carteiras de identidade ideológicas foram batidas. E por isso quanto mais tontos com os labirintos legais, mais invocamos nosso labirinto legal. E aí surge um outro paradoxo: pois a lei é clara, mas o problema jaz na sua complexa aplicação e, muito especialmente, em quem ela se aplica, pois, com a devida vênia, praticamente toda a elite política tem o “rabo preso” num sistema onde “fazer política” é enredar-se.

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O exemplo vem de cima, mas e se o crime é cometido pelos que estão em cima?

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Quando menino, aprendi que deveria ser sincero e dizer a verdade. Mentir levava à hipocrisia, essa palavra complicada que é, porém, parte constitutiva do universo humano. Sem mentira, hipocrisia e pusilanimidade, sistemas políticos inteiros se desmanchariam do mesmo modo que a verdade dita cara a cara transforma-se em “franqueza rude”, como dizia contraditoriamente minha mãe. Recebi lições de sinceridade, tentando discernir quando o verossímil - vejam a rotação lógica - não seria rude.

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- Você gostou do bolo?

- O que acha do meu penteado?

- Como estou?

- Devo dizer o que realmente penso?

- De que lado fico quando o meu cargo (que é público) entra em conflito com o meu interesse de enriquecer a mim, ao meu partido e aos meus?

Cada uma dessas perguntas explicitam respostas diversas.

Em relação a mamãe, ele própria, me orientou enfaticamente para sempre dizer um sonoro “sim”, mesmo que o bolo fosse uma merda. Não tive dificuldade em seguir essa exemplo, embora tivesse problemas quando a mãe do Valtinho repetia a fatia do bolo e eu pagava pela minha polida insinceridade sendo “bem-educado”. 

Em matéria de comida, somos sempre honestamente insinceros. O mesmo ocorre em matéria de religião e de aparência - donde o nosso preconceito reprimido, o qual só se liberta em surtos ou desabafos. Quanto mais colocamos o reprimido dentro da cartilha do “medalhão” talhado por Machado de Assis, mais neurótico é o surto...

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Mas apesar dessa ambiguidade do mentir falando a verdade e do jamais dizer o que se pensa, somos sinceros.

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“Catarina parece uma índia!” Exclamei na mesa de almoço depois de apreciar com precoce curiosidade etnológica uma amiga da família.

Ao sairmos da mesa, papai e mamãe, visivelmente perturbados, ralharam comigo no corredor na única admoestação que recebi em conjunto em toda a minha vida. Jamais, repetiam transtornados esses amazonenses brasileiros sem preconceitos, chame alguém de “índio”. Principalmente se esse alguém for amigo e, como era o caso, for parecido com um índio, completei revelando a ironia da situação.

Puseram-me de castigo até que, mais velho, fui aprender que no Brasil a gente, na dúvida, deveria mentir. Era um direito no nosso Direito...

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Como ser sincero se a insinceridade é a verdade, sobretudo no mundo público no qual a melhor decisão é decidir não decidir. Numa interpretação que fiz do personagem dona Flor, essa heroína de Jorge amada tão onipresente na nossa literatura quanto a Capitu de Machado de Assis, assinalei que dona Flor preferiu escolher não escolher entre Vadinho (o marido morto que lhe provocava como espírito) e o Dr. Teodoro, o regular farmacêutico que jamais praticara uma malandragem. É que ela precisava da ambiguidade malandra de Vadinho para contrabalançar a sensatez sem fantasia do farmacêutico. Entre mortificar-se na cruz do certo ou do errado, da disciplina ou do excesso; entre matar-se como fazem as heroínas do romance europeu tradicional, a carioca Capitu, que viveu num Rio de Janeiro sem internet, sem telefones celulares sem Sérgio Cabral Filho, preferiu ficar com os dois!

Tal como a nossa ordem jurídica cujo lado luso, hoje - espero - em revisão revolucionária, prevê recursos, infinitas instâncias e prescrições. Enfim, uma cultura ou ontologia do perdão incomparável, embora misericordioso, com um universo político igualitário e republicano.

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Tudo isso revela como o plano pessoal canibaliza a esfera impessoal ou pública, reiterando uma matriz hierárquica. Porque é nas aristocracias que o “exemplo vem de cima”. Nas democracias, eis o susto, ele vem de todos os lados. Sobretudo da opinião pública: ou seja, “de baixo”! De “qualquer um”...

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