Evelson de Freitas/ Estadão
Evelson de Freitas/ Estadão

O excesso na pintura e a pintura do excesso

Beatriz Milhazes e Ana Elisa Egreja fazem da cor um manifesto estético

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2013 | 02h22

Beatriz Milhazes surpreende em sua exposição O Círculo e Seus Amigos, aberta ontem, no Galpão da Galeria Fortes Vilaça. Pintora brasileira viva mais cara do mercado, era natural que ela só apresentasse telas de grandes dimensões entre os nove trabalhos da mostra. Afinal, sua pintura O Casamento, de 1995, embora longe de seu recorde, foi vendida no dia 19 pela Christie's de Nova York por mais de US$ 1 milhão. Os galeristas que a representam pelo mundo (Stephen Friedman em Londres, Max Hetzler em Berlim) devem esperar que, entre as oito telas que ela pinta por ano, todas sejam de grande formato. Pois na exposição da Fortes Vilaça a artista apresenta trabalhos de pequeno formato (ao lado de uma tela gigantesca), voltando ao ponto de partida de 30 anos atrás. Não por nostalgia, mas como auto desafio.

Já na exposição Meu Bem, que Beatriz fez em agosto no Paço Imperial do Rio de Janeiro com curadoria de Frédéric Paul - e que seguiu esta semana para o Museu Oscar Niemeyer de Curitiba -, telas mais recentes recorriam ao vinil aplicado na arquitetura. Ela, que não costuma desenhar nem fazer projetos prévios para a pintura, explora agora essa construção racional em obras de explícito tributo à op art. Em Folha de Figo, acrílica sobre tela deste ano, é possível, segundo a própria artista, identificar nas faixas horizontais referências ao cinético venezuleano Cruz-Diez, à escala tonal dos paralelogramos da inglesa Bridget Riley, um dos expoentes da op art, e ao orfismo de cores robustas da francesa (de origem russa) Sonia Delaunay.

Os críticos estrangeiros certamente não desprezam essas referências, mas é uma outra história considerar o papel da arte popular brasileira, do carnaval e dos excessos cromáticos do país como componentes dessa pintura. Beatriz evoca o nome de Tarsila como referência inicial dessa busca por uma cor local, mas é possível lembrar exemplos anteriores ao modernismo que tentaram levar para a tela essa folia cromática tropical (ou tropicalista). Na Europa, como dizia o novecentista João Thimóteo da Costa, pode-se pintar o sol. Aqui, isso não passa de um mito. Em outras palavras: o excesso de luz nos trópicos prejudica a pintura e os pintores, que ficam cegos diante dela (e Reverón é o exemplo mais gritante).

A solução é criar uma paleta totalmente artificial - e isso fica patente tanto na pintura de Beatriz Milhazes como da jovem e talentosa Ana Elisa Egreja. Beatriz trocou as rendas e sianinhas do começo de carreira, mas não se livrou da carga do tropicalismo. O curador da mostra Meu Bem, Frédéric Paul, traça uma analogia entre as árvores que podem frutificar o ano inteiro no clima tropical e os quadros e colagens de Beatriz.

Essa imagem de crescimento ininterrupto, ele associa à sobreposição de cores e formas no mundo floral da pintora - que, afinal, nem é tão floral assim, uma vez que ele e ela enxergam nesse motivo apenas um pretexto para a pintura. Frédéric Paul acha que Beatriz se vê como uma pintora abstrata. "Não há como discutir esse fato, posso apenas sustentá-lo", admite o curador no texto de apresentação de Meu Bem. Em outras palavras: o excesso, de cores e formas, tanto em Beatriz como em Ana Elisa, ainda vai levar ambas ao território da abstração. De fato.

Beatriz, que não faz uma individual em sua galeria paulistana há seis anos, confirma: não pinta a partir do modelo natural, nem mesmo quando fez as flores que traduzem as quatro estações nos trópicos (série encomendada pela Fundação Swiss Beyeler e exposta no ano passado no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian). Aliás, essa estações são todas parecidas porque a mudança é imperceptível no Brasil - o inverno só é reconhecido por ser a tela menor da série.

"Esse tema é recorrente na história da arte, mas descobri com essa série que o que caracteriza meu trabalho é a liberdade de juntar conceitos e abolir a fronteira entre gesto e geometria, abstração e figuração."

BEATRIZ MILHAZES

Galpão Fortes Vilaça. Rua James Holland, 71, tel. 3392-3942.

3ª a 6ª, 10 h/19 h; sáb., 10 h/18 h. Grátis. Até 24/1.

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