O eterno guru

É tempo de lembrar John Cage, o genial criador que chacoalhou as certezas da própria música

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2012 | 03h10

Abram olhos e ouvidos. Preparem-se para uma temporada de celebração do novo. Um ano dedicado à interpenetração entre as artes, da música à pintura, da escultura à arquitetura, sem direito a limites e com direito ao acaso e à indeterminação. Afinal, a música contemporânea mudou seu DNA depois do furacão John Cage. Aos 20 anos de sua morte e a um século de seu nascimento, é incrível como sua figura não envelhece. Mal comparando, parece o personagem Benjamin Button, do conto de Scott Fitzgerald encarnado por Brad Pitt no cinema. Só que melhorado. Ele já surgiu novo, novíssimo - e parece cada vez mais atual. Por isso, esqueçam o mofo que em geral envolve as ditas efemérides. Cage não combina com isso. Pois, como escreve Augusto de Campos, um de seus fanáticos admiradores brasileiros, ele nos forneceu a vida inteira "um novo estoque de perguntas para nos abalar e rebelar".

A largada no Brasil será hoje, com a abertura da exposição Begin Anywhere: Um Século de John Cage, no MAM-Rio, com curadoria de Luiz Camillo Osorio e Vera Terra. A mostra põe lado a lado cinco partituras de Cage e nove obras do acervo do museu, assinadas por Josef Albers, Joseph Beuys, Jackson Pollock, Robert Rauschenberg, Wolf Vostell, Mira Schendel, Guilherme Vaz e Paulo Vivacqua.

No dia 12, haverá um concerto com obras ainda não definidas. "Sua arte experimental marcou o século em que viveu. Cage promoveu o diálogo entre categorias, dissolveu hierarquias. Trouxe o zen para a arte do Ocidente, antecipou o DJ com suas obras para rádio, aproximou as diferentes linguagens artísticas. Foi e continua sendo vanguarda", afirmam os curadores.

De fato, um museu pode ser o local mais adequado para este start. Rechaçado nas salas convencionais de concerto, Cage buscou espaços alternativos, como museus; encontrou parceiros memoráveis nas demais artes, como o coreógrafo Merce Cunningham; foi amigo, influenciou e foi decisivamente influenciado pelos pintores Robert Rauschenberg e Jasper Johns. Reinventou instrumentos como o piano, modificando radicalmente sua sonoridade (o "piano preparado", com parafusos, borrachas e outros objetos colocados entre as cordas).

Sempre surpreendente, era especialista em cogumelos e venceu um concurso na TV italiana respondendo sobre o tema. Interessou-se ainda pela cultura oriental, utilizando o I Ching em suas criações musicais. Incorporou o acaso e a indeterminação em suas composições (influenciando Stockhausen e Boulez).

Fez até não música, com sua célebre peça 4'33". Ela estreou em 29 de agosto de 1952 em recital de David Tudor no Maverick Concert Hall, nas montanhas Catskill, ao sul de Woodstock, onde reinaram, 17 anos depois, Janis Joplin e Jimi Hendrix. Tudor sentou-se ao piano, fechou a tampa e olhou para o cronômetro. Não fez nenhum barulho. Logo o silêncio deu lugar a ruídos de todo tipo: gente reclamando, saindo, tossindo. No final, em meio à saraivada de gritos e xingamentos, um cidadão gritou: "Aí, gente boa de Woodstock, vamos botar esta turma pra correr da cidade?"

Abre-te Sésamo. A pintura expressionista foi para ele um abre-se sésamo. Ele mesmo conta, no livro De Segunda a Um Ano: "A apreciação de uma pintura moderna conduz a atenção da gente não para um centro de interesse, mas para toda a tela e sem seguir nenhum caminho particular. Qualquer ponto da tela pode ser tomado como início, continuação ou fim." Nos anos 40, saindo de uma exposição na Willard Gallery, esperava o ônibus na Madison Avenue, em Nova York. "Olhei para o chão e percebi que a experiência de contemplar o chão era a mesma que tivera com os quadros de Mark Tobey." Ali aconteceu o insight: "Se falarmos de música, isso quer dizer uma obra sem começo, meio e fim nem nenhum centro de interesse."

O grupo de percussão de Cage participou em seguida de um concerto no MoMA. O crítico Virgil Thomson, que o apoiou desde o início, deixou escapar preconceito ao comentar com ele outra estreia, em 1951, de sua Imaginary Landscape n.º 4, para 12 rádios: "Você não pode fazer esse tipo de coisa e esperar que as pessoas paguem para ouvi-lo."

Nessas dicas aos compositores estão seus eixos criativos: eles devem liberar sua música de um único clímax dominante; procurar a interpenetração e a não obstrução de sons; renunciar à harmonia e seus efeitos de fundir os sons num relacionamento fixo. Em suma, "a música não é interrompida pelos sons do ambiente, o que ela confirma incluindo silêncios em seu trabalho ou dando à sua continuidade a própria natureza do silêncio (ausência de intenção)".

Nenhum outro criador influenciou mais as artes. No Brasil, praticamente todos os compositores do pós-guerra para cá são, em maior ou menor grau, "filhos" de Cage. Mesmo os que não gostam dele. Na poesia, foi guru dos concretistas. No livro De Segunda a Um Ano (edição brasileira da Hucitec, 1985), em tradução de Rogério Duprat, Augusto de Campos começa seu prefácio assim: "Depois que Pound morreu/o maior poeta vivo americano/talvez o maior poeta vivo/é um músico/John Cage." Cage, na verdade, não quer nos dar respostas, mas chacoalhar nossas certezas.

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