Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE

O eterno e o moderno

No CD Água, a voz de Paula Morelenbaum encontra o piano de João Donato

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2010 | 00h00

Toda vez que termina uma gravação, João Donato grita de seu piano: "Água!" Não é sede nem é para fazer sentido - ele só está sinalizando que a faixa chegou ao fim. Quem já foi para o estúdio com o músico acha graça. Em maio passado, Paula Morelenbaum foi, e, na hora de dar nome ao CD que saía dali, inteiramente com o repertório de Donato, não pensou em outra palavra.

Sabe CD para se ouvir na função repeat? Água, que está sendo lançado pela Biscoito Fino e Mirante/Acre, tem 12 das mais belas composições do manancial do gigante que o Acre deu ao mundo, na voz, cada vez melhor, da cantora carioca, como Lugar Comum (letra de Gilberto Gil), A Rã (com Caetano Veloso), Ahiê (Paulo Cesar Pinheiro), Mentiras (com o irmão, Lysias Ênio, o principal parceiro).

Com este trabalho, Paula inscreve seu nome no rol dos grandes intérpretes de Donato, galeria onde já estão o próprio Gil (A Paz), Gal Costa (Flor de Maracujá), Nana Caymmi (Até Quem Sabe), e Ângela Rô Rô (Simples Carinho).

As duas primeiras foram pescadas por Paula para seu novo projeto-tributo - antes de Donato, ela já havia recheado discos com canções de Tom Jobim, com quem cantou por dez anos, e Vinicius de Moraes. A diferença é que desta vez o autor, que completou 76 anos mês passado, está bem vivo, e participa tocando, cantando e ensinando.

"Comecei a pesquisar no ano passado, Donato foi me dando músicas, e passei a colecionar. Ele é um compositor e músico fenomenal. Ih, olha a rasgação de seda!", brinca Paula, do lado de Donato, a quem o próprio Tom chamava, no auge da bossa nova, de "seu professor".

A conversa a três foi na cinematográfica casa na Fonte da Saudade onde moram Paula, o marido, o violoncelista Jaques Morelenbaum (que também foi da banda de Tom), e a filha adolescente do casal, Dora, que, por sinal, canta e toca piano.

O instrumento, pouco usado por Paula e Jaques, acabou servindo de cenário para as fotos do encarte do CD, já que no dia marcado para a sessão fotográfica chovia muito, e não foi possível usar a bela vista do Hotel Fasano, em Ipanema, como estava programado. Chovia também no dia da entrevista, no início do mês. "Tá vendo, quem mandou chamar o disco de Água?", brincava Donato ao chegar.

Ele aprovou as misturas de programações e bateria eletrônica inseridas pelos vários arranjadores chamados por Paula: Jaques, Marcos Cunha, Leo Gandelman, Alex Moreira, Beto Villares, Kassin, o grupo BossaCucaNova e Donatinho, filho de Donato.

"Não tenho nada contra, só não pode ser mal utilizado", diz o compositor. "A tecnologia só veio a acrescentar. O novo é o que permanece, não é o que foi feito ontem. É aí que está a modernidade das coisas. Às vezes o mais novo é o mais antigo." Paula acrescenta: "O moderno é o eterno, é o que você sempre tem vontade de ouvir."

Água é o 50.º com o nome de João Donato na capa, e tem duas faixas resgatadas por Paula dos anos 60, período que ele passou na costa oeste dos Estados Unidos: Everyday (com Norman Gimbel) e Entre Amigos (com Mongo Santamaria).

Fórmula. "O compositor de uma música só", como observou o produtor Almir Chediak certa vez, ao organizar seu songbook, um dos responsáveis pela renovação da música brasileira na década de 50, com sua fusão de jazz e ritmos latinos, explica que tudo que cria segue uma fórmula, sim: música tem que fazer bem à alma, ao coração, aos ouvidos.

A definição, endossada por Paula, ele pegou emprestada de Maria Callas. "É como um bolo que você fez e deu certo. É a fórmula de Lugar Comum. Eu estava na beira do Rio Acre, com uns 5, 6 anos, e alguém passou assobiando. A melodia me emocionou de maneira diferente, e nunca esqueci. Aquilo me impressionou tanto que achei que era um modelo a ser repetido."

Hoje, Paula e João se apresentam no Teatro Tom Jobim, no Rio; amanhã, no Bourbon Street.

Áudio. Ouça trecho da faixa A Paz

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