O estranho mundo do cinema pornô

Logo na primeira linha da introdução que escreveu para seu livro Nas Redes do Sexo - Os Bastidores do Pornô Brasileiro, a antropóloga colombiana María Elvira Díaz-Benítez revela um dado impactante: enquanto Hollywood produz cerca de 400 filmes por ano - pouco mais de um por dia -, a indústria pornográfica norte-americana lança entre 10.000 e 11.000 - pouco mais de um por hora.

Eric Nepomuceno ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2010 | 00h00

O volume de dólares que é gerado nos Estados Unidos pela indústria pornográfica - revistas, televisão a cabo, instrumentos sexuais, a internet, além dos filmes, é claro - supera tudo que é alcançado pelo futebol americano, o beisebol e o basquete juntos. Convém recordar que esses três esportes são absolutamente populares entre os norte-americanos, atraem dezenas de milhões de seguidores e movimentam imensas quantidades de dinheiro.

No Brasil, as quantidades são evidentemente menores, mas bastante significativas. Em 2003, a Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico (sim, existe uma) contabilizou um movimento de cerca de R$ 700 milhões, muito mais que o cinema convencional produzido no País. Hoje em dia, calcula-se que o lucro de quem se dedica a produtos pornográficos nos Estados Unidos ronde a casa dos US$ 10 bilhões. Aqui no Brasil, é da ordem dos R$ 620 milhões.

Isso demonstra que existe um público que consome avidamente esses produtos. Portanto, é preciso produzir para satisfazer essa demanda. Como é feita essa produção? Quem são seus protagonistas? Como são eles em seu cotidiano, fora do trabalho?

De agosto de 2006 a dezembro de 2007, María Elvira Díaz-Benítez conviveu com atores, atrizes, produtores, diretores, fotógrafos, agentes e toda a equipe técnica que cerca as rodagens de filmes pornôs em São Paulo, principal polo dessa indústria peculiar. Viu de tudo, passou por situações constrangedoras - umas menos, outras mais -, e traçou um retrato, rico em detalhes, desse estranho (ou nem tanto) mundo.

O trabalho foi sua defesa de tese de doutorado. Transformado em livro, chega aos leitores escrito numa linguagem acessível - apesar dos inevitáveis e maçantes trejeitos do idioma acadêmico. Ao longo de longos trechos Nas Redes do Sexo pode ser lido como uma bem elaborada e esclarecedora reportagem. Revela uma rotina inesperada, com circunstâncias insólitas - algumas, intimidantes - enfrentadas com absoluta naturalidade, mostra quais são os códigos de condutas, as regras éticas e morais de um mundo cujo cotidiano pode ser - e muitas vezes é - controvertido e polêmico.

A autora descreve as linhas básicas desse tipo de filme, da seleção de elenco às posições, coreografias e linhas de interpretação de atores e atrizes, passando por agruras e queixas que em tudo são idênticas às do cinema brasileiro em geral. Um ator, por exemplo, se lamuria da falta de reconhecimento: "Eu era bom, todos os diretores diziam que eu era um dos melhores do Brasil... Se fosse na Europa ou nos Estados Unidos, com certeza seria mais bem-tratado."

"Falta de apoio." Também menciona o caso de "uma menina" que ganhou o troféu de melhor atriz pornô latina, e não pôde ir pegar pessoalmente seu prêmio, "representando o pornô brasileiro", por "falta de apoio". Com a mesma naturalidade, diretores reclamam dos orçamentos baixos e dos distribuidores sempre gananciosos - tudo, enfim, como se estivessem falando de filmes convencionais.

Não é preciso ser adepto ou consumidor de filmes pornôs para ter em Nas Redes do Sexo um livro de leitura instigante. Basta ter interesse por todas as facetas, inclusive as mais estranhas e assustadoras, do ser humano. Esse universo único, entrelaçado em várias redes que se vinculam e interligam, tem muitas vertentes que são, em última instância, reflexos levemente enevoados desse mundo do lado de cá, onde circulamos com a sensação concreta de estarmos pisando um chão de normalidade. Será?

ERIC NEPOMUCENO, ESCRITOR E TRADUTOR, É AUTOR, ENTRE OUTROS, DE MASSACRE (PLANETA, 2007) E

ANTOLOGIA PESSOAL (RECORD, 2008)

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