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O estranho mundo de Tim Burton

Mostra da Cinemateca Francesa traz relíquias e transporta fã para a atmosfera dos filmes do diretor

FLAVIA GUERRA / PARIS, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h11

Como funciona a cabeça de um dos mais bizarros e inventivos diretores do cinema mundial? Que espécie de fascínio pelo mundo estranho faz com que Tim Burton nutra, desde pequeno, amor incondicional pelos personagens desajustados e sombrios? É exatamente para descobrir e transportar o espectador para dentro do universo burtoniano que a exposição Tim Burton foi criada. Em cartaz na Cinemateca Francesa até dia 5 de agosto, depois de passar pelo MoMA, por Melbourne, Toronto e Los Angeles, a mostra é muito mais que uma exibição de croquis, desenhos, maquetes, bonecos, fotos, figurinos, robôs e figurinos dos projetos que fizeram de Burton um diretor único.

Começando num cenário sombrio, com retratos de bebês com pregos e musas costuradas que remetem às criaturas de O Estranho Mundo de Jack (1993), a exposição segue por uma sala pouco iluminada na qual seres fluorescentes brilham no escuro. Uma parede com peixes macabros, um carrossel surreal, que gira e toca uma música que remete aos filmes de Vincent Price (ídolo mor do diretor), dão a ideia de que se está entrando em um (sub)mundo de ideias nada convencionais.

Burton preparou o carrossel especialmente para a mostra, a primeira em sua homenagem na Europa, e disse ter se inspirado nos seres do fundo do mar. Foi também nos seres do fundo dos contos de fadas que o diretor criou personagens hoje ícones, como Jack (de O Estranho Mundo de Jack), Edward Mãos de Tesoura, a Noiva Cadáver, Beetlejuice (de Os Fantasmas se Divertem) e Frankenweenie. Destaque para este último. Criado em 1984, quando Burton já havia se formado na CalArts (uma das mais prestigiosas escolas de animação dos EUA) e já era um estranho, mas competente, funcionário dos Disney Studios, Burton criou Frankenweenie, que conta a história de um menino que ressuscita seu cãozinho.

Uma nova adaptação da história será lançada em outubro. O filme terá a mesma trama inicial, só que a história se passa em um país europeu imaginário (New Holland) e não num subúrbio americano. A estética em branco e preto, inspirada no expressionismo alemão, calcada em bonecos de massa e, claro, muita sombra, vai se manter e continuar fiel ao original. Na exposição, aliás, é possível não só conferir os primeiros rascunhos do personagem como também trechos do filme.

Se os mais antigos amigos estão ali, os croquis e o vestido usado por Eva Green em Sombras da Noite também podem ser conferidos no evento. A novidade vem só no fim do percurso, mas resume muito bem a trajetória desse garoto estranho de Burbank, Califórnia, que nunca se ajustou muito à aparentemente pacata vida interiorana da América profunda. Se Burton afirmou ao Estado que assistia na TV ao seriado Sombras da Noite, não se pode esquecer também que sempre foi fã de Vincent Price, dos contos góticos, e que aos 3 anos já assistia a Frankenstein de James Whale. Não é por acaso que o primeiro curta do diretor, realizado quando ele ainda era funcionário da Disney, se chama Vincent e foi narrado por Price. "É uma homenagem ao meu mestre", contou.

Há que se admitir que o ponto forte da mostra é fruto da pesquisa detalhada realizada pela equipe curadora. Foi graças à busca em gavetas, caixas de arquivo e até nas escolas pelas quais Burton passou que os desenhos, rascunhos, bonecos e esquetes fazem com que a mostra revele o talento múltiplo e o processo criativo do diretor. E, como o evento é da Cinemateca, uma retrospectiva completa dos filmes de Burton não poderia faltar. O diferencial 'em movimento' chega em versão online no site da instituição (www.cinemateque.fr), no qual é possível assistir a vídeos, baixar cartazes e conferir os principais desenhos.

Mais que programa de fã, é oportunidade para entender que por trás dos traços que criam personagens cômicos e ao mesmo tempo sombrios, está uma sólida inspiração em referências do gótico, do expressionismo alemão, Christopher Lee, Vincent Price e Edgar Allan Poe, entre outros.

Mas tudo isso se esquece ao se avistar os olhos esbugalhados da romântica Noiva Cadáver. Em sua busca por um noivo, ela se esquece de um pequeno detalhe: está morta. É desse choque de mundos que Burton extrai a força de seus argumentos. "Sempre me interessei por personagens que não tinham consciência de sua estranheza. Que queriam uma vida normal, mas são anormais. E, se pensarmos bem, todos temos nossas deformações."

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