O estranho mundo de Thelonious Monk

- Qual das suas composições o senhor considera a melhor?

João Marcos Coelho / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

- Não sei.

- Qual gosta mais de tocar?

- Todas.

Decepcionado, o entrevistador francês olha fixo para a câmera e diz, como se tivesse entrevistado um jumento: "Ele não sabe qual a melhor nem a que mais gosta de tocar." A entrevista foi gravada nos anos 60, em Paris, e mostra o pianista e compositor norte-americano Thelonious Sphere Monk (1917-1982) numa das piores performances de sua carreira.

Seu negócio não era falar, mas tocar. Ele, aliás, não falava nem com seus músicos. O baterista Bem Riley, por exemplo, tocou seis semanas com Monk - não trocaram nenhuma palavra.

Na manhã seguinte, alguém telefonou pedindo-lhe que fosse para o estúdio da Columbia. "Cheguei lá, ele continuou me ignorando. Gravamos a manhã inteira; no final me perguntou se precisava de dinheiro. Vou esperar o cheque, disse. Monk respondeu: "Quem toca no meu grupo não fica sem dinheiro." Naquele momento fiquei sabendo que fazia parte do grupo."

O DVD Thelonious Monk - American Composer, da série Masters of American Music, está sendo lançado agora no mercado brasileiro junto com outros três títulos pela Music Brokers, a excelente preço: o DVD, com um CD bônus, sai por R$ 56.

Produzido em 1991, parece mais equilibrado do que o célebre Straight no Chaser, documentário produzido por Clint Eastwood em 1989. Enquanto este acentua o lado lunático, esquisito e mentalmente desequilibrado do pianista, American Composer procura mostrá-lo como gênio da música, com a ajuda de preciosas entrevistas com o produtor Orrin Keepnews e os pianistas Barry Harris e Randy Weston - três monkianos de carteirinha que explicam em detalhe o estilo único deste pianista que foi acusado de não saber tocar piano, não ter nenhuma técnica, etc., etc. Nas entrevistas, Monk só dava corda às calúnias dizendo meio sério quando alguém gostava do que tocara: "Puxa, hoje não consegui encontrar os acordes errados no piano."

O fato é que quando surgiu na cena jazzística, na virada dos anos 30/40 em Nova York, com seu piano dissonante, feito de silêncios e melodias angulosas, fugindo do virtuosismo como o diabo da cruz, provocou um verdadeiro deus-nos-acuda. Ainda mais que a sua figura era no mínimo bizarra: gorros dos mais variados tipos, introvertido, roupas extravagantes; costumava até dançar no palco desajeitadamente enquanto parceiros improvisavam.

Os 57 minutos do documentário mostram a pobreza franciscana do principal templo do bebop, o mítico Minton"s, onde Monk foi rei nos anos 40. A partir da temporada no Five Spot Café nos anos 50, num quarteto de sonhos onde atuou ao lado do saxofonista John Coltrane, a maré mudou. Eleito sumo sacerdote do bebop, passou uma década incensado na Europa. Foi até capa da Time em 1964.

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