O estranho caso do senhor Stevenson

Nos 10 anos da coleção Prosa do Mundo, a Cosac Naify publica nova tradução de O Clube do Suicídio, que traz a história do médico e o monstro e inclui estudos de Henry James e Nabokov sobre o autor

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2011 | 00h00

O escritor escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894) gostava de clubes e mulheres casadas, dois caprichos perigosos - e parecidos - para um homem. Sócios de clubes tendem ao discricionário. Mulheres casadas, afinal, são como os clubes, ou seja, naturalmente controladoras, como acabou descobrindo o edipiano autor, fixado em senhoras mais velhas. Aos 23 anos, ele pertencia a um clube fechadíssimo chamado LJR (Liberdade, Justiça e Reverência), que tinha como primeiro mandamento exortar seus membros a desobedecer aos pais, o que invariavelmente levava seus membros à dissensão familiar, como acabou ocorrendo entre Stevenson e seu pai. Antes disso, o autor, que não mostrava grande entusiasmo pelo estudo de engenharia, ajudou a criar a Sociedade Especulativa, outro clube fechado em que seus integrantes discutiam temas contemporâneos - como as teorias de Darwin, a julgar pelas referências indiretas ao cientista em O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, um dos contos reunidos em O Clube do Suicídio, 25.º volume da Coleção Prosa do Mundo, que está completando dez anos (leia texto nesta página).

É possível, então, que Stevenson tenha conhecido, de verdade, um clube de candidatos ao suicídio como aquele descrito no conto de abertura do livro. Tipo excêntrico, de cabelos desalinhados e roupas propositalmente deselegantes, Stevenson devia sofrer daquilo que hoje os cientistas sociais chamam de dificuldade de integração ao próprio meio - e é tão flagrante sua necessidade de "pertencimento" que, não só por motivos de saúde, o escocês só foi encontrar sua turma nos antípodas de Vailima, Samoa, na Polinésia, onde morreu, aos 44 anos.

Stevenson, por um equívoco monstruoso, era visto em seu tempo como um autor de contos de horror e livros de aventura (é dele A Ilha do Tesouro, indicado para crianças por mera perversidade dos adultos). Foi preciso que um escritor respeitado como Henry James usasse seu discurso legitimador para dizer a seus contemporâneos que o homem era um gênio, um estilista "nada acidental ou acanhado", como escreve no texto que a Cosac Naify reproduz nas páginas finais de O Clube do Suicídio. James é seguido por outro ensaio igualmente arrebatador, assinado por Vladimir Nabokov - talvez o melhor estudo sobre a dualidade que marca a novela do doutor Jekyll e do senhor Hyde (e devemos considerar que gente de peso, como Jorge Luis Borges, escreveu sobre ele).

O Clube do Suicídio (1882), traduzido anteriormente como O Clube dos Suicidas, em 1933, por Godofredo Rangel, é extraído de um volume chamado New Arabian Nights. Como sugere o título, remete ao universo fantástico dos contos árabes. São, na verdade, três histórias interligadas, a de um generoso príncipe da Boêmia dado a aventuras, a de um jovem americano que encontra um morto na cama de seu hotel francês e a de um tenente selecionado para uma missão secreta, epílogo no qual se dá o confronto entre o príncipe Florizel e o presidente do clube. Destinado a facilitar o suicídio de seus membros - disfarçando-o em morte acidental, para não chocar os familiares e a sociedade -, o clube, aos olhos de Florizel, deve encerrar suas atividades. É contra seu perverso presidente que o príncipe se insurge e com o qual vai duelar no fim da história.

Também nos outros contos do livro - especialmente em Markheim e O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde - há um confronto entre o bem e o mal, por vezes tão amalgamados que a separação entre eles se torna uma tarefa quase impossível. Markheim (1885) explora a cabeça de um assassino que mata um antiquário no dia de Natal e recebe a visita do diabo, na melhor tradição dostoievskiana. O inferno, para Stevenson, ao contrário de Jean-Paul Sartre, não são os outros. Ele está no tormento interno do livre-arbítrio, na desesperança de seres socialmente proscritos, desprezados.

Markheim diz ao diabo que sua vida não passa de uma paródia, de um insulto contra ele mesmo. O demônio responde que os homens estão a seu serviço, espalhando o mal disfarçado em religião ou submetendo-se voluntariamente ao desejo. Markheim, certo de que está condenado a praticar o mal, vê, contudo, uma porta de emergência no inferno: pode deixar de agir e entregar-se à lei (com minúscula ou maiúscula). É possível perceber aí reminiscências dos pesadelos infantis de Stevenson, cuja babá calvinista o assustava com histórias de perdição e fogo infernal ao ler a Bíblia para o garoto, frequentemente acamado por sua saúde frágil. O escritor, além de tudo, tinha pais presbiterianos, mas abjurou sua educação cristã logo após anunciar ao patriarca, fabricante de faróis de orientação, que iria ser escritor, ao atingir a maioridade.

Não surpreende, portanto, a soma das contradições que rege a obra literária de Stevenson, o último dos românticos, segundo Otto Maria Carpeaux. O crítico Davi Arrigucci Jr., no texto de apresentação do livro da Cosac, lembra a tensão existente entre "o impulso romântico que nos arrasta e a disciplina clássica que nos freia", exigindo atenção concentrada em sua narrativa. De fato, muitas vezes o leitor fica dividido entre dois ou três narradores que dão suas respectivas versões da história (como a do aloprado Hawkins e a do equilibrado Livesey em A Ilha do Tesouro). Confuso, não é incomum que esse mesmo leitor siga o próprio caminho e entre num beco sem saída, como o de considerar a história do doutor Jekyll e a do senhor Hyde a de um médico que toma uma poção que o transforma de bom homem num abominável monstro. Isso só funciona nos filmes (há mais de um século suas obras são adaptadas para o cinema, desde que Griffith filmou O Clube do Suicídio, em 1909).

Nabokov abomina o que o cinema fez com a história do doutor Jekyll - e o livro teve dezenas de versões, dirigidas por nomes como Murnau e Jerry Lewis, passando por Mamoulian e Jean Renoir. "Por favor, trate completamente de esquecer, deslembrar, apagar, desaprender, jogar no lixo qualquer noção que você possa ter de que Jekyll e Hyde seja uma espécie de história ou filme de mistério e detetive", recomenda o autor de Lolita. Para ser uma história de detetive, teria de acumular defeitos. Se fosse uma parábola, revelaria extremo mau gosto por parte de seu autor. Jekyll e Hyde são o bem e o mal amalgamados na sociedade vitoriana, moralmente ambígua, religiosamente hipócrita, socialmente doente.

Escrita entre uma crise e outra de hemoptise (hemorragia no aparelho respiratório) de Stevenson, a história de Jekyll e Hyde não é só a do médico gorducho e bonachão que, ao tomar uma poção, se projeta num ser diabólico que pisoteia criancinhas. Primeiro, o russo renega estudos anteriores dos nomes (Jekyll sendo "eu mato" e Mr. Hyde o "senhor que se esconde"). Nabokov prefere associá-los à cultura escandinava: hide, em dinamarquês, é porto, refúgio, enquanto Jökule (Jekyll) significa pingente de gelo. Na verdade, argumenta Nabokov, existem três personalidades envolvidas na história: Jekyll, Hyde e o "resíduo" do doutor, quando Hyde assume o controle, virando uma mescla do bem e do mal.

Num lance ousado, Nabokov se apropria da tese do crítico Stephen Gwynn - que observou serem todos os personagens da história solteirões numa sociedade vitoriana (de Mr. Utteron ao mordomo do doutor) - e insinua ser o respeitável doutor Jekyll amante e protetor de Hyde, criatura do submundo. E vai mais longe: Hyde seria sádico, saindo à noite para cumprir o destino de um ser duplamente abominado numa Inglaterra patriarcal, em que a homossexualidade foi considerada crime até 1967, fazendo dos gays vítimas de chantagistas e policiais corruptos. A incursão no mal, defende Nabokov, destruiu o equilíbrio da alma de Jekyll. A sociedade vitoriana fez o resto, deflagrando o surto bipolar do doutor diante do espelho, quando ele, temendo que a sensualidade desenfreada de Hyde pudesse assumir o controle, resolve colocar um ponto final na triste história de Henry Jekyll.

E não foi só na Inglaterra que Stevenson topou com senhores Hyde. Ao partir com a família para Samoa, o escritor passou pelo Havaí, conhecendo um reverendo presbiteriano de mesmo nome e índole de seu anti-herói. Nabokov observa que o dom da premonição fez também com que o escritor descrevesse a própria morte ao narrar a agonia do doutor Jekyll, lembrando que suas últimas palavras justificam um vínculo temático entre o episódio derradeiro de sua vida e a do personagem de sua fragmentária história. Stevenson teria gritado para sua mulher: "O que há comigo? Que coisa estranha é essa? Meu rosto mudou?". E caiu no chão.

Além das três histórias anteriormente citadas, o livro traz O Demônio da Garrafa (1891), O Ladrão de Cadáveres (1884) e O Vestíbulo (1889), este último traduzido a partir de um fragmento de The Master of Ballantrae. O Demônio da Garrafa é a que sintetiza a obsessão temática de Stevenson pelo mal: nela, uma garrafa vendida por 50 dólares a um nativo pobre do Havaí tem o poder de realizar os desejos de seu dono. O resto da história é fácil adivinhar. Basta dizer que a garrafa pertenceu a Napoleão, ao capitão Cook e que Stevenson não ignorava a lenda de Fausto, aquele que vendeu a alma ao diabo.

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