O estilo exuberante de Cavalli

Estilista fala da filial em São Paulo e de como transformou sua grife na queridinha de astros do pop e de Hollywood

Eva Joory, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

"Para um visual divertido e chique, você sempre pode contar com uma boa estampa de zebra ou de leopardo." A frase, dita por Jeffrey Kalinsky, dono da cultuada loja Jeffrey em Nova York, é a que melhor definiu a moda do italiano Roberto Cavalli. Exuberante, extravagante, sexy, excitante e também divertido são alguns adjetivos que combinam com a sua moda sedutora e audaciosa. Quando surgiu, há exatamente 40 anos, Cavalli parecia ser mais um discípulo de Gianni Versace, estilista famoso pelo exagero e pela exuberância, assassinado em 1997, em Miami. Ambos gostavam de mulheres voluptuosas, de criar inspirados pelas mais variadas estampas de animais e, porque não, de um quê de vulgaridade.

Nascido em Florença, Cavalli conquistou o seu lugar no disputado pódium da moda após enfrentar preconceito às suas criações. Enquanto Versace se tornou o queridinho das editoras e supermodels, ele penou um pouco mais. Para muitos, suas estampas e moda excêntrica não passavam de ideias de mau gosto, cafonas. Não é o que pensam hoje rocks stars, como Lenny Kravitz, socialites e uma constelação de divas pop e atrizes de Hollywood. "Quando penso em energia e entusiasmo, penso em Cavalli", opinou a stylist americana Arianne Phillips.

A lista de celebridades adeptas do look Cavalli é longa: Jennifer Lopez, Britney Spears, Cindy Crawford, Lindsay Lohan, Victoria Beckham, Courtney Love, só para citar algumas. Cavalli não gosta da comparação com Versace e não fala sobre o assunto. Hoje seu estilo é único. A marca, que fatura mais de US$ 450 milhões por ano, reúne as grifes Cavalli e Just Cavalli, para um público mais jovem. O seu sucesso nasceu de uma combinação única: uma técnica exclusiva de bordados e silk desenvolvida por ele, um trabalho manual no couro, uma paixão pelo visual selvagem e um conhecimento preciso do corpo feminino. Sua habilidade e sua técnica ele herdou do avô, um artista impressionista, e de sua mãe, costureira.

Em sua recente apresentação na semana de moda de Milão, Cavalli mostrou vestidos de noite frescos e inocentes, definidos pela crítica Suzy Menkes como "surpreendentes". Sua loja na Rua Bela Cintra, em São Paulo, inaugurada em 2004, atrai clientela do Brasil inteiro, em busca dos famosos vestidos de lycra e de jérsei, suas peças mais vendidas no Brasil. Ele já esteve na cidade para conferir a aceitação da sua marca entre as brasileiras. "Ele ficou alucinado com as mulheres daqui", conta Fernanda Bogosian, proprietária da loja. "Minha moda tem tudo a ver com a exuberância da brasileira", disse em entrevista exclusiva ao Estado. Apesar de ter acreditado no sucesso de suas criações desde o início, Cavalli sabe que sua marca hoje tem outro status no mercado de luxo. O preconceito acabou, mas, ao contrário de muitas grifes, Cavalli oferece dois quesitos fundamentais na moda: diversão e ironia. Leia a seguir a entrevista.

Qual a sensação de estar há 40 anos fazendo moda?

Sou estilista e criador apaixonado. Moda faz parte da vida de todo mundo, porque ao acordar, você se pergunta: "O que vou usar para me sentir linda, maravilhosa, sexy e especial?" Moda está em nossa mente e a razão de amar ser estilista é que posso usá-la para medir o humor, as sensações e a vida das pessoas.

Qual o seu grande momento?

Lembro de como choquei muita gente ao mostrar jeans reciclados com estampas de couro. Acho que a grife Cavalli conseguiu quebrar as leis da moda apostando em um estilo de patchwork que mistura partes de jeans e de couro, uma técnica de silk que criei. Fui o primeiro a fazer uso do jeans em uma roupa mais clássica, o que saturou o visual com uma mistura de exotismo e sensualidade.

A crise afetou seu negócio?

Não gosto de falar em números. Por que não focamos na beleza do objeto? Não sei nada sobre a crise financeira. Só sei que nos recuperaremos todos, amando a vida, amando os outros e sendo positivos e otimistas. Não há recessão para mim, porque minhas clientes famosas amam minhas criações. Elas são pensadas para pessoas que frequentam bailes de luxo, festas e eventos glamourosos.

Como o senhor vê a moda hoje? O luxo ainda é necessário?

Minhas coleções são compostas de peças luxuosas e trabalhadas. Vou continuar criando, mesmo que de forma mais contida, para mulheres fortes e sensuais. Gosto de surpreender, detesto a moda previsível. Vivo a moda como uma forma de arte, criando e baseando-me nas minhas inspirações e não no que é solicitado pelo mercado.

Foi uma boa ideia abrir a sua loja em São Paulo?

Creio no potencial da América do Sul e São Paulo foi nossa primeira experiência. Acho que minha moda, rica em cores e estampas, combina com a brasileira, que é bem exuberante. Isso se confirmou com o sucesso da loja de São Paulo.

Qual o segredo do sucesso na moda?

Positividade. Se você quer ter e fazer sucesso, tem de acreditar em você. Se não tem certeza, demonstra fraqueza. Para ser forte, é preciso mostrar seu poder, não aquele dos músculos, mas o do cérebro. Você tem de mostrar o seu interior, o que está dentro do seu coração. Se você atinge as pessoas com a energia da sua mente, você se torna especial.

É fácil saber o que as mulheres querem quando na moda?

Não acho necessário se adaptar para um mercado de moda. Minhas coleções são internacionais. É como ter personalidade, você tem a sua e as pessoas te amam por ela. Você tem de acreditar na sua personalidade e não mudar para satisfazer as pessoas ou para deixá-las felizes. Talvez algumas não gostem de você por isso, mas outras tantas vão amá-lo. Com moda é igual. Quero continuar a dar às pessoas que conhecem e gostam do que faço e não tentar converter as outras que não gostam.

O senhor acha correto dizer que a moda agora olha para a praticidade e o realismo?

Crio e me inspiro no meu instinto impulsivo e subconsciente. Não penso em marketing, vendas ou sucesso. Meu interesse está em vestir mulheres que buscam leveza, praticidade, elegância e sensualidade. As palavras-chave que uso para me motivar são espontaneidade e conforto.

Fale da sua paixão por estampas de animais.

A beleza das estampas está na própria natureza, é só olhar em volta. O que tenho feito estes anos todos é simplesmente copiar a natureza, levar a sua beleza para as minhas criações.

Defina a mulher que veste Cavalli.

Sempre digo que crio sonhos. É algo necessário, pois você tem de sonhar sempre. Durante todos estes anos persegui o meu sonho de beleza. Criei vestidos para mulheres lindas e para homens que buscam a beleza dessas mulheres para completá-los. Na verdade, não falo de beleza, mas de feminilidade, de mulheres com personalidade, inteligentes. As mulheres são mais fortes que os homens, por isso são minhas musas.

O senhor tem um blog, do que se trata?

Gostaria de convidar as pessoas a lê-lo. Nele, tento fazê-las sorrirem, não através de contos de fadas, mas com histórias reais da minha vida. Você acha que sabe tudo a meu respeito? Pois vou mostrar que posso ser do jeito que idealizou, mas, como todo mundo, tenho as minhas fraquezas e os meus sonhos.

O senhor tem algum arrependimento?

Não penso muito nisso. Não me preocupo com o passado e sim com o futuro. O que passou não tem como ser mudado, por isso estou sempre olhando para frente, em busca do próximo desafio.

QUEM É

ROBERTO CAVALLI

ESTILISTA

CV: Nasceu em 1940, na Itália. Fez a primeira coleção em 1972. Hoje comanda um império que inclui, além da coleção feminina, linha masculina, linha jovem e de lingerie, tricô e acessórios.

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