O estilista Fause Haten estreia como ator em ‘A Feia Lulu’

No espetáulo, o figurinista funde suas memórias com as de Yves Saint-Laurent

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2014 | 16h00

Em A Feia Lulu, livro lançado em 1963 como La Villeine Lulu, o estilista Yves Sain Laurent assim se referiu às histórias em quadrinhos que escreveu sobre Lulu, uma menina má de quatro anos que vive acima dos dilemas éticos e morais: "Ao contrário do que (Gustave) Flaubert dizia, ‘Madame Bovary sou eu’, sobre Lulu não se deve dizer o mesmo. A Feia Lulu não sou eu. Mas todos os textos são baseados em fatos reais".

O mesmo se pode dizer sobre o espetáculo A Feia Lulu, que o estilista, costureiro, figurinista, cantor e ator Fause Haten estreia amanhã no Teatro Faap. Ainda que a peça tenha nascido de sua vontade de levar a história de Saint Laurent para o palco, não se trata da biografia do estilista francês que ajudou a moldar a moda como hoje a conhecemos.

Isso porque A Feia Lulu contém trechos da biografia do próprio Fause, que se inspirou em diversas passagens de sua vida, encenadas com a mesma veemência que entoa trechos das memórias de Saint Laurent e de seu companheiro e sócio de toda a vida, Pierre Bergé. "Tudo começou da vontade de falar da relação deles, dos limites invisíveis entre vida e obra. E foi ganhando corpo. Além disso, há passagens do livro que também são encenadas. É um híbrido que se constrói da quebra de paradigmas e de formatos", contou o autor e ator ao Estado, durante ensaio do espetáculo.

Para complicar, ou melhor explicar, A Feia Lulu de Fause é, na verdade, de mais outros nove criadores. Projeto coletivo escrito por Fause, Fábio Retti, Gregory Slivar, Francisco Carlos, Marina Caron e Ondina Clais Castilho, é fruto de uma dinâmica que reuniu diversos profissionais, cada um incumbidos de escrever um trecho da peça. O resultado é mais uma experiência em que Fause, famoso por subverter os clássicos desfiles, quebra as paredes que há entre criação de moda, espetáculo, biografia. "Um desfile é uma peça que acontece apenas uma vez. Não tem ensaio e nem reprise. Uma peça é um desfile que dura o ano todo."

 

O teatro como um ateliê de costura

"Uma maison de costura é um teatro", diz Yves Saint Laurent em uma das cenas de A Feia Lulu. Ou seria Fause Haten quem diz? É esse jogo entre criador e sujeito, entre as artes e o público, que assiste a tudo no palco, como se estivesse dentro de uma caixa e que faz do espetáculo uma obra híbrida e dinâmica. Mais que isso, metalinguística.

Logo no início de A Feia Lulu, Fause Haten transforma um tecido em vestido. Na mais pura arte da moulage (a de se fazer uma roupa no próprio corpo ou em um manequim), o estilista revela seu processo criativo. "É um momento raro. Quantas vezes temos o privilégio de ver um artista trabalhando? Em geral, o que vemos é o resultado do processo", diz o iluminador e autor Fábio Retti, um dos que dividiu o trabalho de criar o texto com Fause, Gregory Slivar, Francisco Carlos, Marina Caron e Ondina Clais Castilho.

É exatamente esta roupa do avesso que Fause constrói e desconstrói em cena. E é, ao se deixar ver criando e discutindo sua arte, que ele se torna mais que um estilista ou intérprete.

"Precisamos buscar o novo. E, para isso, precisamos negar algo. Temos movimentos como o punk, que é a negação da sociedade. Em tempos de fast fashion, onde está a negação da gente hoje?", indaga ele, que já se tornou famoso por realizar ‘não-desfiles’ em suas apresentações na São Paulo Fashion Week. Fause fez seu primeiro desfile aos 19 anos, um antes do Phytoervas Fashion ser criado (em 1994), em parceria com Walter Rodrigues.

Nos anos 2000, passou a questionar a forma clássica de se mostrar uma coleção e começou não só a realizar performances na passarela, cantando em seus próprios desfiles, criando encenações, números e até mesmo um desfile feito sem modelos e com marionetes, em março de 2013. Em outubro daquele ano, realizou uma performance na Avenida Paulista. Há duas semanas, em vez de desfile, criou os looks da coleção diante da plateia do teatro da Faap. "Esta apresentação dialoga com a peça. É uma volta às origens. É para lembrar meu ofício. Sou um costureiro. Visto pessoas", declarou.

Ao mesmo tempo, Fause revela cada vez mais ser um artista que também faz roupas. "Hoje, posso dizer que foi a forma que encontrei de ser artista na família em que nasci", analisa ele, filho de imigrantes libaneses. "Comecei a costurar porque queria viajar e meu pai, que tinha uma loja de tecidos na Rua 25 de Março, não queri deixar. Então, peguei uns tecidos e comecei a trabalhar no chão de casa. E comecei a vender. Com 17, abri empresa", relembra ele, que, em vez de ator, define-se como performer.

Afinal, foi como tal que Fause encontrou o termo mais livre para abrigar sua paixão pela união das artes. A paixão, a propósito, rendeu um diploma no Teatro Escola Célia Helena, em 2009, dois CDs, além de diversos trabalhos como figurinista em peças, como A Casa de Bernarda Alba, O Médico e o Monstro, Alô, Dolly!, O Mágico de Oz, entre outros.

Papel. Mesmo que seu trabalho estivesse cada vez mais dentro do palco, Fause ainda não tinha encontrado um papel para si. "Conversava com dramaturgos, lia textos. E acabava não descobrindo um ideal. Não sou um ator no sentido estrito da palavra e do ofício. Preciso ter um motivo para encenar. É possível ver na atuação que tenho um motivo para dizer o que digo. É como artista que me coloco em cena", comenta. "Um dia, fui ver Camille e Rodin e pensei o quão interessante era um casal de artistas. E lembrei da história de amor de Pierre Bergé e Yves. Um amigo disse, então, que eu estava louco, que era uma história terrível, pois o Bergé era maldito com o Yves. Fui pesquisar e me apaixonei por esta história. E novas camadas foram surgindo", explica o autor.

O resultado está em A Feia Lulu e na forma como fragmentos de diversas fontes ganham coesão neste tecido feito a tantas mãos. Desde os textos do discurso de despedida de Saint Laurent – quando o estilista decidiu deixar a moda em 2002, após ter sua marca vendida e ver Tom Ford no comando de sua linha prêt-à-porter – até textos autobiográficos de Fause e trechos de A Feia Lulu original.

Como dar unidade à esta criação coletiva? "Eu me encontrava com cada criador e, com cada um, pensava em uma cena. Fornecia informação sobre textos, fotos, vídeos", explica Fause.

Foi durante este processo que o estilista entendeu que sua persona forte – um fantasma a ser escondido no palco – deveria justamente aparecer. "Foi um processo natural. Fui me reconhecendo, pois percebi que eu e Yves tínhamos pontos em comum. A criança que sofria bullying, a origem árabe, o encontro com Marrakesh, o sucesso muito rápido, a pessoa que não tem juventude e um dia resolve se jogar na noite", relata. "Assim como ele, vivi tudo isso. Comecei a trabalhar com 16 anos. Até mesmo nossa relação com o teatro e com a arte. Ele criava figurinos para Jean Cocteau, vestiu Catherine Deneuve em A Bela da Tarde. Era apaixonado por Madame Bovary, em quem sempre pensava ao desenhar suas coleções. Também vendi minha marca (para o grupo I’M) e não posso usar comercialmente meu nome... Tantas coisas. Quando vi, tínhamos muito em comum. A persona do Fause, que eu sempre quis esconder, virou um trunfo."

A FEIA LULU

Teatro Faap. R. Alagoas, 903, tel. 3662-7233.

2ª e 3ª, 21h; R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia).Até 3/6. 

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