'O Estado vem entregando o PAC: Plano de Abuso da Credulidade'

Eduardo Giannetti da Fonseca fala sobre futuro; tanto o mais próximo como de longo prazo

O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2011 | 03h08

Fala-se muito sobre o aprofundamento da crise na Europa, no consequente empobrecimento do mundo. O escritor, economista e filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca trabalha, basicamente, com dois cenários. No mais otimista, acredita que a crise se prolonga por alguns anos, sem ruptura ou implosão na zona do euro. No pessimista - catastrófico até -, há uma saída desordenada e o desaparecimento da união monetária, com consequências graves para todos. "Tendo fortemente a crer que prevalecerá o primeiro cenário. A Alemanha deve negociar até o limite. Mas na hora do 'vamos ver', a opção racional será preservar o euro." Giannetti se recusa a apostar na lógica da política democrática de curto prazo prevalecendo irracionalmente. Aí, o mundo entraria em território desconhecido, com risco maior de um "salve-se quem puder".

Hoje, ele está mais preocupado com problemas de longo prazo, como o do meio ambiente e do conflito entre o projeto hegemônico chinês versus EUA.

O professor da Insper sai, depois do Natal, para mais um ano sabático. Um hábito desde seu primeiro livro. Giannetti se concentra em algum lugar, não vê tevê, jornal, e-mail e nem fala com amigos. Um mergulho em si mesmo. Antes, porém, conversou com coluna:

Então, Europa não é o cerne das suas preocupações hoje? Sem pensar no curto prazo, mais especificamente no calendário de 2012, vejo com muita preocupação duas coisas que, no longo prazo, já são problemas e o serão cada vez mais: o conflito que está se desenhando entre o projeto hegemônico chinês e a potência norte-americana mais a mudança climática. A reunião de Durban foi um fiasco e Kyoto também. A Rio +20 será um anticlímax, um desapontamento enorme. Não há acordo e disposição para se tomar medidas efetivas. A meta de impedir que o aquecimento supere os 2ºC até o final do século já está praticamente perdida. E o quadro só se agrava. E a relação China e EUA está lentamente se configurando em um quadro que será de enfrentamento.

Mais alarmante que a situação da Europa?

O erro foi imaginar que se pudesse fazer uma união monetária sem uma união fiscal. Não vejo como resolver esse problema em caráter permanente sem avançar para a união fiscal - o que implica cessão de soberania. Mas acho que esse é um problema administrável e se vê uma saída. Ela é custosa para a Alemanha, pode demorar um pouco mais de tempo ou não, mas é administrável.

Como você definiria essa crise?

Uso metáfora de um filósofo árabe, chamado Avicena. Uma pessoa caminha por uma tábua estreita sem nenhuma dificuldade enquanto acredita que a tábua está apoiada no solo. No momento em que a pessoa se dá conta de que a tábua está suspensa sobre o abismo, ela perde o equilíbrio e cai. O mercado financeiro vinha caminhando com enorme desenvoltura por essa tábua estreita, achando que os valores tinham solidez. Enquanto o subprime americano eram títulos que representavam riqueza, nada aconteceu. Começou-se a perceber que não era essa riqueza e mudou a percepção. Com uma situação objetivamente a mesma, você caminhando por uma tábua estreita e de repente se vê a situação periclitante de desastre. Aí os governos vieram e colocaram a rede para essa queda da tábua. Isso gerou o enredo da crise em que estamos. Agora, para o problema da mudança climática, realmente não consigo vislumbrar solução.

Como estamos caminhando? Não podia ser pior. Não aconteceu nada, o Protocolo de Kyoto nem sequer foi cumprido, a emissão (de poluentes) aumentou em 25% após a assinatura do Protocolo, não há mais o consenso que havia, porque a crise econômica e financeira acabou absorvendo as atenções e deixou esse problema para um plano muito secundário. E as informações científicas são as piores possíveis.

Há o que fazer?

Nosso sistema de preços tão eficiente para a criação de riquezas e recursos revelou uma cegueira brutal no tocante à relação entre o homem e o meio ambiente. O custo ambiental das nossas escolhas ao produzir e consumir não se reflete. Se faço uma usina termelétrica a carvão, como a China faz, e comparo com o custo da energia solar, não há dúvida de que a termelétrica a carvão tem um quilowatt/hora muito mais barato. Só que não está no preço desse quilowatt/hora o impacto ambiental.

Mas é possível precificar o dano e repassá-lo ao consumidor?

Precisaríamos chegar a um consenso de que o custo terá de ser internalizado no preço, para garantir que o mundo não aqueça mais do que 2ºC até o final do século 21. Senão, é catástrofe. A Austrália está com um programa pioneiro nisso. Alguns setores, como o de geração de energia elétrica, terão um imposto sobre a emissão de CO2 de acordo com o nível de emissão de gases daquela fonte de geração. Está em fase de implantação. Mas as pessoas relutam em pagar por isso. É um pouco aquela história de Agostinho em suas Confissões, quando ainda não era santo. Ele disse que, quando jovem, rezava ao Senhor: "Dai-me, Senhor, a castidade e a virtude, mas não já" (risos).

Como convencer as pessoas a aderir?

Temos de começar a pagar pelo custo real do que estamos fazendo. Os preços relativos têm que mudar. Por exemplo, comer carne. Os rebanhos mundiais somados (bovino, suíno e aviário) emitem mais CO2 equivalente do que toda a frota automobilística, mas isso não está no preço da carne. O Brasil tem parte nisso.

O Brasil parece ser a bola da vez, estamos aproveitando o momento?

Pois é... acho que não. A taxa de poupança brasileira é ridiculamente baixa para um País que está vivendo o apogeu do dividendo demográfico.

O que é isso, dividendo demográfico?

O Brasil hoje está com um problema: a taxa de fecundidade é inferior à de reposição. A boa notícia é que a população vai começar a cair. De 1950 a 1994 ela triplicou. Uma explosão para ninguém botar defeito. Mas a partir dos anos 70, vivemos uma das quedas mais rápidas e acentuadas de taxa de fecundidade que se tem registro na demografia. Isso gerou uma dinâmica demográfica única na vida de uma nação. Pega a pirâmide etária: como cresceu muito a população, entrou na base da pirâmide uma bolha.

Uma bolha?

Calma, essa bolha entrou por baixo, pelas crianças. À medida que o tempo vai passando, essa bolha vai subindo. Como caiu muito a fecundidade, vai estreitando a base da pirâmide. Temos uma proporção muito grande de pessoas em idade de trabalho, de 15 a 64 anos. Os dependentes, que são as crianças e os idosos, estão nas duas pontas da pirâmide. Isso dá ao país uma chance de crescimento e de prosperidade enorme. O problema é que, se não enriquecer nos próximos 20 ou 30 anos, o Brasil vai envelhecer antes de enriquecer. Temos de nos capitalizar, precisamos aproveitar essa chance para formar um estoque de capital físico e de capital humano que nos permita viver razoavelmente bem quando essa bolha, que está no meio do caminho, chegar lá em cima.

Ela será sempre baixa, é coisa cultural?

Não, aí é que está. Tem um termo técnico horroroso, o crowding out fiscal. O Estado brasileiro drena de 38% a 39% da renda da sociedade e transforma isso em gasto corrente. E não em capital. Tanto é que o Estado vem entregando na outra ponta o PAC, Plano de Abuso da Credulidade (risos).

Existe essa mesma bolha na China?

Na China ela está bem mais avançada. O país com perspectiva ainda um pouco melhor que a brasileira nesse aspecto é a Índia. A China passou por isso. Essa é a taxa de dependência, a proporção de pessoas que não trabalham em relação às que trabalham. Na Europa, isso já terminou faz tempo. O continente terá um para um em 2020: um que trabalha para um dependente. Esse é o problema fiscal da Europa. Por isso teremos de mudar radicalmente a aposentadoria e todas essas coisas. Se não, não vai dar.

O que se nota, agora, é uma certa irracionalidade política nos EUA, que não havia antes. O que aconteceu?

Havia um meio do campo que prevalecia em momentos de crise. Ele desapareceu porque não ficou resolvida a crise financeira de 2008-2009. O número que o Paul Volcker anunciou é muito impressionante: o sistema financeiro, antes da crise nos Estados Unidos, representava 40% do lucro total da economia americana. Aí já tem coisa errada, porque o lucro numa economia de mercado é um sinal que a sociedade está mandando de que deseja mais disso. Se um setor é altamente rentável, isso significa que o lucro lá é maior que a média, os empresários irão investir lá, a sociedade está pedindo que faça mais disso, a sociedade está demandando. Já o setor que dá prejuízo ou a empresa que dá prejuízo, recebe sinal da sociedade de que aquilo não é desejado. Se uma empresa dá prejuízo, está recebendo a seguinte mensagem: faça outra coisa ou faça melhor o que está fazendo, porque, do jeito que está, não recebe os votos monetários dos consumidores para continuar tendo legitimidade econômica. A pergunta que o Volcker fez é a seguinte: será que a sociedade estava querendo ainda mais serviços financeiros, com 40% do lucro total da economia americana sendo dos bancos?

Ele falou isso pós crise.

Sim, mas apontou para um número que é completamente fora. É lógico que o sistema financeiro presta um serviço e tem de ser remunerado por isso, mas ele descobriu um modo de capturar valor e não tem valor socialmente reconhecido que justifique 40% do lucro total ir para o sistema financeiro. Igualmente grave é o seguinte: enquanto estava ganhando, ai de quem levasse o argumento ou de quem suspeitasse que a economia deveria ser socializada ou deveria, de alguma maneira, ser redistribuída essa rentabilidade na sociedade. Era absolutamente sagrado o princípio de que esse lucro era privado. No momento em que as coisas deram para trás, vem o Estado e estatiza as perdas do sistema financeiro e gera essa tremenda crise de dívida.

Mas havia outra saída?

Se deixasse correr, como fizeram em 1929, ia virar a grande depressão dos anos 30, seria muito pior. Agora, tem alguma coisa profundamente errada no desenho desse sistema, porque não pode ser assim. Aí é que a coisa azedou nos Estados Unidos, porque estatizou com uma exorbitância de endividamento, que é jogar a conta para as gerações futuras.

Para os Estados Unidos, você tem alguma percepção?

Eles têm que dar a volta por cima de alguma maneira, não é? É. Quando você tem um problema, tem duas maneiras de lidar: ou você aceita que a solução vai ser uma dor aguda e curta, que resolve, ou você se arrasta com uma dor crônica, sem enfrentar aquele sofrimento intenso, mas o problema se arrasta no tempo. Eu pensei que a crise americana seria right off: perdeu, corta o braço e recomeça. Não foi. Até porque, se fosse, arrastava tudo, ia virar grande depressão.

Assim sendo, não tem como prever quais vão ser os próximos passos?

Eu acho que a melhor análise disso é do Kenneth Rogoff: a grande contração. Por tudo que eu pude ler sobre o assunto, esse é o cara que melhor interpretou e explicitou o tipo de encrenca em que nós estamos. Não é uma grande recessão, é uma grande contração.

E a grande incógnita é...

A grande incógnita é quem vai perder. No financeiro, todos. Agora, como é que a economia se move sem esse aditivo?Ela vai ficar em marcha lenta até esse problema limpar. No melhor cenário, no mais otimista, nós estamos com uma economia de países ricos, crescendo abaixo do potencial por dois ou três anos. No melhor cenário.

O mundo inteiro vai empobrecer?

Vai. Essa riqueza financeira, que cresceu desmesuradamente e desconectada do mundo real, vai ter que, de algum jeito, encolher.

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