O essencial (não) é invisível aos olhos

Três novos livros refletem sobre o glamouroso universo fashion

Rosane Muniz e Fausto Viana, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2010 | 00h00

Quem passou pela experiência da leitura de O Sistema da Moda, de Roland Barthes, certamente terá o mesmo receio ao encarar Moda, Uma Filosofia, do filósofo Lars Svendsen, dinamarquês e professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Bergen, na Noruega. Mas, coragem! O trabalho desse pensador contemporâneo é uma surpresa.

A primeira agradável descoberta do livro é a busca por pensamentos e não banalidades do mundo da moda. Não há apelo ao fácil ou ilustrativo, mas uma boa sequência de ideias, que permite entender a linha investigativa em tratar o vestuário como tema de pesquisa. E, nele, a moda como uma das imposições mais visíveis.

É bastante claro e verdadeiro o clamor do autor por uma falta de base teórica para os estudos de teoria da moda, para a qual este livro vem contribuir de forma significativa. Ao traçar um panorama geral do pensamento do mundo contemporâneo sobre a moda, resgatando muitos teóricos e períodos históricos para poder seguir adiante, há, porém, uma pulverização do pensamento do autor.

Mas... Como resgatar textos "sérios", que tratam a moda como assunto "sério", se a própria moda permaneceu como um campo de pesquisa fútil para a enorme maioria dos pesquisadores, que não se arriscou a escrever sobre ela?

Em primeiro lugar, resgatando quem escreveu sobre o tema. Afinal, apesar de a moda sempre ter sido citada por muitos filósofos, Svendsen lembra que só dois escreveram livros sobre ela: Georg Simmel (Filosofia da Moda, 1904) e Gilles Lipovetsky (O Império do Efêmero, 1989, entre outros), que recebe tratamento especial, já que será questionado em suas bases conceituais, em um dos melhores momentos do livro.

Suas citações buscam revelar que moda nunca foi questão exclusivamente feminina; moda e vestuário caminham de mãos dadas, sem necessariamente serem a mesma coisa; é fundamental entender o contexto humano, social e histórico a que determinado traje pertence.

Mesmo ao resgatar temas já banalizados do mundo da moda, há certa surpresa em alguns momentos, como quando cita Michel de Montaigne - que, ao que se sabe até agora, nunca tratou do assunto moda -, aplicando-o ao consumidor moderno, ou talvez pós-moderno.

É a característica do autor de relacionar temas que faz com que o livro cresça em possibilidades: não se trata apenas de mais uma obra de reflexão e de base sobre a moda, mas um indicador de caminhos, que abrirá novos rotas de pesquisa. O que é muito coerente com a trajetória de trabalho acadêmico de Svendsen, que por sua juventude parece garantir espaço para alguns anos de discussão saudável.

A Essência do Estilo. O livro recebeu subtítulo que esclarece de imediato qual sua função: Como os Franceses Inventaram a Alta-Costura, a Gastronomia, os Cafés Chiques, o Estilo, a Sofisticação e o Glamour. A discussão remete principalmente ao reinado de Luís XIV (1661-1715), que a autora, Joan DeJean, professora de francês na Universidade da Pensilvânia, já tratou em trabalhos anteriores sobre literatura, história e cultura francesas.

O livro é um apanhado do mais chique e glamourizado que os franceses legaram ao mundo. Vistos sob a ótica de uma pesquisadora interessada em contextos sociais (por vezes um pouco suavizados) e entendimento das estruturas políticas do reinado do Rei Sol, faz-se digna justiça a um gênio do pensamento político e econômico: Colbert, ministro das finanças do Rei.

A autora trata o estilo como um assunto de Estado. O plano de Colbert era que todos os artigos considerados essenciais para promover a imagem do Rei como o mais rico, sofisticado e poderoso monarca da Europa fossem produzidos na França. Depois, garantia que um número máximo de pessoas seguisse as normas do Rei e adquirisse artigos semelhantes aos de Versalhes.

Dividido em temas mais ou menos independentes - a necessidade do luxo e do consumo são motes condutores -, o livro seria apenas um manual de curiosidades, com informações corriqueiras e conhecidas do leitor que entende a tradição francesa nas áreas da moda, gastronomia e do estilo, em síntese. Mas o apelo reside justamente na segurança que dá ao leitor, transformando-se em boa fonte de pesquisa e referência, para então levá-lo a buscar novos conhecimentos.

Moda e Ironia em Dom Casmurro. O crítico americano Harold Bloom inclui Machado de Assis na mesma categoria de William Blake e Jorge Luis Borges, quando o coloca entre os cem maiores gênios da literatura mundial. E é justamente na obra machadiana que Moda e ironia em Dom Casmurro busca um fio condutor para o estudo da moda brasileira no século 19.

O livro, resultado da dissertação de mestrado de Geanneti Tavares Salomon, professora de Moda em Belo Horizonte, trata a moda como "forma de expressão do indivíduo", que deve ser analisado sob vários aspectos das ciências humanas, entre elas economia, psicologia, semiologia e filosofia.

Da bem embasada bibliografia - na qual há uma breve lacuna de Teatro de Machado de Assis (Organização de João Roberto Faria) - a autora pinça o precursor trabalho da filósofa Gilda de Mello e Souza (O Espírito das Roupas), que dá a Machado de Assis o estatuto de documentalista dos modos e costumes do período em que viveu.

Como traça um bem elaborado painel da vida social no Rio por intermédio de Dom Casmurro, era apenas natural que a presença da vida teatral aparecesse no contexto do livro, já que era o meio de comunicação de massa do momento. E como Machado não deixou a moda passar impune em sua obra pelo entendimento crítico da importância do fenômeno, um ponto alto é a discussão sobre o "teatro do cotidiano", da representação humana que tem como pano de fundo o cenário da vida real e o "teatro" como obra artística, que está em Marcas da Representação no Figurino de Teatro.

Com uma reflexão crítica que contribui para sua área de estudo, ainda bastante carente, e orientada para a formação de jovens de graduação em moda, a autora inclui um bom panorama do que é moda, com definições de vestimenta e indumentária, além de inserções significativas de autores contemporâneos que pensam a moda, reservando espaço especial aos brasileiros, que vêm firmando essa linha de pesquisa no Brasil há anos.

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