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O essencial de John Ford, sem 'firulas'

Modas passam, cineastas são esquecidos, glórias efêmeras se dissipam, mas John Ford permanece. Assim inicia o crítico e cineasta Bertrand Tavernier seu verbete sobre John Ford no livro 50 Ans de Cinéma Américain, que escreveu em parceria com Jean-Pierre Coursodon. Decorridos 37 anos de sua morte - em 1973, aos 78 anos -, ele permanece como um dos grandes de Hollywood.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2010 | 00h00

Quatro vezes vencedor do Oscar de direção, um recorde - por O Delator, Como Era Verde Meu Vale, Vinhas da Ira e Depois do Vendaval, em 1935, 40, 41 e 52 -, Ford nunca foi premiado por seus westerns, mas certa vez, ele próprio, querendo se definir perante seus colegas cineastas, disse que fazia faroestes. Ao longo de mais de 40 anos, desde o período silencioso e até Sete Mulheres, seu último longa, de 1966, ele fez do seu cinema uma síntese da "América", refletindo sobre os mitos fundadores de seu país.

Abraham Lincoln foi sempre uma inspiração, mas Ford foi, principalmente, o diretor dos desenraizados, contando epopeias de grupos - colonos, índios, religiosos, etc. Isso lhe valeu a alcunha de Homero de Hollywood, mas o curioso é que o autor que tanto se interessou pelo "coletivo" fez da saga de um solitário - o Ethan Edwards de Rastros de Ódio (The Searchers), de 1956 - o mais belo de seus filmes, sua obra-prima. Ford ganha agora a homenagem do Centro Cultural Banco do Brasil, que promove, a partir de amanhã, um grande evento.

Será uma retrospectiva - com 36 longas e um curta, quase todos projetados em 35 mm. A exceção é justamente o único filme que não é de Ford, mas sobre ele - o documentário Directed by John Ford, de Peter Bogdanovich, em DVD. Completam o evento, imperdível para cinéfilos, um curso sobre o artista e um livro/catálogo sobre sua vida e obra.

NÃO DEIXE DE VER

François Truffaut dizia que ele era o Jean Renoir norte-americano e até o centenário Manoel de Oliveira admite que bebeu na fonte de John Ford. Além dos filmes vencedores do Oscar e de Rastros de Ódio - leia acima -, existem programas irretocáveis na retrospectiva, obras que esclarecem o artista e sua obra.

NAS ÁGUAS DO RIO (Steamboat Round the Bend). Feito no mesmo ano de O Delator, o longa com Will Rogers é um dos filmes que melhor expressam o amor de Ford por seu país - o médico charlatão e seu barco são inesquecíveis.

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS (Stagecoach). Transposição de Bola de Sebo, de Maupassant, para o Oeste, foi o primeiro Ford em Monument Valley. O mundo cabe numa diligência e até Welles dizia que saíram daqui as pesquisas de cenário de Cidadão Kane.

A MOCIDADE DE LINCOLN A transformação do jovem

Lincoln no ícone da democracia norte-americana ou de como um jovem advogado descobre sua vocação política num tribunal. A parceria com Henry Fonda produziu belíssimos filmes.

O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA.

A morte de Wayne é o ponto de partida para essa sombria desmistificação das lendas do western, que termina com um velho chorando (Ford, quem sabe).

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