O esporte favorito do homem e a explosão de fé - no futuro

No recente Festival de Cannes, como integrante do júri, Ewan McGregor fez observações ao mesmo tempo maduras e sensíveis sobre a arte da representação e a escolha dos vencedores, na noite de premiação. No tapete vermelho, foi o sr. Cannes de 2012 - toda noite trocava o black-tie, adotando cores e modelos ousados. Um sucesso.

O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2012 | 03h10

Toda essa conversa parece ter o objetivo de distrair o espectador, como se não houvesse nada a dizer sobre o novo longa de Lasse Hallström. Existe, sim. O cinema registra poucos, mas bons, filmes sobre pescaria. O Esporte Favorito do Homem, de Howard Hawks, subverte o próprio título e a diversão do herói para deixar claro que esporte bom, para homem de verdade, é a mulher. Nada É para Sempre, de Robert Redford, usa a pescaria, e o rio, como metáforas do tempo, na expectativa de que o amor, sim, e as relações familiares sejam para sempre.

No longa de Hallström, não é o amor que é impossível, e o público logo se dá conta disso. Na abertura, um xeque iemenita resolve bancar um projeto que parece absurdo - criar uma colônia de salmões no deserto. Para isso ele precisa de uma represa, tanques, peixes - e um especialista para gerenciar o empreendimento. Entra Ewan McGregor, cooptado, no grito, pela consultora Emily Blunt. Como eminência parda, Kristin Scott Thomas, a assessora de imprensa do primeiro-ministro, vê no episódio a possibilidade de melhorar a imagem do político, desgastada no quadro das intervenções do Ocidente no mundo árabe. Uma cena torna-se emblemática

O xeque acolhe McGregor em seu castelo inglês. Vão pescar - e conversam. O assunto é a fé. O xeque é um empreendedor que quer sacudir o imobilismo dos povos do deserto. Ganha opositores internos que vão tentar destrui-lo (e ao seu projeto). A narrativa avança com essas pontas 'políticas' - a manipulação do eleitor pelos marqueteiros, a imprensa conivente. E tem o romance.

McGregor descasa-se, Emily namora um soldado que vai para o front e é dado como desaparecido em combate. Lasse Hallström junta todos os fios sem pressa. A civilização pode estar em crise, mas o instinto empurra o homem para a frente. Os peixes vão subir o rio. Vão sobreviver à explosão. A fé do xeque triunfa. A vida segue. O diretor não reinventa o cinema, mas conta com competência sua história humana.

Crítica: Luiz Carlos Merten

Avaliação do filme: Bom

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