O "Esplendor" de Arthur Omar ocupa o CCBB-SP

Há uma lógica do êxtase que percorre e dá sentido à obra de Arthur Omar. Está presente, mesmo não sendo o tema, no único longa que o mineiro de Poços de Caldas, de 53 anos, dirigiu para o cinema. Triste Trópico é uma das atrações da mostra que o Centro Cultural Banco do Brasildedica ao artista multimídia a partir de amanhã. Omar vai ocupar todo o prédio no centro da cidade com seu filme, seus vídeos, fotos e até uma videoinstalação que vai projetar imagens em 108monitores, no foyer. Chama-se Arthur Omar: O Esplendor dos Contrários o megaevento que reabre o debate em torno de um dos mais inquietos produtores de imagens (fixas ou em movimento) doPaís.Triste Trópico, de 1974, é um filme fundamental. A qualidade da cópia pertencente à Cinemateca Brasileira não é das melhores, mas não compromete a essência da obra. Omar constróiuma visão metalingüística da relação litoral/sertão no cinema brasileiro. Como toda a sua produção audiovisual, o filme propõenova relação entre imagem e som. E nas imagens de carnaval, naqueles rostos que vivem o clima de festa e deixam transparecer o cansaço, estão os gérmens da pesquisa que resultou na série"Antropologia da Face Gloriosa". Esses mesmos rostos fornecem o material para o vídeo Inferno. "Há uma coerência e um enriquecimento contínuos nos vários segmentos do meu trabalho eda exposição", diz Omar, que espera encontrar espectadores interessados em percorrer todos os espaços que criou no CCBB.Diretor de cinema e vídeo, fotógrafo, videoinstalador, Omar não conhece limites (nem suportes) para a extensão do seu talento. O texto de apresentação do catálogo editado pelo CCBBdestaca justamente esse aspecto, nada irrelevante, de sua atividade artística. Chama-se A Fusão dos Limites. Nada mais omariano, já que o autor gosta de trafegar entre mídias esuportes, realizando experiências radicais. Omar está entusiasmado com o evento. Passou a semana em SP, acompanhando os trabalhos de montagem da mostra.Amazônia - O Esplendor dos Contrários, Fluxos. Há muito o que ver na apresentação de Arthur Omar no CCBB. "As fotografias são lindíssimas", ele anuncia. Essa exposição temcomo subtítulo Aventuras Colorísticas da Musa Paradisíaca no País dos Contrários. Boa parte das fotos resulta do trabalho realizado pelo artista em suas viagens pela Amazônia. Omar nãodocumenta a região, mas usa as imagens da natureza para refletir o País. Há fotos de árvores que sugerem pessoas, bichos. Nãorecorrem a efeitos especiais para isso. "Crio paisagens metafóricas que são enraizadas no real, mas que, descontextualizadas, adquirem uma dimensão mitológica."A instalação Fluxos é a menina dos olhos de Omar. Está disposta em dois semicírculos com 108 monitores, ocupando todo o espaço do foyer. Ele usa as imagens de garotos que mergulham nos rios da Amazônia. Os garotos saltam dentro d´água,a imagem retrocede e esse vai-e-vem cria efeito de suspensão, como se o tempo tivesse parado. Simultaneamente, há imagens de guerra e sons de tiros e explosões, tudo criado e organizado deforma a levar o espectador a interagir no espaço da instalação."A intenção desse trabalho é estimular os sentidos do público", diz Omar. "O que eu crio é um espetáculo de violência simbólica e sensorial, estética e social." Por recorrer até a imagens da rede de TV CNN, ele acredita que o trabalho está mais atual e explosivo que nunca, por conta dasituação no Afeganistão. Por sua ousadia em pesquisar formas, linguagens e suportes, Omar tende a ser rotulado como artista experimental, talvez um formalista. Nada menos de acordo comsuas intenções. Uma frase retirada do catálogo da exposição é esclarecedora: "Forma não é tudo, é o lixo do processo." Na verdade, Omar quer é refletir sobre o Brasil. Essa reflexão,crítica, apaixonada, visceral, está em todos os suportes que trabalha. É o que faz da Lógica do Êxtase um marco da produção de imagens no País.Arthur Omar: O Esplendor do Contrário. Deterça a domingo, das 12 às 18h30. R$ 8,00 (para as exibições na sala de cinema). Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, em São Paulo. Até 25/11. Abertura amanhã, às 12horas.

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