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O espião da Lituânia

Todos no bar já estavam cansados de ouvir a história do Josef, mas, de vez em quando, aparecia alguém novo no bar, alguém que não conhecia nem Josef nem sua história, e aí era a turma do bar que pedia para Josef contar sua história

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2020 | 05h00

Ele se chamava Josef, tinha 80 e poucos anos, e estava sempre pronto a contar sua história. Seus companheiros do bar já estavam cansados de ouvir como os pais do Josef tinham chegado ao Brasil vindos da Lituânia, durante a Segunda Guerra Mundial, e como Josef viera na barriga da sua mãe. 

Todos no bar já estavam cansados de ouvir a história do Josef, mas, de vez em quando, aparecia alguém novo no bar, alguém que não conhecia nem Josef nem sua história, e aí era a turma do bar que pedia para Josef contar sua história. Até o ajudavam, temendo que ele se perdesse na narrativa, ou esquecesse algum detalhe importante da história.

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– Josef, conte o que seus pais vieram fazer no Brasil.

Josef mudava de voz quando começava a contar sua história. A voz ficava mais solene. Mais grave.

– Meus pais, Ianis e Grupa, vieram ser espiões da Lituânia no Brasil.

– Espiões?!

– Espiões. 

– Mas... O que eles espionavam? 

– Tudo que acontecia aqui. Nossa política. Nossos costumes. O movimento nos portos. Movimentos suspeitos nas ruas, que aqui chamavam de carnaval. O que os jornais brasileiros diziam da guerra. Tudo que pudesse interessar ao comando militar lituano. Meus pais usavam um transmissor de rádio escondido no porão para mandar seus relatórios. Era perigoso. Um dia...

Josef parou de falar. Aquele “um dia” ficou suspenso no silêncio do bar, até Josef retomar a narrativa, agora com a voz ainda mais grave.

– Um dia bateram na porta. Ficamos assustados. Eu era uma criança. Grupa, minha mãe, procurava um lugar para me esconder. Bateram na porta com mais força. Papai gritou “Quem é?”. Uma voz feminina respondeu “Estamos vendendo rifas para o baile no clube”. Não era a polícia. Papai e mamãe nunca foram descobertos. Espionaram para a Lituânia até morrerem. 

– De que lado estava a Lituânia, na guerra?

– Eles nunca ficaram sabendo. Todas as semanas transmitiam seu relatório pelo rádio, e todos os meses, sem falha, entrava um dinheiro, mandado da Lituânia, na conta deles, no banco. Era o dinheiro que pagava nossas contas. Foi o dinheiro que pagou minha educação. É o dinheiro que me sustenta até hoje.

– O quê? Você recebe o dinheiro que vinha da Lituânia para os seus pais?

– Todos os meses, sem falha.

– E não se sente culpado por receber dinheiro sem trabalhar?

– Quem diz que eu não trabalho? Trabalho muito.

– Fazendo o quê?

– Espionando. Todas as semanas mando um relatório do que está acontecendo no Brasil. Quando meus pais morreram perguntei se era para continuar mandando os relatórios e eles disseram para continuar mandando. Que os relatório são publicados com grande sucesso desde os tempos da Segunda Guerra Mundial, apesar de ninguém acreditar que o que eles contam seja verdade. Uma frase que dizem muito é “e a gente pensava que a Lituânia era um país improvável...”.

– E você não inventa o que conta nos seus relatórios?

– E precisa? 

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