O espaço da cor na obra de Roberto Micoli

Acaba de ser lançado amplo livro que resgata a trajetória do artista

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2010 | 00h00

QUEM É

ROBERTO MÍCOLI

ARTISTA PLÁSTICO

CV: Nascido em 1953 em Campinas, mudou-se para São Paulo em 1981. Começou sua carreira com o desenho, mas na década de 1980 assumiu a pintura como linguagem. Depois, simultaneamente, passou a criar objetos.

Na década de 1980, o artista Roberto Mícoli participou da efervescência do que foi um período de abertura política e de consolidação, cada vez mais maior, de um sistema da arte que começava a se internacionalizar no País. O criador, nascido em Campinas, até mesmo participou da grande mostra coletiva que se tornou um marco da época, a exposição Como Vai Você, Geração 80?, na Escola de Artes do Parque Lage no Rio de Janeiro. No time de 123 artistas, entre nomes hoje tão consagrados como Beatriz Milhazes ou Daniel Senise, ele era o número 72.

Mas Mícoli, sempre "discreto e pouco afeito a grupos e trupes", como escreve o crítico e jornalista Mario Gioia no livro que a Editora Bei acaba de lançar sobre ele, preferiu ficar em seu próprio caminho, imerso em trilhar sua poética sem se prender a nenhum rótulo. A edição sai agora justamente para quebrar o "quase silêncio", definem os editores do livro, que "esconde o vigor e a constância de sua produção".

Roberto Mícoli, com texto de Gioia, entrevista feita com o artista pelo antropólogo Stéphane Malysse, vasto material fotográfico com reproduções de suas obras e detalhada cronologia, foi lançado em duas edições, uma a R$ 140 e outra em forma de objeto-livro, em caixa de acrílico que traz em sobrecapa tela dele (R$ 2,2 mil).

A publicação surge como um resgate da história, do processo e dos pensamentos de Roberto Mícoli, que participou de uma série de exposições e também tem obras em acervos importantes, como o do Museu de Arte Contemporânea da USP, do Masp e da Fundação Nemirovsky. A edição traz, ainda, certa atmosfera do que foi participar de um momento importante para a historiografia recente da arte brasileira, os anos 1980 - entre os amigos mais próximos de Mícoli, estavam Leonilson (1957-1993) e Alex Vallauri (1949-1987).

Desenho. Mícoli começou sua trajetória com o desenho, influenciado pelo ofício de seu pai, desenhista técnico. O próprio artista, na década de 1970, já vivendo em São Paulo, começou a trabalhar como desenhista técnico em um escritório de arquitetura. O papel milimetrado tornou-se, assim, um suporte de suas primeiras criações artísticas, geralmente, baseadas no tema da paisagem e feitas com lápis de cor - sentia-se influenciado pela corrente da Nova Figuração de Tomoshige Kusuno e de Antonio Peticov, como explica: "Minhas paisagens foram feitas sobre uma superfície que não era destinada inicialmente a uma obra de arte. O papel técnico guarda uma banalidade que me interessava." Foi com desenho que ele participou dos primeiros salões de arte, a porta de entrada no circuito artístico, até hoje, de jovens criadores.

Mas é a cor, como fica explícito no próprio tratamento do livro, um ponto-chave da produção de Mícoli. Por isso, sua trajetória é permeada por uma busca constante da composição cromática, tanto em pinturas de um caráter heterogêneo - construídas com fragmentos de lonas coloridas, de tecidos e telas recortadas. Ou nos objetos - feitos com penas de aves, couro, fios de ouro, revelando, até mesmo, uma busca ancestral. "Minha produção sempre teve cor", define Mícoli.

Rigor. Uma espécie de "feitura artesanal" (com raízes no encontro das artes africana e indígena) misturada a um "rigor construtivo" parece sempre ter atraído o artista. A linha, o ponto de partida tão chave do desenho, também se impõe de maneira constante em sua produção, seja nas pinturas - os fios da costura das lonas está visível -, nos objetos - produzidos com arames e barbantes, por exemplo. "Desde que comecei, vejo o trabalho que faço como um só; fiz centenas de desenhos, de esculturas, de pinturas, mas estou sempre me relacionando com a mesma coisa, os mesmos temas: eu, na luz do tempo e no espaço da cor."

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