O escultor que faz prédios e pontes

O arquiteto e engenheiro espanhol Santiago Calatrava, de 55 anos, é autor de algumas das mais bonitas construções contemporâneas da Europa. São dele, por exemplo, o edifício residencial Turning Torso em Malmö, que é o mais alto da Suécia, a Ponte de Alamillo, em Sevilha, suspensa só por um pilar, e as alterações no Complexo Esportivo de Atenas para a realização dos Jogos Olímpicos de 2004. Poucas pessoas, porém, conhecem as esculturas e desenhos que ele faz. E são eles que inspiram as formas dos prédios e das pontes criados por ele.É isso que mostra a exposição Santiago Calatrava: Sculpture into Architecture, no Metropolitan Museum, em Nova York, até 5 de março. Ela coincide com o início de grandes projetos do espanhol nos Estados Unidos, como o terminal de trens e metrô no novo World Trade Center e um prédio vizinho à Brooklyn Bridge, em Nova York, e o condomínio Fordham Spire, no centro de Chicago, que deverá ser o mais alto edifício do país, com 660 metros de altura. ?Quando faço um edifício, tenho de ser funcional, mas quando trabalho numa escultura, apenas me submeto às leis do material e da geometria para conseguir o que quero expressar?, diz ele, que estudou arte e design antes de formar-se em arquitetura em Valência, fazer pós-graduação em urbanismo e mestrado em engenharia civil em Zurique. Suas esculturas na exposição refletem interesse por vários mestres do século 20, de Brancusi e Matisse a Giacometti e Picasso e demonstram uma forte influência de Antonio Gaudí. Como seu conterrâneo, ele faz analogias entre a anatomia humana ou de animais na estrutura de edifícios e nas suas peças de mármore, madeira ou metal. TorsosEle concebeu suas primeiras esculturas em 1985, empilhando blocos de madeira com que seu filho brincava. A partir de investigações sobre a coluna vertebral humana feitas com os bloquinhos, ele criou uma série de torsos de madeira e mármore. Os princípios de engenharia dos cubos contrabalançados por fios de metal foram aplicados depois em projetos de pontes como a de Alamillo, desenhada em 1987 e completada em 1992. A série de torsos também serviu de modelo para o prédio de apartamentos que ele fez em Malmö e para a South Street Tower, o edifício residencial que ele projetou para o Brooklyn. O prédio sueco, concluído no fim do ano passado, foi projetado em 1999. Nele, cada cubo tem cinco andares divididos entre um e cinco apartamentos, com escadas e elevadores fazendo a comunicação interna. As áreas de serviço, como cozinhas, banheiros e dispensas, são agrupadas no centro, enquanto salas e quartos desfrutam a vista pelas janelas da fachada externa. O mesmo princípio será visto na torre nova-iorquina, com 12 cubos sobrepostos.Nas esculturas de cubos, tem-se a ilusão de que a gravidade pode ser desafiada. Cabeça XIB, de 1994, feita de ébano, aço cromado e arame, é uma analogia visual de como o peso da cabeça é seguro pela espinha por meio de ligamentos e músculos. Em Suspensão IV, de ébano e aço inoxidável e criada em 1995, ele elabora o princípio da ponte suspensa por apenas um pilar, desenvolvido pela primeira vez na de Alamillo. O pilar/mastro da escultura tem fios de sustentação na parte posterior; no da ponte, Calatrava conseguiu eliminá-los, substituindo-os pelo peso morto de uma grande pilastra.Com a escultura, Calatrava pôde investigar formas e princípios de engenharia livre das exigências de clientes, limitações de terreno e de códigos de construção. Além de usá-las em seus projetos, ele continuou a criar esculturas independentes, só por gosto, quase sempre trabalhando em séries até ter uma nova idéia para explorar.MovimentoGary Tinterow, do Departamento de Arte do Século 19, Moderna e Contemporânea do Metropolitan, que organizou a mostra, diz que, ?embora seja considerado um regionalista, Calatrava, assim como Gaudí, é um humanista que busca a linha da beleza em formas vivas?. A exposição é dividida em seções que espelham o vocabulário de formas que ele usa: cubos, asas e bicos de pássaros, olhos, ondas, frutas ou sementes.?Você pode alcançar coisas muito complexas por meio da compreensão matemática, mas também observando o movimento das ondas, de uma folha ou de galhos de uma árvore sobre a água?, diz o arquiteto e escultor. ?Para mim é muito importante o aproximar-se da vida e dos fenômenos que nos rodeiam no cotidiano com uma grande capacidade de se deixar surpreender.?As surpresas da física natural sempre aguçaram a criatividade dele, que defendeu tese de mestrado sobre estruturas móveis e caracteriza suas obras pelo movimento e pela flexibilidade. A estação de trens do Aeroporto de Lyon, na França, que ele projetou em 1989 e foi inaugurada em 1994, é coroada por um par de asas similares aos da escultura Pássaro I, de 1986. Esta mesma obra de arte ainda originou o design do hall para concertos de Tenerife, nas Ilhas Canárias (1991-2003). Lembrando a Opera House de Sydney, na Austrália, projetada em 1957 por Jorn Utzon e completada em 1973, a do espanhol tem forma de meia-lua de ponta para baixo sobre dois triângulos curvos, construídos em concreto armado. O grande arco do teto se ergue a mais de 60 metros.Também são alados o futuro terminal de transporte no World Trade Center, em Nova York, e a cobertura do Milwaukee Art Museum, no estado de Wisconsin, que foi o primeiro trabalho dele nos EUA, feito em 1994. ?A sensação de movimento está profundamente enraizada na natureza da arquitetura?, diz Calatrava, comparando esta com a música. ?É preciso tempo para ver a arquitetura, tanto quanto para ouvir música. Uma é muito material e a outra é completamente imaterial, mas ambas são percebidas de forma similar. Tanto que, quando se fala em arquitetura, usam-se termos como ritmo, harmonia, proporção, que também são qualidades da música.?Na exposição há várias esculturas mecanizadas, que realmente se movimentam. Iluminada sobre a entrada da galeria está a mais recente de uma série chamada Máquina de Sombras, que ele começou em fins dos anos 80. Feita de alumínio plastificado, aço pintado e gesso, ela parece as costelas de um grande animal, lançando nas paredes a sombra de ossos ondulantes. No centro da sala, Ondas, repetição do original criado em 1994 e feita de lâminas retas de bronze e aço pintadas de verde, é a origem das formas do telhado da vinícola espanhola La Rioja Bodegas Ysios, em La Guardia, que Calatrava projetou em 1998. Ele desenha constantemente em álbuns, alternando estudos de figuras e animais com detalhes para seus projetos arquitetônicos, descobrindo as formas de onde emergem suas obras. No alto da galeria há vários estudos de movimentos do corpo humano e de touros, desenhados com giz e carvão. Da maneira como foram colocados, eles dão a noção de frisas antigas.Santiago Calatrava: Sculpture into Architecture é a primeira individual dele nos EUA e a primeira exposição de um arquiteto em atividade que o Metropolitan organiza em mais de 30 anos. ?É muito emocionante estar perto dos meus ídolos, ter meus trabalhos próximos dos de Picasso e Miró?, diz Calatrava, que nunca fez nenhuma escultura com a intenção de exibir ou vender. ?Elas têm caráter doméstico, a maioria estava no meu jardim e tive de refazer várias delas para a exposição?, conta ele.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.