O escritor das culpas e sonhos da classe média

Nick Hornby está cansado daimprensa brasileira. Tão cansado que organizou uma espécie de"entrevista coletiva" por e-mail. Como Felipão, evitou asperguntas incômodas ou redundantes. Mas, de todo o modo, falousobre seu novo livro: Como Ser Legal. Antes, uma breve sinopse: Como Ser Legal narra ahistória da médica Katie Carr e de seu marido jornalista David,pais da menina Molly e do garoto Tom, que estão enfrentando umacrise no casamento. Eles não se suportam, mas a separaçãorevela-se mais complicada sentimentalmente do que imaginam.Primeiro, porque mesmo a esgrima verbal em que estãoabsolutamente treinados lhes faz falta; segundo, porque David -que assinava uma coluna intitulada O Homem Mais Mal-Humoradode Holloway - mostra-se capaz de mudar, talvez até demais. "A razão para que Katie narre o livro é técnica, masligada à narrativa: queria contar a história em primeira pessoa,e que David experimentasse a conversão", explica Hornby. "Esabia que David não era suficientemente simpático." Hornby afirma que considera importante realizar umaespécie de retrato do seu tempo: "Quero ser lido aqui e agora;sempre me quebrou a cabeça o fato de que escritores que tratamem seus livros da sociedade contemporânea não fizessemreferências a fatos, livros ou programas de TV", conta. "Epercebi que eles estavam preocupados com a posteridade; talvezmeus livros não sejam lidos em 50 anos, mas não posso mepreocupar com isso - e sei que, se não forem lidos agora, nãoterei chance de ser lido no futuro." Com essa resposta, o britânico mostra ter totalconsciência do que faz, de sua "missão" como escritor - emboranem todos os seus leitores jornalistas se dêem conta disso.Ninguém entende a classe média como Hornby. Não há nele, nem suacultura pop (exibida com maestria em Alta Fidelidade)permitiria, uma condenação "da esquerda radical" - a classemédia como gangorra prestes a trair os proletários, cedendo àspressões burguesas quando as posições se radicalizam. Mas tambémnão há a ilusão de que a felicidade está garantida com um bomemprego e uma casa financiada. Isso não significa, porém, que ignore as ideologias.Katie e David formam um casal cheio de problemas, mas tambémcheio de culpas. Ela vive a questão no trabalho, com o que chamade "pacientes-desânimo". Ele abusa da crueldade e da guerrilhaverbal, até que o casamento começa a ruir. O divórcio anunciado,contudo, muda o jogo. David se aproxima de um curandeiro chamadoBoasNovas, e decide fazer o bem. O que significa doar um doscomputadores da casa, os brinquedos dos filhos, distribuir muitodinheiro a pedintes e mesmo gostar de peças de teatro queconsideraria, antes, absolutamente insuportáveis. Tambémabandona, por motivos óbvios, sua coluna. Decide ainda abrigaradolescentes de rua e convence cinco vizinhos a fazer o mesmo,depois de levar BoasNovas para um quarto vago da casa. Claro que a mudança radical cria novos conflitos com amulher e evidencia sentimentos contraditórios: ora ela temsaudades do antigo David, ora se encanta pelo novo e se perguntase é correto impedir que ele ajude outras pessoas. Katie, depois de muita dúvida, decide continuar vivendocom David. Sabe que não será fácil, mas resolve que é precisoenfrentar os problemas. Lembrando aquele sucesso de ChicoBuarque, vale a pergunta: vão viver sob o mesmo teto até que acasa caia? Katie sabe que só terá uma resposta se arriscar ir emfrente. Nesse sentido, o livro se parece muito com AltaFidelidade. Uma crise num relacionamente, busca dealternativas, uma retomada diferente, em novas bases - esseesquema pode resumir, ainda que imperfeitamente, os dois livros.Mas há diferenças de profundidade, e Hornby explica que isso nãosignifica que seus personagens sejam "mais maduros": "Emmuitos sentidos, eles são até mesmo mais imaturos; mas eles têmmais responsabilidade e os problemas que enfrentam são maiores", diz. "Quero que meus livros se tornem, simultanteamente, maissoturnos e mais engraçados." Aplicando esse desejo a Como Ser Legal, pode-sedizer que suas cem primeiras páginas são absolutamente soturnas,com algumas coisas engraçadas, mas não do tipo que se deverecomendar a pessoas deprimidas. As cem páginas seguintes têmmais graça, mas são menos interessantes do ponto de vistaliterário. E as cem finais, enfim, é preciso pôr fim à história,e Hornby o faz com elegância.Serviço - Como Ser Legal. Romance de Nick Hornby. Rocco,308 págs., R$ 34. Tradução: Paulo Reis

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