O erudito traduz o Recife popular

Dois espetáculos levantam a mesma questão: como o balé clássico lida com as manifestações populares nordestinas?

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2011 | 00h00

Uma oportunidade única: de uma só vez, encontrar três gerações de intérpretes ligados à cultura popular do Brasil e quatro maneiras diferentes de lidar com ela. A matemática pode parecer estranha, mas quem for até o Teatro da Dança-TD hoje ou amanhã, às 21h, logo compreenderá do que se trata. Maria Paula Rego e Seu Martelo dançam Castanho Sua Cor, e Maria Eugênia Almeida e Marina Abib apresentam Festim. Atando tudo isso está uma mesma questão, embebida, em proporções diferentes, naquilo que Ariano Suassuna formulou no seu Manifesto Armorial, em 1970: como é que a dança erudita (importada da Europa) lida com as manifestações populares nordestinas?

A junção das duas obras, que faz parte do Projeto Bem Casado do TD, permite que se veja respostas distintas nos quatro corpos que as realizam. Castanho Sua Cor encerra a trilogia que Maria Paula realizou com seu grupo, o Grial, e que reúne Brincadeira de Mulato (2006) e Ilha Brasil (2007). Seu Martelo participa das três, mas é nessa última, justamente por estarem somente os dois em cena, que se torna possível ver com muita clareza dois Brasis ali. Seu Martelo, o mais antigo Mateus dos cavalos-marinhos do Recife, caboclo de lança que ainda atua no maracatu rural, é pura textura de um mundo que a dança contemporânea do Sudeste avista de longe, com poucas exceções, nas quais se inclui o trabalho de Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira.

Maria Paula é dessas raras intérpretes em quem a continuidade da pesquisa vai burilando a competência. Transforma o tempo em sabedoria, e a manifesta na movimentação e no uso da voz. Ao dançar ao lado de Seu Martelo, nos coloca cara a cara com um novo Manifesto Armorial, agora invertido, escrito na forma de dança sem dominância do erudito, 40 anos depois do de Suassuna. Aquilo que está em Seu Martelo da maneira como a tradição existe hoje, nela se mistura com muita propriedade com informações de outras geografias. Os dois em cena configuram um desses momentos históricos que demarcam antes e depois.

Olhada como obra, Castanho Sua Cor ainda pede uma revisão que compacte em um roteiro menos prolixo, a beleza e a importância do que propõe. Falta a secura daquelas peles penduradas no cenário, distendidas no corpo e na voz de Seu Martelo. Se peca por excesso, Festim padece do contrário. Produzido a partir da encomenda do TD de uma obra de somente 15 minutos, resultou de um "copia e cola" que Maria Eugênia e Marina fizeram com trabalhos anteriores. Mas, assim como a deficiência de Castanho Sua Cor não impede que nele brilhe o que mais importa, também em Festim se pode encontrar, em uma terceira geração de intérpretes, os ecos da questão colocada lá no primeiro parágrafo.

Maria Eugênia e Marina focam nos passos das danças, e Maria Paula se embrenha mais pela cultura nas quais esses passos existem. Isso clareia os pontos em que seus interesses se tocam e se afastam e localiza porque, nas duas coreografias, as propostas, são diferentes. O programa põe em cena quatro modos de lidar com as danças populares do Recife, pois a elas se reúne seu Martelo, em quem se vê o que Maria Paula chama de "Brasil profundo". Marina apura, com o treinamento em balé clássico, cada movimento que faz, produzindo linhas de muita clareza, e Maria Eugênia constrói a mesma precisão com fontes das danças populares. São duas bailarinas jovens que asseguram, para seu público, o prazer que o encontro com a qualidade produz. Trata-se de um Festim que deve ser levado em conta somente como um aperitivo para o espetáculo que, em breve, estrearão no Sesc Consolação.

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