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O entretanto, o talvez e o porém

Dúvida – essa dimensão indispensável ao poder, à escolha e ao arbítrio

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2022 | 03h00

Permitam ao cronista, que não gosta muito deste “vale de lágrimas”, que ele escreva sobre esse lugar onde entramos sem saber ou pedir e, nele vivendo, tentamos evitar fatos alarmantes e inesperados. Exceto – e eu peço perdão se ofendo algum leitor – quando encontramos o prazer físico conjugado e afim ao “vale de lágrimas”, mas que nem sempre junta o gozo corporal com um difícil de definir “bem-querer”, classificado como “amor” mutuamente consentido e certamente ambíguo por ser irônico, conforme cantam poetas e malandros sedutores de todos os quilates, em todos os tempos. O meu favorito, o velho Luís de Camões, caolho na visão, aberto no coração, escreveu:

Amor é fogo que arde sem se ver / É ferida que dói, e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer.

Relembro aqui a abertura e o seu final:

Mas como causar pode seu favor / Nos corações humanos amizade, / Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

*

No final da estrofe, aparece o humano: o “entretanto” e o “porém”. As dúvidas inerentes à liberdade que, como o amor, são tão fáceis de teorizar e tão difíceis de guiar o nosso oscilante movimento humano, marcado justamente por projetos, palpites, desejos, planos e escolhas nem sempre coerentes. Essas escolhas que são nossas, aquilo que é contrário a si mesmo como amor...

Os animais têm escolhas. Mas lembrem-se de que um elefante não come carne e um leão devora um pedaço de búfalo cru! Nós, entretanto, comemos cozido e existem tantas formas de preparar uma carne quanto os canais de TV que assinamos.

Somos criaturas do “entretanto”, do “porém” e do “todavia”. Se sobreviver é básico, esse básico é sempre qualificado por alguma forma de dúvida – essa dimensão indispensável ao poder, à escolha e ao arbítrio. Essa poeira da qual somos feitos, justamente porque em todos níveis existe os entretantos, o porém e os entrementes inerentes a todas as escolhas.

*

Nestes tragicômicos tempos pré-eleitorais, nos quais podem “cair” os de “cima” e “subir” os de “baixo”, batemos de frente com esse diáfano espaço da dúvida que é o apanágio de nossas liberdades cívicas. Elas foram inventadas para dirimir dúvidas. Mas no caso desta gloriosa eleição, todavia e entretanto, há um elemento inusitado: a repetição que, como água benta, exorciza a dúvida e afiança que, mudando, seremos sempre o que gostamos de ser – os mesmos. 

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