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O enredo agridoce de 'Nossa Cidade'

Antunes Filho opera a reconstrução do original ao introduzir referências à presença militar dos EUA em conflitos

Jefferson Del Rios - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2013 | 20h03

Erico Verissimo foi o primeiro brasileiro a conhecer o local que inspirou Nossa Cidade, de Thornton Wilder (1897-1975) uma das mais estimadas obras do teatro. O ambiente ficcional reflete a casa de Wilder, no interior dos Estados Unidos, onde Veríssimo foi hóspede. O escritor gaúcho lembraria a visita no relato de viagem Gato Preto em Campo de Neve: “Só no quarto, de luz apagada, fico a pensar no bem que me fez esta pausa em New Haven, na casa dos Wilder. Sinto que eu me não podia ir da América sem ter visto este interior, sem ter conhecido estas criaturas (...) sensíveis à beleza e à bondade, hospitaleiras, preocupadas com os problemas da arte e da cultura, mas apesar disso ou talvez por isso mesmo humanos, profundamente humanos”. O livro, de 1941, plena 2.ª Guerra, traz a seguinte dedicatória: “Aos meus amigos norte-americanos na pessoa de Thornton Wilder”.

Escrita em 1938, Nossa Cidade é o canto à capela aos acontecimentos singelos em uma comunidade sem sobressaltos. O país ainda vivia as lembranças da 1.ª Guerra, mas na qual entrou calculadamente na última hora para emergir para a liderança mundial diante da Europa destroçada. O enredo agridoce de Wilder retrata a América que ignora o mundo além dos bem cuidados jardins sem cerca. A cidadezinha inventada de Grover’s Corners (a New Haven real, sede da Universidade de Yale, é maior) reúne uma classe média conservadora, porém pacifica. Questões raciais e sociais mais graves não entram aqui. O protestante episcopal Wilder (1897-1975) observa compassivamente esse conjunto humano de hábitos domésticos e ritos sociais que se repetem como as estações do ano. Estamos na década de 10, a guerra ainda virá. Gente rotineira com apenas um habitante problemático e sonhos que não ultrapassam as colinas vizinhas. É exatamente o que o autor quis expor: “Por um período, vivi entre arqueólogos e, desde então, eu me encontro às vezes olhando para as coisas sobre mim como um arqueólogo olhará para ela milhares de anos adiante”. Acrescenta seu interesse de historiador social ao se indagar qual a “relação entre os incontáveis detalhes desimportantes de nossa vida diária, por um lado, e as grandes perspectivas do tempo, da história social e das ideias religiosas, por outro?”.

Wilder preferiu o lado poético, com um leve traço de ironia e alguma amargura. No mesmo período, outros escritores, todos à sua esquerda, viam a situação com menos tranquilidade. Um deles, Michael Gold, o autor de Judeus Sem Dinheiro tachou a produção de Wilder de falsa, produto da retórica cristã, alheada em absoluto à realidade nacional. O ataque não impediu a peça de cair no coração do público. Jamais deixou de ser representada. Há explicações e elas estão no espetáculo de Antunes Filho, sobretudo a tolerância e o pacifismo. Ao mesmo tempo, Thornton Wilder foi inovador no modo de expor a trama e na sua estrutura. Lança subtendidos de quem não era apenas um romântico e que estimulam o encenador a explorar esses meios-tons.

Outro achado seu foi o de romper o naturalismo linear com um narrador (o “diretor de cena”) independente dos acontecimentos, o que dá um caráter expositivo ao texto, um viés épico. Paralelamente, Wilder joga com o tempo. Em dado momento, os mortos de Grover’s Corners dialogam em um balanço existencial, o que confere um acento filosófico à ação.

Antunes opera a reconstrução do original ao introduzir referências à presença militar e política de Washington em todos os conflitos desde a segunda metade do século 20 (Coreia, Vietnã, Iraque, Afeganistão). Realça esse ímpeto imperial belicista ao custo de milhares de vidas, incluindo “os nossos rapazes” (termo típico das falas oficiais americanas) que saem dessas pequenas cidades desenhadas por Norman Rockwell (aqui trocadas por uma imagem rural brasileira no cenário) e habitadas por crentes no Planeta América. Antunes acentua essa infantilização nacional pelo tom e ritmo das falas dos intérpretes.

Reinvenção artística e política conduzida por atores com talento, técnica e perfeito entendimento do que faz. Um elenco (16 em cena) a exemplificar com brilho os resultados de 31 anos do Centro de Pesquisas Teatrais. Peculiaridades dos seus papéis deixam em relevo as atuações de Leonardo Medeiros (o diretor de cena, não mais a presença discreta do original, mas um mutilado de guerra); Felipe Hofstatter (o perturbado regente do coral) e Sheila Faermann como o símbolo da inocência e do patriotismo. O resultado é a síntese do posicionamento humanista que Antunes Filho oferece à consideração da plateia: alegria mesmo sabendo-se da morte, lucidez diante da irracionalidade e pacifismo em tempos de massacres. 

NOSSA CIDADE

Sesc Consolação. Teatro Sesc Anchieta. Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 6,40/R$ 32. Até 8/12.

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